As leituras obrigatórias da disciplina de Português do Ensino Secundário e os afectos e comportamentos sexuais dos jovens parecem ser dois temas que nada têm em comum. Mas Maria Gabriela Silva, professora e coordenadora da Educação para a Saúde da Escola Secundária D. Pedro V, em Lisboa, provou que aquilo que é pedido aos alunos para ler, da poesia trovadoresca a ‘Os Maias’, passando pelo ‘Amor de Perdição’, afinal afecta a vida afectiva e sexual dos jovens.
Através de cerca de mil inquéritos feitos a alunos dos 10.º, 11.º e 12.º anos, em diferentes anos lectivos, e a recém-saídos das escolas secundárias, que deram origem a uma tese de doutoramento única em Portugal, amanhã apresentada em forma de livro, foi possível concluir que os jovens são influenciados pelas histórias de amores dramáticos, de desamores ou traições.
Ao todo, 77,8 por cento dos inquiridos que já tinha concluído os seus estudos admitiam essa influência. Entre os que ainda se encontravam a estudar, 80 por cento identificava o contributo, com muitos a admitirem que os textos lidos ajudaram, de alguma forma, a entender a sexualidade, sobretudo no que diz respeito ao desejo.
Resultado que, como confessou ao CM, a autora de ‘Ler e Amar na Adolescência’ já esperava. "Sempre achei que havia uma ligação entre o que era ensinado nas aulas de Português e a parte emocional e, por isso, decidi fazer um estudo que o comprovasse." Ficou claro, diz a professora, que os livros influenciam a vida dos jovens.
"Em várias situações, aludindo a namoros ou a relações que tiveram, citam passagens das obras lidas", refere. No entanto, acrescenta, "a escola secundária passa para os adolescentes uma imagem exacerbada dos afectos." E mais: os jovens "acabam por filtrar, exactamente, os comportamentos mais drásticos das narrativas, o que se afigura danoso para o seu equilíbrio emocional".
Por isso, Gabriela Silva não tem qualquer dúvida em defender uma revisão das leituras obrigatórias para os estudantes no Ensino Secundário. "Teremos de escolher quais as mais adequadas e esta é uma reflexão que deve ser feita por um grupo não só composto por professores, mas também por pediatras, psicólogos, psiquiatras...".
PERFIL
Maria Gabriela de Sousa Silva, é casada e tem dois filhos. É licenciada em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, mestre em Literaturas Comparadas dos séculos XIX e XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa e doutora em Letras, na especialidade de Literatura Portuguesa, pela Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa.
EDUCAÇÃO SEXUAL PRECISA-SE
Distribuir a temática da Educação Sexual por todas as disciplinas seria, para Maria Gabriela Silva, a melhor forma de passar a mensagem pretendida. "A grande maioria das disciplinas tem pontos onde é possível pegar para abordar estas matérias. A Biologia é própria para isso, a História, a Geografia, por comparação com o que se passa noutros países, o Português, com vários exemplos da literatura...", defende a professora. Recentemente, o Ministério da Educação avançou com a intenção de reforçar o apoio dado às escolas para que possam levar a cabo os projectos no âmbito da Educação Sexual, tema que, por decisão da ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, é de abordagem obrigatória nos estabelecimentos de ensino, uma medida que contempla ainda a criação de gabinetes de apoio aos alunos. Na escola onde lecciona, Maria Gabriela Silva conta que se têm realizado sessões sobre o tema: algumas amplas, com especialistas convidados e abertas a toda a escola e pais dos alunos; e outras restritas à sala de aulas, que são as preferidas pelos mais tímidos e envergonhados, onde são discutidos assuntos e esclarecidas dúvidas.
EMOÇÕES LIGADAS À LEITURA
A autora procurou perceber de que forma as leituras obrigatórias de Português no Ensino Secundário influenciaram a vida afectiva e sexual dos alunos. As conclusões revelam a importância daquilo que é lido nas escolas.
- 8,3% ignora a influência
- 13,9% rejeita a influência
- 77,8% aceita a influência
Contributo das leituras para a formação da componente afectiva
Sim – 88%
Não – 12%
Contributo das leituras para a formação da componente sexual
Sim – 80%
Não – 20%
ENTUSIASMO PELA 'ILHA DOS AMORES'
O episódio da ‘Ilha dos Amores’, em ‘Os Lusíadas’, de Camões, foi uma das leituras avaliadas. Segundo a professora, quando os alunos são informados que este episódio, dominado pelo erotismo e sensualidade, faz parte do programa, "gera-se entre eles um notório entusiasmo". A propósito dessa leitura, um aluno referia: "A sensualidade das ninfas enlouquece os marinheiros, mas não é de admirar porque se fôssemos nós também ficávamos apanhados."
CINCO MIL GRÁVIDAS ADOLESCENTES
Desde a falta de informação sobre os métodos contraceptivos a uma inadequada educação para a sexualidade, são vários os motivos que contribuem para as elevadas taxas de gravidez na adolescência, que tornam Portugal um dos países com mais mães jovens da Europa. O Instituto Nacional de Estatística (INE) contabilizou, em 2006, 4905 casos de gravidez na adolescência, 566 dos quais em jovens com apenas 16 anos. Um ano com mais 1298 situações do que no anterior. Em 2005 e 2006, 27 meninas com 13 anos tornaram-se mães.
PARA ELAS:
AMOR
- Sentimento determinante pelo qual se deve lutar
- Coordena a felicidade e a saúde
- Quando não recíproco, provoca sofrimento
- Associado a desejo e sexo
PARA ELES:
AMOR
- Identifica-se com a felicidade
- Quando não recíproco, provoca o sofrimento
- Complementado com a actividade sexual
- Diferente do desejo descontrolado
- Presenta várias formas que facilitam a beleza da vida
NOTAS
SEXO DESPERTA CURIOSIDADE
De acordo com a autora, "os adolescentes sentem curiosidade por textos que abordem a temática da sexualidade".
Tem sugestões ou notícias para partilhar com o CM?
Envie para geral@cmjornal.pt
o que achou desta notícia?
concordam consigo
A redação do CM irá fazer uma avaliação e remover o comentário caso não respeite as Regras desta Comunidade.
O seu comentário contem palavras ou expressões que não cumprem as regras definidas para este espaço. Por favor reescreva o seu comentário.
O CM relembra a proibição de comentários de cariz obsceno, ofensivo, difamatório gerador de responsabilidade civil ou de comentários com conteúdo comercial.
O Correio da Manhã incentiva todos os Leitores a interagirem através de comentários às notícias publicadas no seu site, de uma maneira respeitadora com o cumprimento dos princípios legais e constitucionais. Assim são totalmente ilegítimos comentários de cariz ofensivo e indevidos/inadequados. Promovemos o pluralismo, a ética, a independência, a liberdade, a democracia, a coragem, a inquietude e a proximidade.
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza expressamente o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes ou formatos actualmente existentes ou que venham a existir.
O propósito da Política de Comentários do Correio da Manhã é apoiar o leitor, oferecendo uma plataforma de debate, seguindo as seguintes regras:
Recomendações:
- Os comentários não são uma carta. Não devem ser utilizadas cortesias nem agradecimentos;
Sanções:
- Se algum leitor não respeitar as regras referidas anteriormente (pontos 1 a 11), está automaticamente sujeito às seguintes sanções:
- O Correio da Manhã tem o direito de bloquear ou remover a conta de qualquer utilizador, ou qualquer comentário, a seu exclusivo critério, sempre que este viole, de algum modo, as regras previstas na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, a Lei, a Constituição da República Portuguesa, ou que destabilize a comunidade;
- A existência de uma assinatura não justifica nem serve de fundamento para a quebra de alguma regra prevista na presente Política de Comentários do Correio da Manhã, da Lei ou da Constituição da República Portuguesa, seguindo a sanção referida no ponto anterior;
- O Correio da Manhã reserva-se na disponibilidade de monitorizar ou pré-visualizar os comentários antes de serem publicados.
Se surgir alguma dúvida não hesite a contactar-nos internetgeral@medialivre.pt ou para 210 494 000
O Correio da Manhã oferece nos seus artigos um espaço de comentário, que considera essencial para reflexão, debate e livre veiculação de opiniões e ideias e apela aos Leitores que sigam as regras básicas de uma convivência sã e de respeito pelos outros, promovendo um ambiente de respeito e fair-play.
Só após a atenta leitura das regras abaixo e posterior aceitação expressa será possível efectuar comentários às notícias publicados no Correio da Manhã.
A possibilidade de efetuar comentários neste espaço está limitada a Leitores registados e Leitores assinantes do Correio da Manhã Premium (“Leitor”).
Ao comentar, o Leitor está a declarar que é o único e exclusivo titular dos direitos associados a esse conteúdo, e como tal é o único e exclusivo responsável por esses mesmos conteúdos, e que autoriza o Correio da Manhã a difundir o referido conteúdo, para todos e em quaisquer suportes disponíveis.
O Leitor permanecerá o proprietário dos conteúdos que submeta ao Correio da Manhã e ao enviar tais conteúdos concede ao Correio da Manhã uma licença, gratuita, irrevogável, transmissível, exclusiva e perpétua para a utilização dos referidos conteúdos, em qualquer suporte ou formato atualmente existente no mercado ou que venha a surgir.
O Leitor obriga-se a garantir que os conteúdos que submete nos espaços de comentários do Correio da Manhã não são obscenos, ofensivos ou geradores de responsabilidade civil ou criminal e não violam o direito de propriedade intelectual de terceiros. O Leitor compromete-se, nomeadamente, a não utilizar os espaços de comentários do Correio da Manhã para: (i) fins comerciais, nomeadamente, difundindo mensagens publicitárias nos comentários ou em outros espaços, fora daqueles especificamente destinados à publicidade contratada nos termos adequados; (ii) difundir conteúdos de ódio, racismo, xenofobia ou discriminação ou que, de um modo geral, incentivem a violência ou a prática de atos ilícitos; (iii) difundir conteúdos que, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, tenham como objetivo, finalidade, resultado, consequência ou intenção, humilhar, denegrir ou atingir o bom-nome e reputação de terceiros.
O Leitor reconhece expressamente que é exclusivamente responsável pelo pagamento de quaisquer coimas, custas, encargos, multas, penalizações, indemnizações ou outros montantes que advenham da publicação dos seus comentários nos espaços de comentários do Correio da Manhã.
O Leitor reconhece que o Correio da Manhã não está obrigado a monitorizar, editar ou pré-visualizar os conteúdos ou comentários que são partilhados pelos Leitores nos seus espaços de comentário. No entanto, a redação do Correio da Manhã, reserva-se o direito de fazer uma pré-avaliação e não publicar comentários que não respeitem as presentes Regras.
Todos os comentários ou conteúdos que venham a ser partilhados pelo Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã constituem a opinião exclusiva e única do seu autor, que só a este vincula e não refletem a opinião ou posição do Correio da Manhã ou de terceiros. O facto de um conteúdo ter sido difundido por um Leitor nos espaços de comentários do Correio da Manhã não pressupõe, de forma direta ou indireta, explícita ou implícita, que o Correio da Manhã teve qualquer conhecimento prévio do mesmo e muito menos que concorde, valide ou suporte o seu conteúdo.
ComportamentoO Correio da Manhã pode, em caso de violação das presentes Regras, suspender por tempo determinado, indeterminado ou mesmo proibir permanentemente a possibilidade de comentar, independentemente de ser assinante do Correio da Manhã Premium ou da sua classificação.
O Correio da Manhã reserva-se ao direito de apagar de imediato e sem qualquer aviso ou notificação prévia os comentários dos Leitores que não cumpram estas regras.
O Correio da Manhã ocultará de forma automática todos os comentários uma semana após a publicação dos mesmos.
Para usar esta funcionalidade deverá efetuar login.
Caso não esteja registado no site do Correio da Manhã, efetue o seu registo gratuito.
Escrever um comentário no CM é um convite ao respeito mútuo e à civilidade. Nunca censuramos posições políticas, mas somos inflexiveis com quaisquer agressões. Conheça as
Inicie sessão ou registe-se para comentar.