SMMP realizou a reunião plenária, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, integrada na ronda nacional que tem vindo a promover nas 23 comarcas do país.
O plenário do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) concluiu esta sexta-feira que há "um desajustamento profundo" no funcionamento do Ministério Público na região, marcado pela falta de magistrados e funcionários e degradação das instalações.
O SMMP realizou a reunião plenária, em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, integrada na ronda nacional que tem vindo a promover nas 23 comarcas do país, e nas quais pretende identificar os principais obstáculos estruturais e operacionais e recolher contributos sobre dificuldades quotidianas.
Em comunicado, o SMMP revela que o plenário na Comarca dos Açores expôs "um desajustamento profundo" no funcionamento do Ministério Público (MP) na região, marcado pelo "alargamento dos conteúdos funcionais, pela falta de magistrados e funcionários judiciais e por condições físicas consideradas indignas".
Em causa, segundo o sindicato, estão sobretudo "os valores de referência processual que determinam o número de magistrados a colocar em cada tribunal ou departamento, definidos pela Procuradoria Geral da República".
Estes valores produzem uma visão "estática" e "falaciosa das necessidades reais", alerta, considerando ainda que a metodologia "ignora a vasta dimensão invisível" do trabalho diário, nos Açores.
São "diligências complexas, preparação de julgamentos, deslocações entre ilhas, pareceres urgentes e tarefas que não se refletem diretamente no volume processual", o que "acaba por impactar o dia-a-dia dos magistrados", que estão colocados "em número claramente insuficiente para a carga efetiva de trabalho".
As consequências "desta fórmula tornaram-se evidentes no alargamento das competências atribuídas aos procuradores da comarca, incluindo o Tribunal de Execução de Penas (TEP) e a Instrução Criminal, decidido sem atender à realidade operacional da região", lê-se ainda no comunicado.
Foi também elencado que a pressão aumenta com os três estabelecimentos prisionais dos Açores, "cada um com dezenas de conselhos técnicos e pareceres de liberdade condicional que exigem resposta imediata".
A falta de magistrados "é particularmente evidente em áreas sensíveis como a violência doméstica", com "475 processos pendentes, 45 novas entradas mensais e 1.299 inquéritos num ano".
Trata-se de "um volume impossível de compatibilizar com o quadro atual" e que "já levou uma procuradora à baixa médica por 'burnout'", denuncia.
Na reunião foi ainda apontado que "a insuficiência de recursos se agrava com a perda de especialização e com agregações territoriais sem lógica prática", exemplificando com "a junção do Pico com a Graciosa, ilhas sem voos diretos, que já obrigaram magistrados a deslocações de até 18 horas".
Quanto às infraestruturas, o plenário chamou a atenção para "o estado crítico de vários edifícios judiciais" na região, com relatos de "infiltrações, janelas pregadas, falta de climatização" de gabinetes "onde literalmente chove dentro" e "inexistência de condições básicas de acessibilidade".
Em alguns casos, existem cidadãos com mobilidade reduzida que têm de ser "transportados ao colo para poderem participar em diligências", denuncia.
Há ainda relatos de episódios de "procuradores que tiveram de adquirir, do próprio bolso, equipamentos de ar condicionado".
Para o SMMP, a atual organização, os recursos disponíveis e as condições de trabalho "não permitem ao Ministério Público cumprir plenamente as suas funções na Comarca dos Açores".
"A insularidade agrava custos, deslocações e constrangimentos, tornando ainda mais urgente um investimento estrutural --- necessário há muitos anos e ainda por concretizar", refere, afirmando que os problemas identificados não são exclusivos da região.
De acordo com o SMMP, a ronda nacional em curso "tem revelado problemas transversais" com "quadros incompletos, falta de recursos humanos e um défice crescente de oficiais de justiça".
As duas últimas sessões desta iniciativa --- nas comarcas de Viana do Castelo e Aveiro --- decorrem em abril.
Posteriormente, será apresentado à tutela "um diagnóstico nacional completo sobre as condições de funcionamento do Ministério Público e dos tribunais portugueses", adianta o sindicato no seu comunicado.
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