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Um colo que muda tudo

Há crianças que precisam de um lar e há famílias que o têm para dar. O Programa de Acolhimento Familiar da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa faz essa ponte, e, desde que foi lançado, em 2019, já acolheu mais de 250 crianças

06 de julho de 2026 às 11:42

O alarme toca. “Está na hora de acordar, vamos para a escola.” Na cozinha, Miriam e a filha Madalena tomam o pequeno almoço. Com elas estão também uma criança e um bebé que brinca na espreguiçadeira — ambos acolhidos por Miriam no âmbito do Programa de Acolhimento da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.

É neste cenário de rotina, cuidado e carinho que se desenrola o sexto episódio da iniciativa Boas Causas, onde vamos conhecer esta medida de promoção dos direitos e de proteção das crianças.

Uma resposta urgente

A proteção da infância está na origem da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa.  Desde que, em 1783, a criação da Lotaria Nacional permitiu financiar a Casa dos Expostos, a instituição nunca deixou de cuidar das crianças mais vulneráveis. Hoje, essa missão tem um nome: Programa de Acolhimento Familiar.

Em Portugal, cerca de 5.987 crianças estão acolhidas em instituições. Só no distrito de Lisboa são mais de 1.000 a aguardar por uma família. Apesar de as recomendações internacionais privilegiarem o ambiente familiar, apenas 4,3% dos acolhimentos acontecem em famílias, razão pela qual a grande maioria continua a crescer em lares e casas de acolhimento. “A Santa Casa é a entidade gestora do Sistema de Acolhimento Familiar e a instituição de enquadramento a quem compete captar, avaliar e acompanhar todo o processo de acolhimento familiar”, explica Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML.

Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML
Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML FOTO: CStudio

O acolhimento familiar é uma medida de promoção dos direitos e de proteção das crianças, cujo objetivo é proporcionar à criança ou jovem em perigo um ambiente familiar, por ser o mais adequado ao seu bem-estar. A premissa é clara: não se trata de adoção, mas de um acolhimento transitório, esclarece a diretora do Programa de Acolhimento Familiar, Patrícia Bacelar: “O ser família de acolhimento é um processo temporário, enquanto a criança precisa, porque foi retirada de uma situação de perigo e nós estamos a quantrito de Lisboa são mais de 1.000 a aguardar por uma família. Apesar de as recomendações internacionais privilegiarem o ambiente familiar, apenas 4,3% dos acolhimentos acontecem em famílias, razão pela qual a grande maioria continua a crescer em lares e casas de acolhimento.

“A Santa Casa é a entidade gestora do Sistema de Acolhimento Familiar e a instituição de enquadramento a quem compete captar, avaliar e acompanhar todo o processo de acolhimento familiar”, explica Patrícia Bacelar, diretora do Núcleo de Acolhimento Familiar da SCML. O acolhimento familiar é uma medida de promoção dos direitos e de proteção das crianças, cujo objetivo é proporcionar à criança ou jovem em perigo um ambiente familiar, por ser o mais adequado ao seu bem-estar. A premissa é clara: não se trata de adoção, mas de um acolhimento transitório, esclarece a diretora do Programa de Acolhimento Familiar, Patrícia Bacelar: “O ser família de acolhimento é um processo temporário, enquanto a criança precisa, porque foi retirada de uma situação de perigo e nós estamos a avaliar a sua situação familiar de forma que ela possa regressar à sua família de origem ou, caso não seja possível, possa ter um projeto de vida alternativo, como é a adoção.” Até lá, a criança ou jovem cresce numa família que lhe oferece estabilidade, afeto e rotina.

Desde 2019, o programa evitou a institucionalização de mais de 250 crianças. Neste momento, há 117 famílias de acolhimento em bolsa. São precisas muitas mais. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa promove sessões informativas e campanhas de sensibilização para aumentar esse número, consciente de que cada família que se candidata pode mudar a vida de uma criança. Miriam Duarte é uma dessas famílias.

O dia em que disseram sim

Professora de Educação Especial, Miriam tem 44 anos e uma filha, Madalena. Em 2019, soube que as regras do acolhimento familiar tinham mudado e tomou uma decisão. “Perguntei à Madalena, na altura ela tinha 6 anos, o que é que achava da ideia de acolhermos uma criança, de cuidarmos de uma criança, enquanto os pais não o podiam fazer. Antes de eu terminar a frase, ela já estava aos pulos em cima da cama a dizer que sim.”

Miriam Duarte Família de Acolhimento
Miriam Duarte Família de Acolhimento FOTO: CStudio

Seis meses depois, chegou a primeira bebé que “entrou rapidamente no nosso registo, integrou-se muito bem na nossa rotina, e éramos as três, estávamos bem.” A maior recompensa foi ver “aquela criança em casa e não numa instituição”, recorda.

O processo para se tornar família de acolhimento é exigente, mas acompanhado. “É feita uma candidatura, e são feitas sessões informativas e de formação, assim como uma avaliação aprofundada, para que possa existir um processo de matching entre aquilo que são as competências da família e o perfil da criança. E depois fazemos todo o acompanhamento técnico, regular, muito frequente, da criança enquanto a medida está a ser executada”, detalha Patrícia Bacelar. O objetivo é garantir que a criança encontra não apenas uma casa, mas a família certa. Em casa de Miriam, as crianças acolhidas fazem parte da família. “Eu trato-as como filhas”, afirma. No entanto, o acolhimento traz consigo uma realidade que poucos imaginam: a despedida. Depois de três anos consigo, “não foi nada fácil deixar a primeira bebé ir, depois dos laços criados.

É este o maior receio de quem pondera acolher e Miriam conhece bem o argumento. “Muitas vezes dizem-me, ‘ah, eu não ia conseguir, porque depois eu tenho medo, vou sofrer’. Mas o que nós damos até a criança ser adotada ou voltar à família biológica é todo o carinho e amor.” E, com uma clareza que desarma qualquer hesitação, confessa: “Eu vou chorar muito, mas até lá eu vou dar muito colo e muito amor a esta bebé.”

Miriam não tem dúvidas sobre a mensagem que quer deixar: “Há muitas crianças a precisar de uma casa, de um lar, de um colo. As pessoas também devem pensar mais na criança, no que vão fazer, do que em si próprias.”

Família de coração

Madalena vive tudo isto de perto. Tem 12 anos e cresceu a partilhar a mãe, a casa e a vida com crianças que chegam e que partem. Não é fácil. “Quando perdemos a última menina, foi das coisas mais dolorosas que me aconteceram. É muito doloroso, mas não podemos pensar só em nós, temos de pensar nas outras crianças”, diz.

Madalena, de 12 anos, cresceu a partilhar a mãe, Miriam Duarte, a casa e a vida com crianças que chegam e que partem
Madalena, de 12 anos, cresceu a partilhar a mãe, Miriam Duarte, a casa e a vida com crianças que chegam e que partem FOTO: CStudio

Quando lhe perguntamos o que é família, a resposta vem cheia de sabedoria: “É quando sentes carinho e amor por alguém. Se acontecesse alguma coisa àquela pessoa, tu darias a vida por ela. Não me interessa se ela é de sangue ou de coração. Eu acho que é isso que para mim é família.”

Acolher é a melhor aposta

Por detrás do Programa de Acolhimento Familiar estão as receitas dos Jogos Santa Casa. A Santa Casa da Misericórdia de Lisboa recebe 26,52% dos resultados dos Jogos Sociais do Estado, verba que sustenta esta e muitas outras respostas sociais, permitindo manter o Núcleo de Acolhimento Familiar, recrutar famílias, acompanhar crianças e garantir que a resposta existe.

No passado mês de junho a Santa Casa lançou a sua quarta campanha de acolhimento familiar
No passado mês de junho a Santa Casa lançou a sua quarta campanha de acolhimento familiar FOTO: CStudio

Em 2025, os Jogos Santa Casa entregaram ao Estado 870 milhões de euros e 97,3% do valor gerado retornou à sociedade. Os Jogos Santa Casa são, como resume o provedor Paulo Alexandre Duarte de Sousa, “um agregador em termos sociais, mas um multiplicador muito relevante em termos económicos”. É com uma parte dessa verba que, atualmente, 117 famílias de acolhimento dão colo, amor e rotina às crianças que precisam. É também ela que torna possível que mais famílias se juntem a esta causa.

Boas Causas

A iniciativa “Boas Causas” percorre o País para mostrar o que raramente se vê. Por detrás de cada aposta nos Jogos Santa Casa há histórias como a de Miriam e Madalena, de crianças que precisam de colo e de famílias que o têm para dar. Ao longo de 13 episódios, o Correio da Manhã e a CMTV dão voz a essas histórias. Esta é a sexta. Há mais sete por contar.

Ouça a Correio da Manhã Rádio nas frequências - Lisboa 90.4 // Porto 94.8