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Tal como muitas outras doenças autoimunes, o diagnóstico é mais frequente na mulher.
São mais de 10 mil as pessoas que sofrem com esclerose múltipla em Portugal. Esta doença neurológica rara tem como principal alvo o sistema nervoso central – o cérebro e a medula espinhal.
É nestas zonas que o sistema autoimune ataca e provoca lesões que podem ter diferentes impactos na saúde dos doentes. A destruição da mielina - responsável pela transmissão dos impulsos nervosos - impede que exista uma comunicação adequada entre o cérebro e corpo.
O próprio nome atribuído à patologia ajuda a explicá-la. Ao Correio da Manhã, o neurologista Carlos Capela, diretor do Centro de Responsabilidade Integrado em Esclerose Múltipla da Unidade Local de Saúde de São José, clarifica que a palavra ‘múltipla’ se prende com o facto de “existirem lesões inflamatórias em vários locais do sistema nervoso central em tempos diferentes”. À palavra ‘esclerose’ associam-se as cicatrizes que estas lesões podem deixar.
As consequências da esclerose múltipla estão inteiramente relacionadas com a área do cérebro ou medula espinhal que é afetada. O médico Carlos Capela indica que uma das manifestações mais comuns da doença e considerada um sinal de alerta é a “inflamação do nervo óptico”. Esta lesão pode provocar uma diminuição da acuidade visual e dor (atrás do olho e agravada pelos movimentos oculares). Estima-se que em 25% das pessoas esta inflamação seja o primeiro indicador para despistar a doença neurológica que, existindo, provocará diversas lesões ao longo da vida do doente. Por isto mesmo, o especialista assevera a importância do diagnóstico precoce e de uma intervenção farmacológica personalizada capaz de “impedir o desenvolvimento de novas lesões inflamatórias no sistema nervoso central”.
A esclerose múltipla afeta sobretudo jovens e adultos entre os 20 e 40 anos. Tal como muitas outras doenças autoimunes, o diagnóstico é mais frequente na mulher. Por cada homem diagnosticado existem três mulheres afetadas. Apesar de em 5% dos casos poder haver contexto hereditário, os restantes 95% são espontâneos, no entanto, não é claro o que os poderá espoletar. A ciência considera que existem múltiplos fatores que podem contribuir para o desenvolvimento da doença. Em causa estão fatores genéticos ou ambientais como o tabagismo ou o contacto tardio com o vírus Epstein-Barr responsável pela mononucleose infecciosa. Ao CM, o neurologista Carlos Capela adverte também para a importância de apostar num bom estilo de vida, associado à prática de exercício físico e da dieta mediterrânea, porque “manter o corpo saudável é também manter o cérebro saudável”.
Como se diagnostica
A ressonância magnética é o exame indispensável ao diagnóstico da esclerose múltipla. Através dela é possível identificar as lesões inflamatórias no cérebro e na medula espinhal. Para finalizar o diagnóstico pode ser necessário a punção lombar, procedimento médico que serve para avaliar a pressão intracraniana e a composição do líquido cefalorraquidiano.
Em Portugal já é possível recorrer a um teste sanguíneo para detetar a atividade inflamatória no sistema nervoso. Este biomarcador sérico é um complemento à monitorização da doença e importante para dar resposta aos tratamentos.
Como se controla a esclerose múltipla
A esclerose múltipla não tem cura. Mas já é possível aceder a tratamentos eficazes com capacidade para evitar a progressão da doença. Estando perante uma doença autoimune, a terapêutica passa por enfraquecer o sistema imune.
Os anticorpos monoclonais são os fármacos que podem conseguir melhores resultados. Por serem proteínas, não são administrados por via oral, pelo que existem os endovenosos e os subcutâneos. São tratamentos caros e, por isso, o mais comum é o seu acesso ser feito através do Serviço Nacional de Saúde (SNS).
Carlos Capela defende que do “ponto de vista económico, começar a terapêutica com fármacos de elevada eficácia é a atitude mais correta, uma vez que, quanto maior for a incapacidade neurológica, maiores serão os custos associados”. O uso destes fármacos de “elevada eficácia” permite que o doente tenha uma vida relativamente normal.
O neurologista frisa que é “fundamental existirem equipas especializadas e concentradas” em determinadas zonas do País para tratar o melhor possível esta doença.
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