Director da SIC Notícias há um ano, Ricardo Costa conseguiu em 2003 colocar o canal a dar lucro. “Era inevitável”, justifica, acrescentando que “a televisão é um negócio”. E é por isso que olha com dúvidas para os projectos informativos que RTP e TVI preparam para o cabo. Em entrevista à Correio TV, o jornalista explica as vantagens da fusão entre as redacções e elogia a qualidade da informação televisiva portuguesa. Mas reconhece que os noticiários de hoje parecem magazines…
A fusão das redacções da SIC e da SIC Notícias criou algum mal-estar interno e muita polémica externa. Que balanço faz destes primeiros três meses de ‘coabitação’?
Acho que a fusão era inevitável. A minha convicção, aliás, é que a fusão deveria ter sido feita logo no arranque da SIC Notícias. Nunca deveríamos ter nascido com duas redacções separadas. Mas, enfim, as coisas seguiram outro rumo e, se calhar, até foi positivo para o estabelecimento do canal informativo. Entretanto, por razões que têm a ver com reestruturações internas, finalmente percebeu-se que isso era inevitável.
Um processo que não foi pacífico…
Estas coisas nunca são pacíficas, mas não houve qualquer drama, como se chegou a fazer crer. As coisas correram até muito mais pacificamente do que muita gente esperava.
Mas decorreu sem problemas?
Obviamente que uma operação deste tipo levanta sempre alguns problemas. Quando há uma fusão há pólos aglutinadores mais fortes do que outros. E o ‘Primeiro Jornal’ e o ‘Jornal da Noite’ acabam por ter um peso grande na gestão das equipas, o que provoca alguns problemas na SIC Notícias.
Que tipo de problemas?
Problemas que decorrem da falta de pessoas que temos. E que se estende a todos os órgãos de comunicação social. Na SIC ressentimo-nos um bocadinho.
Quando se começou a falar da fusão, houve jornalistas da SIC generalista que se mostraram incomodados com a perspectiva de terem de trabalhar também para o canal de notícias e ver peças suas a passar noutro canal, sem que houvesse qualquer tipo de compensação por isso…
A grande questão não foi essa. Ao longo dos últimos três anos, o público habituou-se a ver os jornalistas da SIC num lado e no outro. Portanto, nunca houve ninguém que se recusasse a fazer coisas para a SIC Notícias ou para a SIC. O que ainda os separa um bocado são questões tecnológicas. A redacção da SIC Notícias foi formada a trabalhar um passo à frente, já que os jornalistas fazem edição no seu próprio computador. Grande parte das pessoas da SIC não sabia fazer isso. Hoje já há algumas que fazem, mas ainda se mantém esse ‘gap’ tecnológico.
Mas houve profissionais que franziram o sobrolho com a perspectiva de trabalhar para os dois lados…
Sim, mas isso foi antes de começar. Depois, nem se colocou. Obviamente que quem está fora, está a trabalhar para os dois lados. Nem outra coisa fazia sentido. O que acontece é que quando tenho uma operação na Assembleia da República ou um congresso e tenho de o fazer para os dois canais sou obrigado a levar mais jornalistas. Não consigo com o mesmo número de pessoas que conseguia. Mas isso é óbvio: quando o trabalho era só para a SIC, contávamos com uma entrada nos jornais e pouco mais. Agora, com a SIC Notícias, são horas e horas em directo.
Mas há também o reverso da medalha: a fusão das redacções obriga a que as mesmas reportagens sejam emitidas na SIC e na SIC Notícias. Ou seja, não há diversidade, não há versões diferentes, ou peças mais curtas. São meras repetições…
Vamos lá ver. As reportagens sempre foram as mesmas de um lado e do outro. Isso não é uma consequência da fusão. A diferença é que a SIC Notícias, quando estava separada, não se preocupava muito com a agenda, com a marcação de serviços, porque isso era assegurado pelos jornalistas da SIC. A SIC Notícias tinha alguma capacidade para fazer a diferença. Admito que com o processo de fusão isso se tenha perdido um bocadinho…
Como é que essa indiferenciação informativa é compatível com o ‘target’ de cada uma das estações, que é completamente diferente?
Há algumas diferenças. Há peças mais específicas da SIC Notícias (uma ou outra coisa de cultura, um assunto de Internacional mais desenvolvido, as bolsas de Nova Iorque, por exemplo…) que não passam na SIC. Ao contrário, há peças de componente mais tablóide (que cada vez temos menos na SIC generalista, é bom que se note!) que não são exibidas no canal informativo. Essas diferenças mantêm-se.
No entanto, reconhece que seria desejável uma maior diferenciação…
O que faz a grande diferença entre os dois projectos é, em primeiro lugar, o facto de a SIC Notícias ter informação a toda a hora. Em segundo lugar, a SIC Notícias não alinha um noticiário da mesma forma que a SIC. Se estiver a coordenar um jornal na Notícias não o faço da mesma forma do que na generalista. Por outro lado, na SIC Notícias há espaço e tempo (porque é essa a sua missão) para analisar, debater, aprofundar os temas. É completamente diferente.
A TELEVISÃO É UM NEGÓCIO
E para esse trabalho, gostava de ter mais jornalistas, claro…
Gostava, claro que gostava. O ideal seria ter mais jornalistas, mas temos de estar sintonizados com o tempo em que vivemos. As pessoas têm de perceber algo que é muito importante e que, às vezes, não é bem entendido lá fora e também cá dentro, um canal de notícias é um negócio muito complicado. Em 99 por cento dos casos dá prejuízo. E só se mantêm porque pertencem a grupos que os financiam. A Sky News dá prejuízo, a CNN dá prejuízo, etc. Aqui é diferente. Quer a Impresa, quer a PT tinham um objectivo claro: fazer um canal que desse lucro. E aquilo que se fez no ano passado foi histórico. A SIC Notícias deu lucro. Esse era um dos meus objectivos quando assumi as funções de director.
Sente essa pressão no dia-a-dia?
Não é uma pressão, é a realidade. Porque, apesar de na nossa cabeça a SIC Notícias ser uma evidência, no limite, se fosse um canal permanentemente deficitário, o futuro estaria ameaçado. Sobretudo, quando estamos num país que tem mais um canal de notícias no cabo, que é a NTV (agora RTP N) e que se prepara para ter mais um, lançado pela TVI. Ou seja, estamos num mercado extraordinariamente competitivo, onde quem não tiver as contas bem afinadas… morrerá. Na minha opinião, a vitalidade financeira da SIC Notícias é essencial, se não, o projecto pode até ser colocado em causa pelos accionistas.
E três anos depois da SIC Notícias estar no ar, já não se ouvem as vozes que duvidavam da existência de actualidade suficiente para um canal informativo…
As duas dúvidas que existiam há três anos eram o não ser possível fazer um canal de notícias por não haver manancial informativo suficiente e, em segundo lugar, não ser possível porque isso iria dar um prejuízo monstruoso. Provámos o contrário: não só é possível, como pode dar lucro. Não podemos respirar de alívio, porque este é um meio complicado e a concorrência não dorme, mas dá-nos alguma tranquilidade.
PORTUGAL É PEQUENO
Então vamos lá à pergunta inevitável: há país para três projectos informativos no cabo, mesmo com as especificidades que se anunciam?
Não. Acho que não há país para mais dois projectos deste tipo. E não acredito nessas especificidades. A RTP N será obviamente um falso canal regional e será cada vez mais um canal de notícias. Caso contrário, não teria tido necessidade de mudar de nome. Já foi lançado duas ou três vezes e é objectivamente um projecto de notícias. Quanto ao canal de economia da TVI, como sabe, cheguei a integrar o projecto, numa altura em que saí da SIC e em que a Media Capital detinha ainda o ‘Diário Económico’ (DE). Só que as coisas mudaram. O DE deixou de ser o único jornal económico diário português, agora há o ‘Jornal de Negócios’, e o DE deixou de ser da Media Capital. Além disso, tem muito menos gente do que tinha. Portanto, o modelo do canal da TVI vai ter de ser outro. E isso é mais difícil. Além disso, fazer um canal de informação económica num país onde a Bolsa fecha às quatro e meia da tarde não é fácil… O que será feito a partir daí?
Estou a ver que a SIC Notícias não valoriza muito essa futura concorrência?
Não se trata disso. Estamos preparados. A SIC Notícias encara com serenidade e tranquilidade a entrada da concorrência no cabo, até porque achamos que fazemos um bom trabalho e temos condições para continuar a fazer melhor que os outros. Mas não somos ‘parvos’ e sabemos que o País não cresce. E Portugal terá ainda mais uma originalidade: um país deste tamanho vai ter três canais informativos no cabo. Acho que é arriscado.
Há cerca de seis meses, o jornalista Mário Crespo dizia-me que “a SIC Notícias é uma ilha no panorama audiovisual”. Concorda?
Concordo. É evidente que um jornalista como Mário Crespo, que tem uma necessidade de informação contínua e que não se revê, pelo nível que tem, na esmagadora maioria da programação generalista, tem de achar que a SIC Notícias é uma ilha. Percebo perfeitamente.
SIC E SIC NOTÍCIAS: A MESMA MATRIZ
E quem é que está a falar agora: o director da SIC Notícias ou o director-adjunto de informação da SIC?
Não separo as duas coisas. Desde o início da SIC Notícias, muito antes de ser director, sempre trabalhei com empenhamento total para o canal. Toda a gente sabe disso. E nunca precisei de ter qualquer esquizofrenia. O que é imprescindível é que cada um saiba para quem está a trabalhar. Quando faço a cobertura de um congresso, sei perfeitamente que tipo de informação canalizo para um lado e para o outro. Não há nenhum drama nisso. A ilha informativa da SIC Notícias parte da mesma matriz da SIC. A matriz de grelha é a mesma.
Sim, mas a matriz conceptual é muito diferente…
Não sei porquê. É feita pelas mesmas pessoas. A base não é tão diferente assim. A questão está na forma como se alinha, como se contextualiza, como se debate. No fundo, a SIC informa as pessoas, enquanto a SIC Notícias tem de ir mais longe, de explicar.
Que análise faz da qualidade da informação televisiva nos canais generalistas?
É bom e mau. Mau em algumas coisas e muito acima da média noutras. Dou-lhe um exemplo: em questões internacionais, quando é preciso ter repórteres no estrangeiro, temos um nível altíssimo, para um país da nossa dimensão. Na Guerra do Iraque, tivemos mais enviados-especiais do que qualquer país com a nossa dimensão, casos da Bélgica e da Holanda. Portugal tem coisas de uma dimensão fabulosa. Depois, temos grande capacidade para estarmos em directo, coisa que alguns países da nossa dimensão não têm de todo. Somos ousados e muito competentes.
… por outro lado, sofremos de um problema que se verificou nos últimos três anos, que foi o desaparecimento de programas informativos das grelhas e esses géneros migraram para dentro do jornal. Ou seja, quando a SIC parou com o ‘Casos de Polícia’, o ‘Esta Semana’, o ‘Jogo Limpo’, o ‘Ficheiros Clínicos’ ou o ‘Hora Extra’, sentiu necessidade de ter esses géneros jornalísticos no seu noticiário. Isto fez com que os jornais aumentassem. Obviamente, um jornal televisivo com todos estes géneros é mais difícil de ser editado.
… e acaba por se tornar, por vezes, num albergue espanhol, sem coerência e unidade…
Acaba por ter vertentes ‘magazinescas’, como tem vertentes de reportagem, de debate, etc. Claro que é mais difícil ser editado, repito.
E isso é uma inevitabilidade dos tempos ou acha que voltaremos a ter programas informativos nas grelhas dos canais privados (à semelhança, aliás, do que acontece na grelha da RTP 1)?
Isso tem muito a ver com as condições actuais. As coisas vão mudando. E, provavelmente, daqui a um tempo, o mercado estará em condições de exigir outras coisas. De qualquer forma, o aparecimento da SIC Notícias propicia esta realidade. Aqui na SIC actuamos como um todo. A SIC e a SIC Notícias fazem parte desse todo.
O CABO
Como responde às críticas da concorrência, sobretudo da TVI, a um alegado proteccionismo que a SIC goza por parte da PT, devido aos canais no cabo?
Reajo com normalidade. Os outros canais queixam-se porque não fizeram nada. A RTP porque não quis. A TVI porque, na altura em que estas coisas foram definidas, entre 1998 e 2000, tinha uma expressão muito reduzida no audiovisual português. Portanto, a SIC era o parceiro ideal para a PT. A PT veio bater à porta do grande produtor de conteúdos que existia na altura.
A MONOCULTURA
Onze anos depois da iniciativa privada ter trazido diversidade ao audiovisual português, não lhe parece que estamos numa encruzilhada, numa espécie de monocultura de estilos nos canais generalistas?
É tudo muito igual… Não podemos olhar para a televisão generalista sem olhar para o cabo. A RTP 1 só se redefiniu há pouco tempo, porque, durante anos, também contribuiu para essa monocultura. Nunca se colocou acima ou ao lado do mercado. Agora parece que está a conseguir, embora não muito...
Gostava de ter um programa de entrevistas na SIC?
Claro que gostava. Acho que faz falta, numa estação generalista, um grande programa de informação, com debate, entrevista e reportagem.
Ricardo Costa nasceu a 25 de Julho de 1968. Casado e pai de três filhos, estudou em Comunicação Social, pela Universidade Nova de Lisboa. Começou a sua carreira no semanário ‘Expresso’ e integrou o grupo de pioneiros da estação de Carnaxide. Foi editor da secção de política e, após uma breve passagem num projecto da Media Capital, voltou à SIC como director-adjunto de Informação. Actualmente, acumula esse cargo com o de director da SIC Notícias.
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