Ligação aérea entre Lisboa e Hong Kong teria custos elevado.
Representantes empresariais e do setor de aviação alertam que uma ligação aérea entre Lisboa e Hong Kong teria custos elevados e poderia precisar de apoios estatais para reduzir risco.
Uma possível ligação aérea entre Portugal e Hong Kong voltou a ganhar destaque após contactos recentes entre autoridades portuguesas e a Autoridade do Aeroporto de Hong Kong.
No início de fevereiro, decorreu uma reunião entre o cônsul-geral de Portugal em Macau e Hong Kong, Alexandre Leitão, e a diretora executiva da Autoridade do Aeroporto de Hong Kong (AAHK, na sigla em inglês), Vivian Cheung Kar-fay.
"[O encontro em Hong Kong foi uma] oportunidade de abordarmos assuntos de interesse mútuo", disse o Consulado na altura.
Numa resposta escrita a questões da agência Lusa, a AAHK disse que tem procurado "estabelecer contactos com companhias aéreas e parceiros comerciais do setor global, incluindo autoridades governamentais e operadores aeroportuários".
Segundo Erik Young, especialista em aviação sediado em Hong Kong, uma transportadora como a TAP teria que olhar para "além do simples interesse dos passageiros" e analisar vários "pilares críticos".
O consultor destacou que "seria necessário avaliar o equilíbrio entre viagens de negócios de alto rendimento, turismo e, crucial para este tipo de percurso de longo curso", a capacidade de carga no porão.
"Um voo destes não serve apenas Hong Kong; o seu sucesso depende da área de captação da Grande Baía e da eficiência com que o hub de Lisboa consegue ligar passageiros a mercados secundários no Brasil e em África", apontou o especialista em aviação.
Em termos económicos, sublinhou que se deve observar as "tendências de investimento estrangeiro direto, os volumes de comércio entre a Grande China e os mercados lusófonos", e a competitividade relativa da frota da TAP face às transportadoras que oferecem ligações com uma escala.
Young apontou ainda que para rotas de longo curso com custos de entrada elevados, "algum tipo de apoio inicial ou um Acordo de Serviços Aéreos robusto" é frequentemente o fator decisivo na mitigação do risco.
"Em última análise, não é uma questão de sim ou não. Trata-se de um projeto de viabilidade aprofundado e não de uma observação rápida. O caso comercial exige um alinhamento muito específico destes pontos", concluiu.
O secretário-geral da Câmara de Comércio e Indústria Luso-Chinesa (CCILC) , Bernardo Mendia, disse à Lusa que a possibilidade de uma ligação aérea direta entre Portugal e Hong Kong ou Macau "surge ciclicamente no debate público devido ao interesse histórico e económico crescente entre Portugal e o sul da China.
"Do ponto de vista técnico, hoje essa ligação parece ser possível", disse Mendia, lembrando que a distância entre Lisboa e Hong Kong ronda os 11 mil quilómetros e que aeronaves modernas de longo curso, como o Airbus A330-900neo da TAP Air Portugal, têm autonomia suficiente para realizar o voo sem escalas.
No entanto, o responsável destacou que "a questão central não é tecnológica, mas sobretudo económica" pois "as rotas intercontinentais exigem uma massa crítica consistente de passageiros e carga para serem sustentáveis".
Atualmente, o mercado entre Portugal e o sul da China é servido de forma indireta através de grandes hubs europeus e do Médio Oriente.
"Existem mais de 300 voos semanais entre a região da Grande Baía Guangdong--Hong Kong--Macau e Lisboa com ligação intermédia em aeroportos como Paris, Frankfurt, Istambul ou Dubai. Isto demonstra que existe procura, mas ainda distribuída por esses grandes centros de ligação", acrescentou.
Apesar disso, Mendia considera que o potencial estratégico é significativo, considerando que Grande Baía, que integra Hong Kong, Macau, Shenzhen e Guangzhou, reúne mais de 70 milhões de habitantes e constitui um dos maiores polos económicos do mundo.
O espaço da lusofonia reúne cerca de 260 milhões de pessoas, o que cria um eixo potencial muito relevante entre a Ásia e os países de língua portuguesa,avisa, no qual "Portugal pode desempenhar um papel natural de plataforma de ligação".
Neste contexto, uma ligação direta poderia beneficiar não apenas do tráfego entre Portugal e o sul da China, mas também de fluxos mais amplos entre a Ásia e os mercados lusófonos. "Lisboa pode tirar partido da sua posição geográfica e da rede atlântica da TAP Air Portugal", disse.
O secretário-geral da CCILC apontou ainda um cenário "particularmente interessante" de algum eventual envolvimento de uma companhia aérea chinesa no processo de privatização da TAP.
"Nesse caso, poderia abrir-se a possibilidade de posicionar Lisboa como um verdadeiro hub de ligação entre a Europa, a Ásia e o espaço lusófono", afirmou.
"Em vez de os passageiros portugueses terem de se deslocar a grandes capitais europeias para voar para a Ásia, poderia acontecer o inverso: passageiros de várias cidades europeias passarem a utilizar Lisboa como porta de entrada para voos diretos para a Ásia, com todos os benefícios para Portugal associados", acrescentou.
Se tal vier a acontecer, concluiu Mendia, "Lisboa poderá afirmar-se como um ponto de encontro natural entre três grandes espaços económicos: a Europa, a Grande Baía do sul da China e o mundo lusófono".
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