Possibilidade de negociação com grupos terroristas tem sido levantada por alguns segmentos da sociedade moçambicana.
O governador da província moçambicana de Cabo Delgado defendeu esta terça-feira, em entrevista à Lusa, que as constantes transformações na génese dos grupos terroristas que atuam na região dificultam a compreensão das suas motivações, afastando a possibilidade de diálogo.
"O terrorista está no mato e nós não temos contactos: nem para poder dialogar e saber quem é ou o que ele quer. Não há essa possibilidade", declarou Valige Tauabo, em entrevista à Lusa em Pemba, capital provincial de Cabo Delgado.
Para o governador daquela província do Norte de Moçambique, as constantes transformações dos grupos armados que desde 2017 têm protagonizado ataques na província de Cabo Delgado dificultam a compreensão das suas reais motivações, que mudam de cada vez que se tenta perceber o seu perfil e as razões que os movem.
"Eles mascaram-se em formato de que são motivações religiosas e, depois de um certo tempo, viram o cenário e entram nas etnias. Quando percebem que estão a ser investigados mudam para questões culturais ou relacionadas com a riqueza que nós temos", declarou Valige Tauabo.
O governador da província de Cabo Delgado entende não existir a possibilidade de uma leitura isolada sobre as motivações destes grupos, considerando que há um conjunto de fatores que estes elementos usam para tentar justificar as suas atrocidades, embora sem quaisquer fundamentos lógicos.
"Qualquer avaliação que se possa fazer pode servir para o momento, mas há um conjunto de elementos que se concentram em volta das motivações destes grupos terroristas", frisou.
A prioridade atual do executivo moçambicano, prosseguiu o governador, é assistir as mais de 800 mil pessoas deslocadas devido ao conflito armado no Norte da província de Cabo Delgado.
"Nós estamos preocupados com a nossa população", frisou o governador.
A possibilidade de uma negociação com os grupos terroristas tem sido levantada nos últimos tempos por alguns segmentos da sociedade moçambicana, incluindo o antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano, que sugeriu, no início deste mês, ao Governo que considere a possibilidade de diálogo com os grupos armados que atuam em Cabo Delgado desde outubro de 2017.
Embora nunca se tenham oficialmente divulgado as suas identidades nem revindicações, segundo uma análise avançada recentemente pelo Departamento de Estado norte-americano, os grupos armados que protagonizam ataques em Cabo Delgado são dirigidos por um indivíduo chamado Bonomade Machude Omar, também conhecido como Abu Sulayfa Muhammad e Ibn Omar.
Segundo um comunicado emitido no início deste mês pelo gabinete do secretário de Estado norte-americano, Antony Blinken, Omar terá liderado o ataque ao Hotel Amarula, na invasão a Palma, em 24 de março deste ano, e "foi responsável por ataques na província de Cabo Delgado, em Moçambique, e na região de Mtwara, na Tanzânia".
Os ataques armados por grupos insurgentes em distritos do norte de Cabo Delgado provocaram mais de 3.100 mortes, segundo o projeto de registo de conflitos ACLED, e mais de 817 mil deslocados, segundo as autoridades moçambicanas.
A luta contra os insurgentes em Cabo Delgado ganhou um novo impulso, quando há 10 dias forças conjuntas de Moçambique e do Ruanda reconquistaram a estratégica vila portuária de Mocímboa da Praia, que estava nas mãos dos rebeldes há mais de um ano.
Além do Ruanda, Moçambique tem agora apoio da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC), num mandato de uma "força conjunta em estado de alerta" aprovado em 23 de junho, numa cimeira extraordinária da organização em Maputo que debateu a violência armada naquela província, havendo militares de alguns países-membros já no terreno
EYAC // JH
Lusa/Fim
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