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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Ivo Canelas em entrevista: "Estamos a viver a tempestade perfeita"

De um dos períodos mais conturbados da democracia portuguesa, Ivo Canelas lembra-se apenas das conversas em surdina mas vê com preocupação a forma como os adolescentes estão a crescer e como o descontentamento geral está a ser colhido pelos movimentos políticos de direita.

02 de maio de 2026 às 10:18

Apesar de focado em desmantelar as FP-25, a sua personagem em ‘Projecto Global’, o Inspetor-chefe, enfrenta também a dúvida e certos dilemas morais. Está de um lado, mas admite que, uns tempos antes, poderia perfeitamente estar do outro. Não deve ser fácil interpretar um papel assim ambíguo.

É fantástico. É uma oportunidade fabulosa porque normalmente a humanidade vive muito mais nessa dualidade do que nas certezas absolutas. O preto e branco não existe, são tudo áreas de cinzento. Muitas vezes na ficção, por simplificação, identificamos claramente os bons e os maus e isso permite-nos usufruir de uma forma arquétipo dos personagens. Mas quando temos a possibilidade e o Ivo proporciona essas possibilidades, ao escrever personagens que são ambíguos, são contraditórios. Pelo menos eu revejo-me no mudar de ideias, em não estar certo das coisas e muitas vezes pensar em 15 coisas ao mesmo tempo, 7 delas contraditórias.

Há cenas duras. Ainda que não retrate histórias reais, sabemos que houve coisas muito próximas. Sentiu o ‘peso’ dessa responsabilidade?

Tentamos fazer jus à humanidade das pessoas, mesmo não sendo pessoas reais. Tentamos recriar essa realidade. Do ponto de vista técnico é difícil, sem dúvida. Falta sempre tempo. Mas, fora isso, é maravilhoso!

Como constrói os seus papéis?

Cada processo tem as suas características. Esta teve uma trave mestra do Ivo Ferreira que era: “sempre que sentires uma certeza absoluta em relação a alguma coisa, é porque estás enganado” e essa linha foi muito curiosa porque me obrigou constantemente a desenvolver essa dualidade. Depois os acidentes. Há um lado acidental que eu cada vez mais gosto de trabalhar. O corpo foi ‘descoberto’ numa prova de guarda-roupa, acidentalmente e isso colocou-me num sítio muito particular, que me ajudou a definir… uma certa rendição a algo que já passou e que me ajudou a tentar, a partir daí, compreender melhor o que é a necessidade de manter uma certa lei e ordem. Uma espécie de inflexibilidade de princípios, já que a flexibilidade muitas vezes exige uma Juventude que ele já não tem.

Era um miúdo na época de atuação das FP-25. Lembra-se de alguma coisa desses tempos?

Muito pouco. Lembro-me dos meus pais, que felizmente ou talvez não, me protegeram muito politicamente, mas lembro-me dos burburinhos, das pessoas a falarem baixo. Mais até da parte do meu avô. De algumas tensões familiares, diferentes pontos de vista nas conversas à mesa que eram também diferentes perspectivas geracionais sobre o passado e o futuro.

Num momento em que tanta coisa se agita, politicamente, em Portugal e lá fora, acha que este filme tem mais impacto agora do que teria há 10 anos ou 20 anos?

Qualquer filme que nos faça olhar para a nossa história e pensar sobre ela com o devido distanciamento temporal é importante. Agora ainda mais, porque acho que estamos a viver uma tempestade perfeita politicamente: uma sociedade cada vez mais dividida entre os mais ricos e os mais pobres; sem que os direitos básicos de vida – habitação, saúde, educação – estejam verdadeiramente assegurados e vejo que o descontentamento e a revolta são facilmente colhidos por ideologias radicais. Existe um extremismo de direita que está profundamente organizado e organizar-se cada vez mais; não encontro neste momento a mesma força ideológica no extremismo de esquerda, apesar das narrativas do extremismo de direita tentarem que acreditemos no contrário.

Porque diz que é a tempestade perfeita?

Digo que é ‘uma tempestade perfeita’, porque há aqui várias traves mestras que estão em causa, simultaneamente. O planeta, a base onde podemos sofrer todos os nossos problemas, está a tremer profundamente. Aquilo que tomamos por garantido, em termos de direitos e de igualdade, está a recuar. Estamos a ‘reduvidar’, até na forma de lidarmos uns com os outros, homens e mulheres, e não é num prisma de igualdade, mas de uma superioridade misógina, extraordinariamente retrógrada e profundamente violenta, ligada a uma reconstrução do movimento fascista. Até esta ideia de “uma cultura de direita e uma cultura de esquerda”, que não mais é do que uma forma de nos fazer olhar para o mundo de forma condicionada. É um período extraordinariamente complexo e triste, mas ao mesmo tempo, é fascinante e enche-me de esperança quando vejo que estes movimentos, ainda que com lentidão, estão a ser respondidos pela sociedade e que nunca a democracia esteve tão vibrante no sentido de ‘alto e pára o baile’. É importante discutir o que está a acontecer, para que não percamos a liberdade de o fazer.

Não tem filhos, mas preocupa-o o futuro que está a ser preparado para as novas gerações?

Não tenho filhos mas tenho uma sobrinha, de sete anos. Já disse à minha irmã que é essencial que aprenda uma forma de luta, pois ao mesmo tempo que ela, estão a crescer rapazes fechados nos seus quartos, educados pelos seus telemóveis. É importante ensinar a distinguir… o que é o amor e o que é um amor tóxico, o que é gostar e o que é mantermo-nos íntegros em relação aos nossos ideais mas, em última análise, ter a capacidade física, de não permitir que nenhum idiota lhe ponha a mão em cima, porque infelizmente essa probabilidade tem disparado exponencialmente. Já disse à minha irmã que ela tem de aprender uma luta, uma luta qualquer, que sirva para se defender.

E tem na calha outros projetos?

Estou a rodar ‘Refúgio do Medo’, um thriller luso-islandês e a 13 de Maio estreia no teatro Maria Matos ‘Sinédoque’, em parceria com o João Vasco, um pianista maravilhoso. É um espetáculo de piano e leitura de textos, prosa e poesia, muitos deles textos políticos também.

Depois de ‘Todas as Coisas Maravilhosas’, volta a propor ao público a escuta, sem personagens. Sente-se cada vez melhor a ser você próprio em palco?

Na forma como eu trabalho, é sempre um exercício de tentar utilizar as partes de mim que servem aquela história apagando as outras, criando a ilusão de que sou o outro e depois aplicar máscaras e filtros. Sobre os atores, o Robert Duval dizia sempre, “tenta, tenta tu seres tu próprio”, porque é muito difícil concretizar essa ideia de nós próprios. Às vezes, nem nós nos conhecemos. Não sabemos o que é sermos ‘nós próprios’ e, muitas vezes, confrontar-nos com esse ‘nós’ é doloroso, e não é assim tão interessante, antes pelo contrário.

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