Arquiteto responsável acusou a Câmara do Porto, a Agência Portuguesa do Ambiente e o Ministério do Ambiente de terem "uma atitude 'trumpiana'" ao decidir demolir parte do imóvel.
A Ordem dos Arquitetos pediu uma reunião à Câmara do Porto sobre a anunciada intenção de demolição do Edifício Transparente, manifestando o presidente, Avelino Oliveira, apreensão quanto aos comentários sobre a estética da infraestrutura por parte de responsáveis políticos.
"As nossas relações institucionais com a Câmara do Porto são muito boas e, portanto, aquilo que nós solicitamos foi o ter conhecimento do andamento do processo", disse hoje à Lusa o presidente do conselho diretivo nacional da Ordem dos Arquitetos, Avelino Oliveira.
Na sexta-feira, quer o presidente nacional quer o do Conselho Diretivo Regional Norte, Bruno Marques, "solicitaram à Câmara Municipal do Porto o agendamento de uma reunião para obter esclarecimentos sobre a intervenção prevista para o denominado Edifício Transparente", foi oficialmente comunicado.
A ordem "entende ser seu dever acompanhar institucionalmente este processo", dada a "relevância urbana, arquitetónica, paisagística e pública desta matéria, bem como o impacto que poderá ter sobre uma obra amplamente conhecida e sobre a frente marítima do Porto".
Dizendo à Lusa que a Ordem dos Arquitetos tem "bem consciência do que está previsto" no Plano da Orla Costeira Caminha-Espinho (POC-CE), e em face dos "vários comentários no espaço mediático" de entidades oficiais, a ordem pretende "simplesmente acompanhar e tomar nota do processo", sem "nenhuma opinião pré-estabelecida".
"Percebemos a complexidade da questão e as preocupações das entidades públicas, mas acho que também percebem que a Ordem dos Arquitetos tenha interesse em acompanhar isto devidamente e, na medida do possível, salvaguardar todos aqueles que são princípios de boa colaboração para o desenvolvimento das cidades", disse Avelino Oliveira à Lusa.
Questionado sobre considerações sobre a estética do edifício por parte de responsáveis políticos, como foi o caso da ministra do Ambiente, Maria da Graça Carvalho, que considerou o edifício "muito feio", Avelino Oliveira observou esse fenómeno com "alguma apreensão".
"Observamos com alguma apreensão e creio que possam ter menos justificação. Agora, relativamente às opções de dimensão política, e estratégicas de um território relativamente ao seu futuro, isso nós compreendemos, compreendemos que essa análise e essas opções tenham legitimidade para acontecer, mas não com base em critérios estéticos", considerou.
Para Avelino Oliveira, não se deve "estar num dia a criticar o Presidente dos Estados Unidos da América [Donald Trump] por estar a impor um código de estética nos edifícios públicos" e depois "estar quase que, de uma forma implícita, a fazer coisas parecidas".
"As cidades são organismos vivos que se transformam, que se reinventam, e os edifícios também necessitam de intervenções, muitas vezes de manutenção, outras de renovação, outras de requalificação, adaptação, e os arquitetos são aqueles que conhecem melhor esses processos", considerou.
Ressalvou, porém, que "é comum estas coisas levantarem, muitas vezes, polémicas localizadas no tempo que depois acabam por se desvanecer e perder a sua importância".
O arquiteto Carlos Prata, responsável pela requalificação do Edifício Transparente, acusou a Câmara do Porto, a Agência Portuguesa do Ambiente (APA) e o Ministério do Ambiente de terem "uma atitude 'trumpiana'" ao decidir demolir parte do imóvel.
O Edifício Transparente foi construído em 2001 no âmbito do projeto de extensão do Parque da Cidade até ao mar, da autoria do arquiteto catalão Solà-Morales, intervenção financiada pelo programa Polis e integrada no plano de obras da empresa promotora do Porto 2001 - Capital Europeia da Cultura.
O POC-CE, em vigor desde 2021, identifica 46 áreas críticas e determina o recuo de dezenas de núcleos habitacionais, bem como a proteção da praia Internacional no Porto, junto ao Edifício Transparente, cuja demolição está prevista até 2028.
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