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Cantora acaba de lançar o disco 'Relatos de Um Coração Confuso'. O pretexto para uma conversa sobre lutas, busca interior e saúde mental
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Este título estava guardado há uns 2 anos. Fala da confusão que veio de mim mesma: que disco é que eu queria fazer e que cantora e compositora é que eu era. Veio da confusão do mundo, do ser humano, de não perceber várias coisas e de me afetar profunda e emocionalmente com esta distância criada entre todos nós. Todas as lutas que abraço são por uma necessidade que não pode ser negada. O facto de eu ter vindo para a música, foi uma forma que arranjei, desde miúda, de expressar aquilo que sentia e aquilo que eu não compreendia. Portanto, é sempre uma busca interna e existencial esta de criar.
Eu não consigo compreender uma série de coisas, mas a minha confusão tem muito a ver com os meus diagnósticos de PHDA [Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção] e de autismo que me faziam sentir uma humana estranha neste planeta. Às vezes o meu cérebro - às vezes não, todas as vezes - via ou lia coisas de forma diferente, que para mim nem sempre eram fáceis de perceber, a ligação pessoal comigo mesma, a ligação com os outros, a minha ligação com a música e tentar perceber até o porquê de eu ser tão ligada a pormenores. E toda essa confusão mental e emocional estava a rebentar de alarmes, claramente estava aos gritos dentro de mim a dizer: o único caminho é criar, mesmo sem saber para onde ir. E foi isso que aconteceu. Fui seguindo e continuando a andar até que, como me ensinou o Paulinho Moska [músico brasileiro que participa neste disco], a confusão tornou-se o caminho e não o problema.
Eu acho que associo a confusão a uma coisa má porque foi isso que nos foi ensinado. O tu não saberes o que queres é dado como uma fraqueza. Nós andamos na escola e depois chegamos ali uma certa idade e começa tudo a lixar-nos a cabeça, a perguntar o que é que queremos fazer o resto da vida. A verdade é que os adultos que perguntam isso às crianças nem sequer sabem o que é que andam a fazer. E essa confusão, quando já se é adulto, cria confusão também nos outros. De repente começas a criar uma confusão geral. Eu achava: 'Epá! parece que toda a gente sabe o que é que anda a fazer e eu ando à toa'. Mas na verdade, foi a coisa mais positiva que me aconteceu e que eu espero que aconteça outra vez, de vez em quando, não assim, tipo tsunami, mas espero que me aconteça outra vez, porque ela só acontece quando nós estamos no caminho errado.
Em silêncio não, que eu sou muito verbal (risos). Eu, para sofrer, dramatizo.
Não é um problema, é uma condição. Eu ando a tentar desmistificar isto. Eu não tinha um problema e eu não tenho um problema. Em criança também não tinha e qualquer pessoa que seja neuro divergente também não tem. Nós só temos um problema se nos encaixarmos todos dentro de uma caixa onde todos somos iguais. A partir do momento em que somos todos diferentes, a diferença não é um problema, a diferença é um caminho. A diferença é a única forma de nós aprendermos uns com os outros. Eu se estiver constantemente a falar comigo mesma, provavelmente vou chegar a muitos sítios, mas se calhar muitas vezes vou chegar ao mesmo. Portanto, o facto de eu ser solitária sempre foi uma coisa que eu não percebia. Mais tarde, com os meus diagnósticos, é que me foi explicado porque eu precisava e preciso de muito tempo para me autor regular sozinha, até porque a minha cabeça não para As ideias caem umas em cima das outras e é tudo com muita intensidade. Por isso, os momentos de reflexão são extremamente necessários. O que é que se passa com a Marisa? Passa-se comigo o que se passa com toda a gente? Eu simplesmente falo sobre isto. Eu começo a falar sobre este assunto com a malta e percebo que todos nós sentimos uma data de merdas destas, mas que andamos todos a mascarar para darmos a entender que sabemos o que é que andamos a fazer.
Agora não. Do PHDA já falei há uns anos. Foi uma coisa que na verdade não era interessante. As pessoas não percebiam. Houve aqui uns anos que até se andou a falar muito disto, que parecia meio uma moda e que de repente os putos todos tinham PHDA. Tornou-se quase uma condição de brincadeira, porque é muito difícil para as pessoas verem coisas que não são visíveis. Por isso é que a arte para mim é tão maravilhosa, porque dá forma a sentimentos. Um sentimento não tem uma forma e a arte dá forma a emoções e a sentimentos. O não ser visível não quer dizer que não exista. E o PHDA, como outras condições mentais, é encarado por muitas pessoas como "tu és assim porque tu queres" ou "tu não fazes as coisas desta forma porque não estás a tentar o suficiente". E é o mesmo que dizer a uma pessoa que não tem uma perna para correr. Quando a tua condição é visível a nível científico, é visível para os médicos, é visível numa ressonância magnética, mas não é visível à sensibilidade do olho humano, torna-se uma coisa que as pessoas não querem dar grande importância porque dá trabalho. Dá trabalho a gente conhecer-se.
Eu acho que existem preconceitos em relação a muitas coisas. Eu ainda tenho preconceitos em relação a várias. Nós estamos há séculos a ser programados. Há conceitos que só servem para alguns e geralmente sempre para os mesmos. Por mais que eu queira dizer que sou uma pessoa que emocionalmente e mentalmente tentei questionar e pôr-me noutros sítios, está dentro de nós, ainda enraizado, uma data de preconceitos que têm que ser desbravados com profundidade. E só com ação é que eles podem desaparecer. Eu acho que estamos num caminho de questionamento e de pensarmos de uma forma mais abrangente naquilo que nós queremos juntos. Sem um sonho comum, a evolução parece-me bastante difícil.
Também por isso, mas passam igualmente por ouvir canções de outras pessoas. Os momentos de reflexão não têm que partir de mim. Às vezes, os momentos que eu consigo refletir mais é quando o meu cérebro se cala, que é nunca, mas que consegue pelo menos adormecer ligeiramente e onde eu ouço os pensamentos de alguém que naquele momento, de pessoas que eu admiro, músicos, família, amigos e que isso também me ajuda a refletir, sair um bocadinho do meu cérebro para aprender alguma coisa.
Nada é feito a solo. Está aí o meu nome, é verdade, sou eu na capa do disco, mas eu estaria apenas a olhar para mim num espelho em casa, se eu tentasse sequer ter feito isto sozinha. Nunca se tinha transformado num disco, nem numa capa, nem em tudo isto. A partilha não é só de fazer música, a partilha é do pensar no que é que se vai fazer. Das coisas mais maravilhosas e das coisas que eu tenho mais forte é poder usufruir do talento, da emoção e do servo, de pessoas que eu admiro. O meu coração palpita com notas que o Gui dá, com o som que o Ricardo arranja, com as ideias malucas do Tiago. O entusiasmo de tu teres a criatividade de alguém a juntar-se à tua é uma festa. Há uma celebração do nosso melhor, daquilo que nós somos melhores. Tu sabes o que é que é quando tu organizas uma festa com a tua família, com os teus amigos, para alguém que tu amas? Aquilo que nós fazemos aqui é exatamente a mesma coisa, a fazer os bolos, a pôr a mesa, a acender as velas, a ter abraços, olhares de cumplicidade para celebrarmos uma coisa que nós amamos em conjunto.
Tenho quatro convidados de luxo, os Monobloco, que é uma banda de percussão extremamente credível e conhecida no Brasil, que já tocaram várias vezes com artistas maravilhosos. Tenho o dueto com o Paulo Moska, que fez quatro canções e depois tenho dois duetos com dois dos grandes ícones do nosso país e do mundo. O que é que eu posso dizer do Rui Veloso e do Camané?
Nós vamos iniciar a nova digressão em junho [dia 13] e vamos anunciar as datas em breve. Estamos a preparar obviamente toda uma tour nova ligada a este conceito das fotos, ao conceito do disco, do nome do disco, dos compositores, das letras e da roupa, da imagem e que obviamente seguirá para os momentos ao vivo. Como é que eu vou fazer isto tudo me palco? Obviamente que um dos meus objetivos é poder, este ano ou num próximo, juntar toda esta orquestra para conseguirmos fazer isto, celebrar da forma mais próxima ao disco.
A banda é a mesma com a qual tenho vindo a tocar desde o ano passado, que é o Gui Salgueiro nas teclas e na direção musical, o Ricardo Dani na bateria, o Filipe Neves no baixo, tem o Vasco Duarte na guitarra. E depois tenho uma equipa que está junta há muitos anos, muitos deles que vêm de Amor Electro. Continuamos todos a rumar para o mesmo caminho.
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