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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

Nobel da Química cria máquina que capta água potável do ar seco

Invenção pode produzir até 1.000 litros de água limpa por dia e funcionar de forma autónoma.

21 de fevereiro de 2026 às 21:13

O químico Omar Yaghi, vencedor do Prémio Nobel da Química em 2025, desenvolveu uma tecnologia capaz de extrair água potável diretamente do ar, mesmo em regiões áridas e desérticas. A invenção, descrita pelo próprio como uma forma de “reimaginar a matéria”, pode produzir até 1.000 litros de água limpa por dia e funcionar de forma autónoma, mesmo quando os sistemas centrais de abastecimento falham devido a furacões ou secas prolongadas.

A tecnologia baseia-se numa área científica conhecida como química reticular, que permite criar materiais molecularmente concebidos para capturar a humidade presente na atmosfera. Estes materiais conseguem extrair vapor de água do ar e transformá-lo em água potável, utilizando apenas energia térmica ambiente de muito baixa intensidade.

A empresa Atoco, fundada por Yaghi, revelou que as unidades, com dimensões semelhantes às de um contentor marítimo de 20 pés, podem ser instaladas em comunidades locais e operar totalmente fora da rede elétrica. Esta independência torna-as particularmente valiosas em cenários de emergência, quando tempestades ou secas comprometem as infraestruturas tradicionais de água e eletricidade.

Além disso, a solução apresenta-se como uma alternativa ambientalmente mais segura à dessalinização, um processo que, embora eficaz, pode ameaçar os ecossistemas marinhos devido à descarga de salmoura concentrada no oceano, de acordo com o jornal The Guardian.

A inovação surge num contexto global alarmante. Um relatório recente das Nações Unidas alertou que o planeta entrou numa era de “falência hídrica global”, com quase três quartos da população mundial a viver em países classificados como inseguros em termos de água.

Segundo o relatório: cerca de 2,2 mil milhões de pessoas não têm acesso a água potável gerida com segurança; 3,5 mil milhões carecem de saneamento adequado; aproximadamente 4 mil milhões enfrentam escassez severa de água durante pelo menos um mês por ano.

Perante estes números, tecnologias descentralizadas e resilientes como a de Yaghi podem desempenhar um papel determinante na adaptação às alterações climáticas.

A ligação de Yaghi à questão da água é profundamente pessoal. Cresceu num campo de refugiados na Jordânia, numa casa sem eletricidade nem água canalizada. No seu discurso de aceitação do Nobel, recordou como a água chegava à comunidade apenas uma vez por semana, ou de quinze em quinze dias, e como corria para encher todos os recipientes disponíveis antes que o abastecimento cessasse.

Essa experiência marcou-o profundamente e alimentou a ambição de criar soluções científicas capazes de transformar vidas. Para Yaghi, a ciência deve ser acompanhada por coragem política e cooperação internacional.

“Na questão climática, a hora da ação coletiva já chegou”, afirmou. “A ciência está aqui. O que precisamos agora é de coragem - uma coragem à escala da enormidade do desafio - para oferecer às próximas gerações não apenas tecnologias de captura de carbono, mas um planeta à altura das suas esperanças.”

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