Investigadora doutorada em Psicologia destaca que o assédio sexual "tem uma marca de género muito profunda".
A sedução e o assédio sexual são coisas distintas e sem "confusão possível", porque no segundo caso falta reciprocidade e sobra incómodo, alertam investigadores.
"A linha entre assédio e sedução é muito clara. As pessoas gostam de dizer que é muito confusa. Não, não é. Sedução implica reciprocidade. O assédio é um destino de poder unilateral. No assédio não há abertura, reciprocidade ou sinais da outra parte", afirma Maria João Faustino, investigadora doutorada em Psicologia.
A especialista recusa "o mito de que agora não se pode dizer nada, senão dizem que é assédio", assegurando que ninguém quer "criminalizar a sedução ou proibir as pessoas de se apaixonarem".
Maria João Faustino destaca que o assédio sexual, "como toda a violência sexual, tem uma marca de género muito profunda", pois "as dinâmicas espelham relações de poder e uma desigualdade histórica" entre homens e mulheres.
"Mulheres e homens são socializados de formas distintas. Nós somos ensinadas a ter muito cuidado com o que vestimos, por onde andamos, com quem nos damos. Temos o corpo e a conduta toda escrutinada. Há um condicionamento cultural muito forte. Os homens são socializados para ver o sexo como uma conquista, um triunfo", observa.
Anália Torres, socióloga e professora catedrática, observa que é "normal" que existam "relações de sedução" no local de trabalho.
"O que não é normal é quando alguém quer incitar uma relação, a outra pessoa diz não e o outro insiste, porque não aceita uma rejeição. E quando isto envolve relações de poder, estamos numa situação muito complicada", relata a coordenadora do estudo "Assédio Sexual e Moral no Local de Trabalho", divulgado em 2016.
Sílvia Roque, especialista em estudos sobre violência, afirma que, para os homens, "é sempre mais fácil acusar as vítimas e dizer que são muito sensíveis ou não perceberam".
"É mais fácil isso do que pensar nos privilégios que têm por ser homem e desconstruir esses privilégios de forma a criar relações mais igualitárias", observa a investigadora da Universidade de Évora.
Os homens, diz, "não estão habituados a considerar que as mulheres também têm os seus desejos e podem não querer essas atenções que não lhes interessam".
"Essa ideia de que agora não se pode dizer nada parte do princípio de que as mulheres deviam sentir-se elogiadas por serem assediadas. E isso é extremamente grave. É uma forma de deslocar a vitimização para os agressores", avisa.
Para Bernardo Coelho, investigador do Centro Interdisciplinar de Estudos de Género (CIEG), a distinção entre sedução e assédio assenta na "reciprocidade no desejo".
"Quando ambos desejam, não há problema. Há reciprocidade. Quando há um que não deseja e há insistência, então temos um problema de assédio", explica o docente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas (ISCSP) da Universidade de Lisboa.
Por outro lado, "o consentimento, nos casos de assédio, não é um definidor", sustenta.
"Pode haver um consentimento por cansaço, ou porque se criou um ambiente hostil, de perseguição, de persistência e a pessoa vê-se coagida a consentir essa aproximação", esclarece.
O especialista assinala que o assédio existe "porque há uma visão profundamente desigual do que é legítimo aos homens e às mulheres, nomeadamente do ponto de vista da sexualidade".
"Aos homens é associada a proactividade, a hiperatividade sexual, até uma certa incapacidade de contenção dos impulsos. Às mulheres é prescrita a visão de uma sexualidade contida, reservada, a ideia de uma espécie de pureza, de passividade", observa.
O assédio "produz-se e reproduz-se, em grande medida, assente neste nesta estereotipia", considera.
Quando acontece no local de trabalho, é preciso ter em mente que "as organizações são profundamente hierarquizadas e essa hierarquia também tem género, sobretudo em Portugal, onde "as mulheres ocupam muito menos lugares de liderança ou decisão económica".
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