Estudo baseia-se num inquérito anónimo global feito a pessoas que procuravam material de abuso sexual de menores.
Três em cada cinco pessoas que pesquisaram imagens de abuso sexual de menores 'online' foram inicialmente expostas a este conteúdo antes dos 18 anos e em metade das vezes o material apareceu-lhes espontaneamente, revela um estudo esta quarta-feira divulgado.
O estudo baseia-se num inquérito anónimo global, realizado junto de pessoas que procuravam material de abuso sexual de menores (MASM) no motor de busca da 'dark web' Ahmia.fi.
O inquérito aparecia quando os utilizadores pesquisavam termos relacionados com MASM e, em vez de apresentar resultados de pesquisa ilegais, eram redirecionados para as perguntas e para recursos de prevenção.
Realizado pela organização não governamental finlandesa Protect Children e apoiado pelo regulador britânico Ofcom, o estudo conclui que a exposição precoce à pornografia e ao MASM é um fator de risco importante.
Aos 18 anos, 65% dos inquiridos já tinham visto pornografia e 59% já tinham visto MASM.
Mesmo antes de fazer 10 anos, 17% dos inquiridos já tinham visto pornografia e 13% já tinham visto imagens de abuso sexual de menores.
Além disso, quase metade dos inquiridos (46%) disse que o seu primeiro contacto com MASM não foi intencional, tendo as imagens aparecido ‘online’ sem qualquer pesquisa ou sido mostradas por outra pessoa, na maioria das vezes um amigo.
Muitos disseram ter encontrado o MASM numa rede social ou numa plataforma de partilha de conteúdos e outros numa aplicação de troca de mensagens.
Menos de três em cada 10 inquiridos (28%) disseram ter procurado ativamente esse material ilegal da primeira vez que o viram.
No entanto, após o primeiro contacto, mais de metade dos inquiridos disse ter começado a pesquisar pornografia e MASM antes dos 18 anos e 14% disseram tê-lo feito antes dos 10 anos.
Segundo os autores do estudo, a exposição a pornografia na infância está “significativamente associada a comportamentos sexuais prejudiciais posteriores” e pode “aumentar a vulnerabilidade a uma escalada para material mais extremo ou ilegal, incluindo MASM”.
Os inquiridos, maioritariamente homens jovens – 75% tinham entre 18 e 34 anos –, disseram ter visto sobretudo imagens com raparigas (88%).
Embora na maioria dos casos as vítimas fossem adolescentes, também há relatos de MASM envolvendo crianças e mesmo bebés.
Além disso, três em cada 10 inquiridos reconheceu ter visto MASM envolvendo violência.
O estudo conclui também que os perpetradores acedem a MASM através de motores de busca e páginas de pornografia, tanto da ‘dark web’ como da web aberta.
“A ampla acessibilidade ao MASM ‘online’ (…) impulsiona o abuso e a exploração sexual de crianças ‘online’. A possibilidade de disseminar MASM anonimamente na internet, combinada com a crescente presença de crianças em plataformas ‘online’ sem mecanismos de proteção suficientes, facilita a exposição a material violento e multiplica as oportunidades de cometer abusos”, alertam os autores do estudo.
Os autores alertam ainda que as tecnologias emergentes estão a reformular a produção, distribuição e consumo de MASM.
Mais de um em cada três inquiridos (35%) disse ter visto ou criado MASM gerado por inteligência artificial (IA), mas este número pode estar subestimado porque muitos admitem que não sabem distinguir imagens reais das geradas por IA.
O estudo alerta que o MASM gerado por IA causa danos significativos mesmo quando nenhuma criança real está diretamente envolvida, uma vez que sexualiza e objetifica crianças, sustenta a procura de material abusivo e reforça fantasias prejudiciais.
A Protect Children, que trabalha a nível internacional para defender o direito das crianças a uma infância livre de violência sexual, apela no relatório a uma ação urgente para reforçar as salvaguardas, implementar princípios de segurança, expandir uma moderação eficaz e implementar intervenções digitais que previnam o abuso antes que este se agrave.
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