Antes do transporte aéreo em massa, durante muito tempo foram os navios que espalharam epidemias, como a Peste Negra.
Desde a Peste Negra à covid-19, um navio é um terreno ideal para a propagação de vírus devido à grande proximidade entre as pessoas e partilha de espaços e equipamentos a bordo, alertam especialistas.
"O pior lugar para ter uma epidemia, como um incêndio, é um local fechado longe de qualquer ajuda, como um navio em alto mar", resumiu o académico norte-americano Alfred Crosby na obra "Epidemia e Paz, 1918".
"O risco é duplo", disse Jean-Pierre Auffray, presidente honorário da Sociedade Francesa de Medicina Marítima (SFMM), à agência francesa AFP: "A transferência da doença para terra e a infeção das pessoas a bordo".
"Os navios continuam a ser um ambiente fechado, com contacto prolongado, repetido e próximo, o que ajuda à propagação de certas epidemias, em particular aquelas transmissíveis por via aérea, como a gripe, a covid, e o contacto alimentar como epidemias de norovírus", explicou o presidente honorário da SFMM, que publicará o livro "Infeções em ambiente marítimo" em junho.
No navio de cruzeiro "Hondius", mais de 100 pessoas de diversas nacionalidades foram desembarcadas e repatriadas no domingo e na segunda-feira a partir das Canárias devido a um surto de hantavírus, que pode ser transmitido por aerossóis. As autoridades têm afastado um cenário de epidemia.
Além disso, mais de 1.700 pessoas estavam esta quarta-feira confinadas a bordo de um navio de cruzeiro que chegou na noite de terça-feira a Bordéus (sudoeste de França), após a morte de um passageiro e uma suspeita de epidemia de gastroenterite.
A pandemia de covid-19 atingiu muitos navios, de guerra e de cruzeiro, como o paquete "Zaandam", que vagueou durante dias com vários infetados a bordo, rejeitado por muitos países da América Latina antes de conseguir atracar na Florida, Estados Unidos, ou o porta-aviões francês "Charles de Gaulle", onde centenas de marinheiros foram afetados.
Navios de guerra e navios de cruzeiro são diferentes -- mais espaçosos para civis -- e transportam populações diametralmente opostas -- jovens militares e passageiros reformados de cruzeiro -- mas os mecanismos de contágio são os mesmos: as pessoas usam muitos equipamentos em comum e cruzam-se várias vezes por dia.
"Aprendemos com a epidemia de covid e houve melhorias" nos forros, explicou Auffray.
"Melhorámos os circuitos de ventilação, o que permite combater melhor a propagação dos aerossóis. Em alguns barcos grandes, há cabines dedicadas ao isolamento dos doentes, com circuitos sanitários especiais para cuidados e eliminação de resíduos, e há melhor formação para os médicos do navio", exemplificou.
Outro receio é a propagação de uma epidemia após o desembarque e por vezes as autoridades recusam deixar navios contaminados atracarem.
Antigamente, passageiros e tripulações de navios em quarentena eram mantidos longe dos portos, em lazaretos, frequentemente localizados em ilhéus.
"A ética não era a mesma, a quarentena era: 'morram no vosso barco e não venham contaminar-nos'", referiu Auffray.
Os passageiros do "Hondius" já saíram do navio, mas é possível localizá-los.
"Podemos contar todas as pessoas que hoje tiveram contacto com uma pessoa infecciosa", disse o epidemiologista francês Antoine Flahault numa conferência de imprensa na terça-feira.
Antes do transporte aéreo em massa, durante muito tempo foram os navios que espalharam epidemias, como a Peste Negra, trazida na década de 1340 por marinheiros genoveses, contaminados durante o cerco do posto comercial de Caffa, na Crimeia, pelos cadáveres de soldados tártaros afetados pela peste e catapultados por cima das muralhas pelo exército do Khan.
Quando zarparam novamente, os genoveses embarcaram e espalharam a Peste Negra, que matou até metade da população europeia.
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