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Livros afectam sexualidade

As leituras obrigatórias da disciplina de Português do Ensino Secundário e os afectos e comportamentos sexuais dos jovens parecem ser dois temas que nada têm em comum. Mas Maria Gabriela Silva, professora e coordenadora da Educação para a Saúde da Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa, provou que aquilo que é pedido aos alunos para ler, da poesia trovadoresca a ‘Os Maias’, passando pelo ‘Amor de Perdição’, afinal afecta a vida afectiva e sexual dos jovens.

20 de abril de 2008 às 00:30

Através de cerca de mil inquéritos feitos a alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos, em diferentes anos lectivos, e a recém-saídos das escolas secundárias, que deram origem a uma tese de doutoramento única em Portugal, amanhã apresentada em forma de livro, foi possível concluir que os jovens são influenciados pelas histórias de amores dramáticos, de desamores ou traições.

Ao todo, 77,8 por cento dos inquiridos que já tinha concluído os seus estudos admitiam essa influência. Entre os que ainda se encontravam a estudar, 80 por cento identificava o contributo, com muitos a admitirem que os textos lidos ajudaram, de alguma forma, a entender a sexualidade, sobretudo no que diz respeito ao desejo.

Resultado que, como confessou ao CM, a autora de ‘Ler e Amar na Adolescência’ já esperava. "Sempre achei que havia uma ligação entre o que era ensinado nas aulas de Português e a parte emocional e, por isso, decidi fazer um estudo que o comprovasse." Ficou claro, diz a professora, que os livros influenciam a vida dos jovens.

"Em várias situações, aludindo a namoros ou a relações que tiveram, citam passagens das obras lidas", refere. No entanto, acrescenta, "a escola secundária passa para os adolescentes uma imagem exacerbada dos afectos." E mais: os jovens "acabam por filtrar, exactamente, os comportamentos mais drásticos das narrativas, o que se afigura danoso para o seu equilíbrio emocional".

Por isso, Gabriela Silva não tem qualquer dúvida em defender uma revisão das leituras obrigatórias para os estudantes no Ensino Secundário. "Teremos de escolher quais as mais adequadas e esta é uma reflexão que deve ser feita por um grupo não só composto por professores, mas também por pediatras, psicólogos, psiquiatras...".

PERFIL

Maria Gabriela de Sousa Silva, é casada e tem dois filhos. É licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestre em Literaturas Comparadas dos séculos XIX e XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutora em Letras, na especialidade de Literatura Portuguesa, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.

EDUCAÇÃO SEXUAL PRECISA-SE

Distribuir a temática da Educação Sexual por todas as disciplinas seria, para Maria Gabriela Silva, a melhor forma de passar a mensagem pretendida. "A grande maioria das disciplinas tem pontos onde é possível pegar para abordar estas matérias. A Biologia é própria para isso, a História, a Geografia, por comparação com o que se passa noutros países, o Português, com vários exemplos da literatura...", defende a professora. Recentemente, o Ministério da Educação avançou com a intenção de reforçar o apoio dado às escolas para que possam levar a cabo os projectos no âmbito da Educação Sexual, tema que, por decisão da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, é de abordagem obrigatória nos estabelecimentos de ensino, uma medida que contempla ainda a criação de gabinetes de apoio aos alunos. Na escola onde lecciona, Maria Gabriela Silva conta que se têm realizado sessões sobre o tema: algumas amplas, com especialistas convidados e abertas a toda a escola e pais dos alunos; e outras restritas à sala de aulas, que são as preferidas pelos mais tímidos e envergonhados, onde são discutidos assuntos e esclarecidas dúvidas.

EMOÇÕES LIGADAS À LEITURA

A autora procurou perceber de que forma as leituras obrigatórias de Português no Ensino Secundário influenciaram a vida afectiva e sexual dos alunos. As conclusões revelam a importância daquilo que é lido nas escolas.

- 8,3% ignora a influência

- 13,9% rejeita a influência

- 77,8% aceita a influência

Contributo das leituras para a formação da componente afectiva

Sim – 88%

Não – 12%

Contributo das leituras para a formação da componente sexual

Sim – 80%

Não – 20%

ENTUSIASMO PELA 'ILHA DOS AMORES'

O episódio da ‘Ilha dos Amores’, em ‘Os Lusíadas’, de Camões, foi uma das leituras avaliadas. Segundo a professora, quando os alunos são informados que este episódio, dominado pelo erotismo e sensualidade, faz parte do programa, "gera-se entre eles um notório entusiasmo". A propósito dessa leitura, um aluno referia: "A sensualidade das ninfas enlouquece os marinheiros, mas não é de admirar porque se fôssemos nós também ficávamos apanhados."

CINCO MIL GRÁVIDAS ADOLESCENTES

Desde a falta de informação sobre os métodos contraceptivos a uma inadequada educação para a sexualidade, são vários os motivos que contribuem para as elevadas taxas de gravidez na adolescência, que tornam Portugal um dos países com mais mães jovens da Europa. O Instituto Nacional de Estatística (INE) contabilizou, em 2006, 4905 casos de gravidez na adolescência, 566 dos quais em jovens com apenas 16 anos. Um ano com mais 1298 situações do que no anterior. Em 2005 e 2006, 27 meninas com 13 anos tornaram-se mães.

PARA ELAS:

AMOR

 

- Sentimento determinante pelo qual se deve lutar

- Coordena a felicidade e a saúde

- Quando não recíproco, provoca sofrimento

- Associado a desejo e sexo

PARA ELES:

AMOR

-  Identifica-se com a felicidade

-  Quando não recíproco, provoca o sofrimento

- Complementado com a actividade sexual

- Diferente do desejo descontrolado

- Presenta várias formas que facilitam a beleza da vida

NOTAS

SEXO DESPERTA CURIOSIDADE

De acordo com a autora, "os adolescentes sentem curiosidade por textos que abordem a temática da sexualidade".

 

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