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Correio da Manhã

Tv Media
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Viciados em séries médicas

O quotidiano de cirurgiões e hospitais é o tema da moda na televisão mundial. Globos de Ouro distinguem ‘Dr. House’ e ‘Anatomia de Grey’ entre os melhores de 2006.
19 de Janeiro de 2007 às 00:00
Pelo segundo ano consecutivo, Hugh Laurie foi o vencedor do Globo de Ouro para me- lhor actor numa série dramática. A distinção, entregue dia 15 em Los Angeles, ganha ainda mais relevância tendo em conta que o protagonista de ‘Dr. House’ tinha como adversários Patrick Dempsey (‘Anatomia de Grey’), Michael C. Hall (‘Dexter’), Bill Paxton (‘Big Love’) e Kiefer Sutherland (‘24’). Mas numa altura em que as séries médicas voltam a mostrar a sua vitalidade e capacidade de atracção de público, esta vitória – tal como a de ‘Anatomia de Grey’ na categoria de melhor série dramática – não surpreende. O êxito deste tema começou em 1997, quando Anthony Edwards (‘E.R. – Serviço de Urgência’) foi distinguido com o Globo de Ouro para melhor actor em série dramática. Mas só Hugh Laurie deu continuidade ao feito.
O sucesso conquistado pela personagem do Dr. Gregory House – um médico cínico, coxo e viciado em fármacos – é mais surpreendente se considerarmos que, inicialmente, o actor britânico se candidatou a outro papel na série, o do oncologista James Wilson. Na altura, Hugh Laurie julgou que este era o herói da trama pois era descrito como um sujeito de “rosto bonito e aberto”. “Escolhi fazer antes o outro tipo que, para minha surpresa, tinha o papel principal”, afirmou Hugh Laurie numa entrevista à NBC. Filho de um médico, Laurie chegou a colocar a hipótese de seguir essa carreira: “Actualmente já me esqueci porque não o fiz, mas julgo que o trabalho duro a que obriga me fez mudar de ideias.” E, ao contrário do que é habitual nas séries clínicas, não perdeu muito tempo a visitar hospitais para preparar o papel. ”Tentei passar algum tempo em hospitais americanos, mas a minha entrada na série foi tão repentina que acabei por fingir que o tinha feito. Isso é o que os actores fazem sempre, fingir.”
Nascido em Oxford (Reino Unido), em Junho de 1959, Hugh Laurie mantém o sonho de um dia “fazer de vilão num filme de James Bond”, mesmo que para isso tenha de aprender a falar com outro sotaque. É que a pronúncia de House é tudo menos igual à de Hugh Laurie, que tem o sotaque carregado típico da região onde nasceu. Sobre a pronúncia americana, que treinou para a série até à exaustão, o actor considera que esta inclui “uma pitada de húngaro e um pouco de paquistanês, dependendo do cansaço”. No entanto, a crítica rendeu-se ao esforço e o sotaque da personagem é considerado tipicamente americano. E o mais curioso é que o actor foi contactado para ‘Dr. House’ quando estava na Namíbia, a filmar ‘Flight of the Phoenix’, por ser considerado um “americano que conseguia simular o sotaque britânico”.
Hugh Laurie – que fez carreira na comédia ao lado de nomes como Rowan Atkinson e Stephen Fry – revela o que o fez deixar o Reino Unido para abraçar ‘Dr. House’ numa estação americana. “Fui atraído pelo argumento. Se esta série fosse um espectáculo na Letónia, eu tê-la-ia feito na mesma. O que importa é sempre o argumento”, explicou ao ‘USA Today’. No entanto, apesar da qualidade reconhecida dos textos, Laurie também contribui para os mesmos: “Faço sugestões para alguns casos clínicos e os argumentistas ouvem de forma muito educada. Mas não prestam atenção nenhuma.” Refira-se que os casos narrados na série são sugeridos por médicos e que um dos elementos da equipa de argumentistas é mesmo licenciado em Medicina. Também o uso da bengala – fetiche do ‘Dr. House’ – é uma criação de Hugh Laurie. Inicialmente, a personagem deveria usá-la na mão contrária à perna coxa, mas o actor inverteu a situação. Sentia que assim encaixava melhor na personalidade “desagradável” da sua personagem.
SUCESSO DE AUDIÊNCIAS
Na edição deste ano dos Globos de Ouro, outro grande vencedor foi ‘Anatomia de Grey’. Numa categoria em que figuravam mais duas séries exibidas pela RTP (‘24’ e ‘Perdidos’), o drama passado no Seattle Grace Hospital juntou ao Emmy de 2006 este galardão. A série protagonizada por Helen Pompeo – também nomeada para um Globo de Ouro – tem registado grande sucesso de audiências e as quezílias entre os críticos e os fãs alimentado discussões acesas que, aparentemente, atraem ainda mais público. ‘Anatomia de Grey’ foi criticada logo na primeira temporada pela falta de exactidão e realismo. Contudo, os espectadores argumentam que é exactamente essa lacuna que transforma esta produção tão popular entre uma audiência vastíssima. Logo na primeira temporada, a série foi vista nos Estados Unidos por uma audiência média de 18,5 milhões de telespectadores e na segunda o valor subiu para 19,9 milhões. Consciente do que tinha em mãos, a ABC exibiu-a após a transmissão do Superbowl de 2006. ‘Anatomia de Grey’ ganhou a noite e superou a emissão da rival ‘CSI’ na CBS em mais três milhões de espectadores. Actualmente a série está em exibição em 56 países.
Mas o que faz com que as séries médicas sejam tão populares em todo o Mundo? O formato estreou-se em 1961 com ‘Dr. Kildare’, da NBC, e logo foi seguido por novas produções. Na Europa, a BBC foi pioneira ao lançar ‘Finlay’s Casebook’ (1962), que esteve no ar durante nove anos. Depois, em 1970, surgiu ‘MASH’ que misturava as características das séries hospitalares com humor negro. Na mesma década nasce ‘Quincy’, mas o facto de estar limitada ao mundo dos médicos legistas não permitia grandes inovações. Na década de 80 surge a primeira série de culto do género, ‘St. Elsewhere’, uma espécie de prelúdio do que vinha a seguir. Criada em 1994 e considerada por muitos como a série médica por excelência, ‘E.R. – Serviço de Urgência’ foi idealizada por Michael Crichton, que inseriu personagens acutilantes em histórias cheias de ritmo e emoção. A intensidade das cenas dramáticas e o factor George Clooney – actor do cinema que se manteve na série até 2000 – solidificaram o êxito: o drama do County General Hospital de Chicago saltou para o topo das audiências televisivas. No ar há 12 anos, ‘E.R. – Serviço de Urgência’ continua actual e só a saída de Clooney, Julianna Margulies e Anthony Edwards – o mítico Dr. Green – fez com que a série perdesse algum impacto.
Saltando da ficção para a realidade, como vêem os médicos portugueses estas séries que invadem as grelhas das nossas televisões? Helena Gervásio, directora dos Serviços de Oncologia Médica no IPO de Coimbra, explica: “Não é a realidade do nosso país que ali é retratada. Porém, a série mostra, com fidelidade, o que se passa nos Estados Unidos, onde há serviços especializados de urgência e todo um encaminhamento dos doentes. Quando o paciente chega à urgência, esta está realmente preparada para o receber. Nesta vertente, a série é muito realista.” Sobre o lado humano, Helena Gervásio reconhece que ele está presente na realidade e na ficção. “Há sempre um envolvimento entre médico, ou enfermeiro, e paciente, mal seria se assim não fosse”, comenta. Mas os relacionamentos amorosos que abundam na ficção não convencem esta médica: “O exagero faz parte do enredo, que assim pretende agarrar o telespectador. Claro que não há regra sem excepção, mas a realidade não é a retratada nestas séries de televisão”. Já Ibérico Nogueira, cirurgião plástico, confessa que, “depois de um dia de trabalho a exercer a actividade, é muito cansativo chegar a casa e ver programas sobre saúde, doenças, pacientes...” O conhecido médico, que integra a equipa ‘Dr. Preciso de Ajuda’ (TVI), espreita, “de raspão”, algumas séries, mas evita consumir este tipo específico de produto televisivo.
Mas o que afasta alguns médicos deste tipo de formato é exactamente o que cativa o público: as semelhanças entre a ficção e a realidade. Descontando os cenários e o exagero de algumas personagens, as séries médicas actuais regem-se pela verosimilhança dos casos clínicos. Os equipamentos são alugados às empresas que fornecem os hospitais, e o uso de órgãos animais e sangue cenográfico completam a telerrealidade. Todas as séries contratam uma equipa de consultores e estão atentos aos pormenores. Após a estreia de ‘Anatomia de Grey’, o actor Isaiah Washington foi informado de que os cirurgiões nunca usam um estetoscópio à volta do pescoço. No segundo episódio, emendou-se o erro. Mesmo as maleitas dos pacientes, incluindo as mais absurdas, são retiradas de casos médicos reais e os actores acompanham cirurgias em diversos hospitais. ‘Dr. House’, por exemplo, é inspirada na coluna de diagnóstico do jornal ‘The New York Times’, que trata casos clínicos raros. E Hugh Laurie, apesar do exagero da personagem, procura manter-se fiel à realidade. Obviamente, se House fosse verdadeiro, seria alvo de vários processos devido à forma peculiar como faz os seus diagnósticos e não pediria exames caríssimos logo à partida. No entanto, até essa questão é tratada na série através da directora do hospital. A série mantém uma equipa de consultores que ajuda na exactidão dos termos técnicos mais complexos e, tal como ‘E.R.’, disponibiliza no seu ‘site’ informação e glossário sobre termos médicos.
O MELHOR ACTOR
‘DR. HOUSE’
Canal: TVI/Fox
Dia: quinta/sábado e domingo
Hora: 00h00/21h00
Elenco: Hugh laurie, Lisa Edelstein, Jesse Spencer
Produção FOX/2004
Espectadores nos EUA: 18,9 milhões
Share: 38,6%
A MELHOR SÉRIE DRAMÁTICA DE TELEVISÃO
ANATOMIA DE GREY
Canal: RTP 1 / Fox
Dia: domingo/quinta
Hora: 19h00/21h00
Elenco: Ellen Pompeo, Sandra Oh, Patrick dempsey, Isaiah Washington
Produção: ABC/2005
Espectadores nos EUA: 19,9 milhões
Share: 21,6%
A MAIS OUSADA
NIP/TUCK
História de dois cirurgiões plásticos. Premiada em 2005 com um Globo de Ouro, gerou polémica pelas imagens cruas.
Canal: TVI / FOX Life
Dia: quarta/sábados e domingos
Hora: 00h20/19h15
Elenco: Dylan Walsh, Julian Mcmahon,
Produção: FX Network/2003
Espectadores nos EUA: 4,8 milhões
Share: 35,9%
A MAIS ANTIGA
E.R. – SERVIÇO DE URGÊNCIA
O canal AXN estreia dia 23 de Fevereiro a 9.ª temporada desta série de culto criada por Michael Crichton. Distinguida com um Globo de Ouro e vários prémios.
Canal: AXN
Dia: todos
Hora: vários
Produção: NBC/1994
Elenco: Noah Whyle, Laura Innes, Eriq La Salle,
Espectadores nos EUA: 32 milhões (2.ª temporada), 20 milhões (na 13.ª)
FORMATO SALTA FRONTEIRAS
'HOSPITAL CENTRAL'
Formato espanhol dos anos 90, baseado numa série original norte-americana, segue o dia-a-dia de um hospital. Em exibição no AXN.
'MULHER'
Eva Wilma e Patrícia Pilar protagonizaram ‘Mulher’, série da Globo de 1998. Cenário e efeitos especiais receberam particular atenção.
'CRIANÇAS S.O.S.'
Em 2000, a RTP 1 estreou uma série centrada num serviço de urgências pediátricas. Com Ruy de Carvalho e Ana Padrão nos papéis principais.
'MÉDICO DE FAMÍLIA'
Adaptada de um formato espanhol, ‘Médico de Família’ estreou em 1999 na SIC e foi a série mais vista: com a média de 55,1% de ‘share’ e 22,7% de audiência.
BRINCAR ÀS CIRURGIAS
JOGOS ENTRAM NO HOSPITAL
Também no mundo dos videojogos há espaço para o mundo dos médicos e dos hospitais. Em Fevereiro, chega a Portugal ‘Trauma Center: Second Opinion’, um jogo para a nova consola Nittendo Wii que aproveita os comandos inovadores para simular uma cirurgia. Bisturis, ‘forceps’ ou desfibriladores são ferramentas que qualquer um pode usar para salvar as vidas em jogo... neste jogo.
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