Hospital de Évora ainda não entregou os relatórios clínicos das vítimas.
Os familiares das vítimas mortais do surto no lar da Fundação Maria Vogado Perdigão Silva, em Reguengos de Monsaraz, desesperam pelos relatórios clínicos das vítimas requeridos ao Hospital de Évora, sem os quais não podem recorrer à Justiça ou resolver processos de seguros.
O surto de Reguengos de Monsaraz foi detetado a 18 de junho. Provocou 162 casos de infeção, a maior parte no lar (80 utentes e 26 profissionais), mas também 56 pessoas da comunidade. Faleceram 18 pessoas (16 utentes, uma funcionária do lar e um outro residente na vila não relacionado com o lar).
O marido de Ludmila Istratuc, a funcionária de 42 anos e sem problemas de saúde que morreu a 1 de Julho, procura respostas e documentos: "Faz falta para o fundo das seguradoras que me querem ajudar. Faz falta para a declaração de herdeiros", explica Adrian Istratuc.
Ficou sozinho com três filhos menores e precisa do relatório para receber a verba do Fundo Solidário da Associação Portuguesa de Seguradoras e para eventualmente avançar com um processo contra a Linha SNS 24, que considera não ter dado a devida assistência à mulher.
Adrian não é o único que espera. Leonardo Pereira, neto de Maria Rosa, outra das vítimas, quer aceder aos relatórios clínicos dos familiares e não consegue. O CM questionou o Hospital de Évora, que disse ir proceder a averiguações, remetendo para hoje mais explicações.
A professora que veio à procura do sonho
Ludmila Istratuc chegou a Portugal há 10 anos. Na Moldávia era professora primária mas em Portugal trabalhava há oito anos no lar de Reguengos de Monsaraz. Veio juntar-se ao marido, que se instalou na vila alentejana um ano antes para trabalhar na agricultura.
Mais tarde vieram os filhos, David e Daniel, agora com 17 e 15 anos, respetivamente. Érica, de cinco anos, já nasceu em Portugal. Em setembro, entrou para a escola primária, sem que a mãe pudesse vê-la. Por realizar ficou o sonho de adquirir casa ou de regressar de férias à Moldávia.
Surto gerou acesa troca de acusações
PORMENORES
Falta de condições
A equipa médica que fez os primeiros rastreios denunciou à Administração Regional de Saúde a falta de condições no lar. Havia "doentes acamados, desidratados e desnutridos".
Relatório
O relatório da Ordem dos Médicos que deu conta de incumprimentos graves das normas da DGS no lar aponta a falência renal como a possível causa para as 18 mortes na instituição.
Certidões confirmam morte por Covid-19
Ao CM, a Fundação Maria Vogado Perdigão Silva diz que esteve sob a alçada das autoridades de saúde pública e que as certidões de óbito indicam que todos as mortes foram por "infeção por Covid, ou pneumonia ou sépsis por Covid" e nenhuma por desnutrição ou desidratação.
Hospital responde com formulários
Em resposta ao pedido de esclarecimentos feito pelo CM, o Hospital do Espírito Santo de Évora (HESE) informou que "existem formulários próprios para esse efeito que poderão não ter sido devidamente preenchidos". O secretariado do hospital irá averiguar a situação.
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