Um dos maiores novelistas de sempre, o brasileiro Aguinaldo Silva está a preparar mais um trabalho para a Globo. Só que, desta vez, vai escrevê-lo no outro lado do Atlântico, ou seja, em Portugal. A opção por Lisboa, em detrimento do Rio de Janeiro, tem uma explicação: fugir do cinismo dos políticos em ano de eleições.
Correio da Manhã – É pública a sua intenção de viver em Lisboa. Já comprou casa?
Aguinaldo Silva – Ainda não comprei, apenas sinalizei. Em Fevereiro, concretizo a compra.
– Porquê esta decisão?
– Este ano, no Brasil, vai ser insuportável por causa da campanha política, pelo nível de cinismo a que chegaram os políticos. Desde os 18 anos que voto nos chamados candidatos progressistas, sempre na esperança que eles mudassem alguma coisa. Descobri que, na verdade, isso não vai acontecer, pelo menos até eu morrer [risos]. Preciso de estar fora durante as eleições.
– A mudança para Portugal condiciona o seu trabalho, no Brasil?
– Tenho contrato com a Globo até 2010. Mas hoje em dia, com a ‘net’, podemos trabalhar em qualquer lugar.
– Também é crítico de Lula da Silva?
– Não concordo com os métodos que resolveram utilizar. A ‘coisa’ chegou a um nível de corrupção que revela um desdém muito grande pelos eleitores.
– O mal-estar inspirou-o para criar um político corrupto em ‘Senhora do Destino’. A ideia foi dar a imagem do político brasileiro?
– Já o tinha feito em ‘Porto dos Milagres’, com o personagem de António Fagundes. Repeti--o em ‘Senhora do Destino’. Mas confesso que a realidade ultrapassou a imaginação.
– Essa novela foi a de maior sucesso no Brasil desde ‘O Rei do Gado’. Sente o peso de ser um dos maiores novelistas?
– O peso que um autor sente é o da responsabilidade de escrever para um público de 40 milhões. O que vou dizer para as pessoas? É nisso que penso constantemente.
– É o único autor que só escreve para o ‘prime-time’ (20h00). Considera-se bem pago?
– Sou o único por uma razão: é que a minha mão pesa um pouco. As minhas novelas são mais densas, só cabem no horário das 20h00. Os autores ainda podiam ganhar mais. Mas, no Brasil, falar em ganhar mais chega a ser imoral. É melhor nem falar quanto ganho...
– Escrever para aquele horário é sinónimo de pouca ousadia?
– Temos de ter cuidado com o que escrevemos, tendo em conta um público de 40 milhões. Dentro da limitação, preciso de falar de temas actuais e polémicos e o segredo é descobrir até onde posso ir.
– Conseguiu-o em ‘Senhora do Destino’, criando duas lésbicas que até adoptaram uma criança. Mas a autora Glória Perez viu o beijo gay da novela ‘América’ censurado...
– Existe uma tensão grande no Brasil sobre o beijo entre iguais. Lembro-me que quando escrevi ‘Suave Veneno’ também tinha uma ameaça de beijo entre homens no final. Isso causou um rumor tão grande que resolvi retirá-lo.
– Admitiu desistir de escrever novelas depois do fracasso de ‘Suave Veneno’?
– Hoje, vejo as coisas por outra perspectiva. O ‘Suave Veneno’ enfrentou no mesmo horário o auge do programa de Ratinho. Foi isso que causou o ‘insucesso’. Mas penso reescrevê-la para tirar a prova dos nove.
– Disse que, em 2004, estaria numa idade “muito avançada” e, por isso, deixaria de escrever novelas. Afinal...
– Estava decidido a não escrever mais. Mas tenho um contrato e não o cumprir seria financeiramente traumatizante. Resolvi fazer uma novela como se fosse a primeira vez: saiu ‘Senhora do Destino’.
NOVELA EM 2007 COM PORTUGUESES
– Gostaria de ter algum actor português nas suas novelas?
– A minha próxima novela – estreará em 2007 – tem uma parte em Portugal. O núcleo central é constituído por descendentes portugueses e haverá um momento em que esses personagens irão a Portugal. Um deles morre. Nessas cenas, muito provavelmente, precisarei de actores portugueses.
– Já tem nome definido? Quem integrará o elenco?
– Ainda não tem nome. Relativamente aos actores, já pedi à Globo que me reservasse artistas como a Suzana Vieira, Bárbara Borges, José de Abreu e Marília Gabriela.
– Todos de ‘Senhora do Destino’...
– É muito bom trabalhar com pessoas que vestem a camisola. Por isso, gosto de trabalhar com a Suzana, por exemplo. Ela acaba por se tornar na alma de uma novela.
– A Globo é a grande fábrica de novelas, mas a Record está agora apostada em fazer-lhe frente.
– Vejo isso como positivo. Quanto mais concorrência, melhor. Não encaro isso como uma ameaça.
Oriundo de uma família humilde, Aguinaldo Silva nasceu em Pernanbuco. Já passou 26 dos 61 anos de vida a escrever novelas, embora se considere jornalista, actividade que abandonou em 1978, depois de 18 anos de carreira, passando pelo ‘Última Hora’, ‘Jornal do Brasil’ e ‘O Globo’. Nos anos 60 foi preso por assinar o prefácio do livro ‘Diário de Che Guevara’ – do português Victor Alegria –, e pelo lançamento de ‘Lampião’, um jornal gay.
Homossexual assumido, Aguinaldo chega à Globo em 1978, onde ganha projecção ao escrever, com Dias Gomes, ‘Roque Santeiro’ (1985). Depois os sucessos sucederam-se. Ficam alguns: ‘Vale Tudo’ (1988) que escreveu com Gilberto Braga, ‘Tieta’ (1989), ‘A Indomada’ (1997), ‘Suave Veneno’ (1999) e ‘Senhora do Destino’ (2004). Publicou o primeiro romance aos 16 anos e recentemente lançou ‘Prendam Giovanni Improtta’, inspirando-se no personagem de José Wilker em ‘Senhora do Destino’.
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