Tempestade Kristin causou estragos no quartel, que continua a servir a população.
O mau tempo deixou o quartel dos Bombeiros Voluntários de Vieira de Leira sem sete portões, uma das antenas de comunicação "partiu a espinha" e voaram telhas, mas a vontade férrea de servir a população resistiu, "a missão continua".
A madrugada de 28 de janeiro tornou-se um marco na história dos Bombeiros Voluntários de Vieira de Leiria, na Marinha Grande, distrito de Leiria. A tempestade Kristin invadiu o quartel da corporação, roubou os portões, dobrou uma das antenas de comunicação, que encontrou poiso contra a casa escola, partiu vidros, deixou danos em viaturas, levou telhas e o descanso de todos.
"Foi uma noite difícil", admitiu o comandante da corporação, João Lavos. Mas difícil tem sido também o correr dos dias que seguiram.
"Há 12 dias que não temos luz, estamos dependentes de um gerador. As telecomunicações também estão difíceis, os telemóveis não funcionam, temos água, mas estamos limitados", apontou João Lavos.
O que acontece quando são os bombeiros que precisam de socorro? "Essa é uma pergunta um bocadinho difícil de responder", disse, respondendo de forma pausada.
"Não pensamos em nós. Primeiro está a população. E foi o que fizemos", respondeu.
Mas, as famílias e habitações dos bombeiros, assim como o quartel, não foram imunes aos efeitos do mau tempo: "Eles deixaram as casas deles, os problemas deles para virem trabalhar. É assim que funciona", descreveu.
Em Vieira de Leiria os estragos foram, são, muitos. Há telhados para reconstruir, vidas para continuar e os afazeres do dia-a-dia no quartel continuam, mesmo com os danos visíveis na infraestrutura.
"A urgência pré-hospitalar está 100% assegurada, estamos a funcionar a 100% nesse campo. O transporte de doentes não urgentes tem sido diferente, há coisas que os hospitais adiaram, como algumas consultas, senão assegurávamos. Estamos a conseguir fazer esta gestão com a ajuda de todos", salientou João Lavos.
Nos primeiros dias pós-kristin, a azáfama no quartel foi muita: "Tivemos aqui muitos [bombeiros] voluntários a ajudar porque as empresas não estavam a trabalhar e eles podiam vir. Agora muitas já estão a funcionar e o ritmo voltou, mais ou menos, ao normal", explicou.
Menos operacionais, mas muitos pedidos, principalmente inundações, segundo explicou o comandante.
"As pessoas percebem se demorarmos mais tempo. Temos tido muitas chamadas para inundações e conseguimos ir a todas, podemos é demorar um pouco mais, mas as pessoas entendem", disse.
Quando é que se descansa? "À noite, se der", respondeu de olhar cansado o comandante.
A cozinha do quartel está cheia: fruta, sopa, comida e calor. Os donativos foram muitos e "a Mãe de todos" faz o que pode para que nada se estrague.
Idalina só é mãe de um, mas todos a chamam de Mãe. "Tenho feito o que posso, ajudo como posso. Gosto deles todos", garante, enquanto se passeia entre as panelas e aquele que será o almoço, depois o lanche e o jantar dos operacionais da casa e de um grupo de voluntários de outra casa.
No quartel de Vieira de Leiria resiste-se. As contas aos prejuízos já começaram a ser feitas e ultrapassam os 400 mil euros. "É muito, é demasiado. Isto custa muito. Trabalhamos muito e de repente temos esta conta para pagar", lamentou à Lusa um dos tesoureiros dos Voluntários de Vieira de Leiria, Júlio Babel.
"Ainda não sabemos o que fazer. Já tivemos alguns donativos, sabemos que há peditórios que estão a ser feitos, até no Luxemburgo. Mas não sabemos que ajudas vamos ter e isto é muito difícil para quem vive isto como nós vivemos, intensamente", desabafou.
Mesmo sem telhas e sem portões, o quartel tem sido casa. Casa de quem precisa de um banho, casa de quem precisa de carregar o telemóvel, casa de quem precisa de rede de internet, a casa de toda uma comunidade.
"A missão continua. Tem de continuar, mas é difícil", admitiu o responsável.
A mesa para o lanche está posta, "a Mãe" tratou disso.
Quinze pessoas morreram em Portugal desde 28 de janeiro na sequência da passagem das depressões Kristin, Leonardo e Marta, que provocaram também muitas centenas de feridos e desalojados.
A destruição total ou parcial de casas, empresas e equipamentos, a queda de árvores e de estruturas, o fecho de estradas, escolas e serviços de transporte, e o corte de energia, água e comunicações, inundações e cheias são as principais consequências materiais do temporal.
As regiões Centro, Lisboa e Vale do Tejo e Alentejo são as mais afetadas.
O Governo prolongou a situação de calamidade até dia 15 para 68 concelhos e anunciou medidas de apoio até 2,5 mil milhões de euros.
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