Alerta foi deixado pelo vice-reitor da Universidade de Coimbra João Nuno Calvão da Silva.
O vice-reitor da Universidade de Coimbra João Nuno Calvão da Silva alertou esta sexta-feira para o agravamento das desigualdades sociais e económicas, e disse que a sociedade atual está "profundamente doente" devido ao crescimento da pobreza e enfraquecimento da classe média.
"A nossa sociedade está profundamente doente e uma das causas, se não a causa principal da doença a que a nossa civilização chegou, é a pobreza. E não falo só da pobreza extrema, falo da pobreza no sentido do fosso entre ricos e pobres, no sentido das desigualdades económicas ou sociais", sustentou.
Na sua intervenção na sessão de abertura do seminário "Pobreza e Educação: dimensões, trajetórias e desafios", que decorre esta sexta-feira na cidade de Coimbra, João Nuno Calvão da Silva disse estar preocupado com uma sociedade em que, quando há evolução tecnológica, aumenta a pobreza.
"À medida que temos mais um salto de robótica, internet, inteligência artificial, mais aumenta a pobreza. À medida que há um salto tecnológico, mais aumenta a concentração de riqueza nas mãos de cada vez menos e mais aumenta consequentemente o fosso para daí abaixo", lamentou.
De acordo com o vice-reitor da Universidade de Coimbra, a classe média tem rendimentos cada vez mais depauperados em função do aumento do custo de vida e dos processos inflacionários gerados pelas guerras.
"Os rendimentos mantêm-se, perde-se o poder de compra, diminui-se cada vez mais a esperança das pessoas em que o elevador social funcione. Não há classe média agora, os pais não têm esperança de que os seus filhos possam ter a sua própria habitação, um emprego estável e bem remunerado", sustentou.
Na intervenção, João Nuno Calvão da Silva aludiu à sua própria história familiar para vincar que a educação perdeu o seu papel de elevador social.
"Não há esperança em que, com os meus filhos, pudesse um dia suceder o que sucedeu com o meu pai, que era vir de uma aldeia do interior e, através do elevador social da educação, neste caso a Universidade de Coimbra, pudesse chegar aos mais altos patamares académicos e políticos do país", referiu.
Para este responsável, o crescimento da pobreza e da frustração social abre portas a discursos de ódio, xenofobia, racismo e a uma descrença profunda na democracia.
"Esses sentimentos são explorados por líderes com manifesta capacidade de explorar o medo e a revolta das populações, os chamados líderes populistas, normalmente associados a extremismos de esquerda e a cada vez mais extremismos de direita, e daí também a violência começa a normalizar-se", concluiu.
O seminário "Pobreza e Educação: dimensões, trajetórias e desafios" é o primeiro de três eventos que assinalam os 35 anos da EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza.
O segundo seminário decorre no dia 20 e o último realiza-se no dia 28.
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