Antigamente eram às centenas as cabeças de gado que vinham por essa serra acima para a bênção dos animais. Hoje, bois e vacas são dez ou vinte. Os cavalos é que têm aumentado muito".
Do alto dos seus 80 anos, Delfina Barros pinta, em poucas palavras, o quadro actual da secular festa de Santo António de Mixões da Serra, concelho de Vila Verde, onde, no próximo domingo, se celebra a missa da bênção dos animais.
E se os bois e as vacas são cada vez menos, o número de cavalos tem aumentado significativamente. "No ano passado eram 230, entre burras e cavalos", disse ao CM José Pereira, um dos 15 moradores deste pequeno lugar serrano da freguesia de Valdreu.
A bênção dos animais é um rito que, para muitos, vem da Idade Média, mas cujos registos mais antigos apontam para o século XVII, altura em que foi grande o fervor pelos santos protectores. Santo António, para além de casamenteiro, é o protector dos animais.
Assim, no domingo (sempre no que antecede o dia 13 de Junho), logo pela manhã, o largo fronteiro ao pequeno santuário enche-se de animais domésticos. Os donos percorrem as tendas e as tascas da festa, conversando, petiscando e fazendo negócios, e, ao meio-dia, assistem à missa, ao lado dos animais.
Na altura da bênção, o padre António Pereira Marques desce do altar, naquele dia montado na varanda da igreja, e asperge água benta sobre todos os animais, percorrendo o recinto ao longo de mais de meia hora.
"Isto é muito bonito. Até os animais mantêm uma atitude de respeito durante a celebração da missa e na bênção" diz Joaquina Rodrigues que, residindo em Ponte da Barca, todos os anos vai à festa de Mixões da Serra.
IGREJA DAS TORRES REDONDAS
É bastante original o pequeno santuário de Santo António de Mixões da Serra. Edificado a partir de uma pequena capela do século XVI, esteve em obras entre 1916 e 1952, altura em que, por iniciativa do padre João de Deus, foram construídas as duas torres redondas da fachada. "É uma construção invulgar, toda em granito e fruto do suor das gentes destes lugares mais altos da freguesia de Valdreu", diz o padre António Marques, pároco da aldeia. Segundo o sacerdote, a pedra foi toda "cortada a marreta e cinzel em pedreiras da região e transportada para o local pelos carros de bois dos agricultores da terra". Entre as duas torres, sobre a porta principal, sobressai uma varanda, criada para realçar a imagem de Santo António e para a celebração da missa campal da bênção dos animais.
PROCISSÃO JÁ CONTA 350 ANOS
Desde pelo menos 1660 que em Mixões da Serra se realiza, logo a seguir à missa da bênção dos animais, uma procissão com um andor, onde vai uma antiquíssima imagem de Santo António, a que o povo chama "a procissão do santo original". Trata-se de uma imagem de madeira, de grande valor histórico-artístico, que a confraria mantém "guardada a sete chaves", por razões de segurança. "O santo é o mesmo, mas parece que esta imagem tem mais poderes. Pelo menos, o povo acredita mais nela", diz Joaquina Rodrigues. E a verdade é que junta muita mais gente esta procissão do que a que se realiza no dia 13, apesar de esta ter mais andores. Também é verdade que, no dia do padroeiro, Mixões da Serra conta com a "concorrência" da sede do concelho, onde também se festeja o Santo António.
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