Rui Valério salientou que o catolicismo e a cultura cristã são "forte promotor da mentalidade universalista".
O patriarca de Lisboa considera que o aumento dos estrangeiros em Portugal não coloca em causa a matriz cristã da sociedade portuguesa e criticou os católicos que são contra os imigrantes, por desrespeitarem os ensinamentos de Cristo.
Em entrevista à Lusa, Rui Valério salientou que o catolicismo e a cultura cristã são "forte promotor da mentalidade universalista" e a presença de muitos imigrantes de outras religiões não diminui o cariz cristão e católico dos valores morais da sociedade portuguesa.
"Porque essa tal matriz a que se refere está no coração das pessoas e não é isso que está em questão", resumiu o responsável do patriarcado.
Sobre o discurso contra os imigrantes, protagonizado por muitos que se dizem católicos e de movimentos conservadores, Rui Valério recordou que "o próprio Cristo se identificou como peregrino e como estrangeiro", citando o Evangelho.
"Eu era peregrino e estrangeiro e vós me recolhestes, eu tive fome e deste-me de comer, eu estava no hospital e fostes-me visitar, eu estava na prisão e vós viestes em meu auxílio", recordou o patriarca católico de Lisboa, salientando que a diocese deve estar unida nesse sentimento de ajuda ao próximo e aos mais pobres, imigrantes ou nacionais.
No final de 2024, Portugal passou a ter 1,5 milhões de estrangeiros a residir do país, um aumento que criou problemas sociais e novas divisões, a par do crescimento da intolerância, admitiu o prelado.
"O fenómeno da imigração apanhou-nos a todos de surpresa e não fomos preparados para ele", considerou Rui Valério, apontando "falta de preparação por um lado no acolhimento e, por outro, na preparação de nós próprios", enquanto sociedade.
E deu o exemplo da sua freguesia natal, Urqueira (concelho de Ourém), quando vê a presença atual de "irmãos e irmãs de outros países, de outras tradições, com outros hábitos de rezar e de viver a sua fé " e olha para o comportamento dos seus conterrâneos.
"A população estava devidamente preparada para isso?", pergunta. "Provavelmente não estava", responde, embora recusando "justificar ou legitimar fenómenos de intolerância, que são inadmissíveis, ou aqueles fenómenos de exploração vergonhosa do trabalho de imigrantes".
Portanto, a imigração é um "fenómeno complexo", mas, "numa perspetiva cristã e evangélica, nunca nós podemos deixar de tratar o outro, seja ele quem for, como um irmão ou como uma irmã", acrescentou.
Contudo, o aumento dos imigrantes não coloca em causa a fé da sociedade portuguesa, porque o cristianismo "existe, medra, desenvolve-se, acontece em todos os quadrantes, em todos os países, em todas as tradições, ao contrário de, provavelmente de outras [religiões] que são mais referidas a determinados contextos ou costumes".
Sobre os imigrantes de outras religiões em Portugal, Rui Valério saudou a convivência e o respeito que têm pela fé católica, dando o seu próprio exemplo pessoal, quando contacta com essas comunidades.
Em ocasiões de distribuição de comida aos carenciados nas ruas de Lisboa, muitos crentes de outras religiões "olham para mim e vêm pedir a bênção", exemplificou, salientando que tem ouvido muitas histórias pessoais.
"A principal dificuldade é a legalização, encontrar documentos", num processo de exclusão social em que se confundem com os portugueses mais pobres, que também enfrentam o aumento galopante do custo de vida.
"A tarefa pastoral da Igreja é ser ela própria uma comunidade de encontro que promove o encontro", disse ainda Rui Valério.
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