Raquel Tavares atua sexta-feira (21) no Coliseu de Lisboa e sábado (22) no Coliseu do Porto
Já conseguiu imaginar os Coliseus cheios só para a ouvir?
A aproximação do dia está a causar-lhe medo, ansiedade excitação...!
Está a provocar-me muitas coisas, mas eu acredito muito naquilo que faço, na minha equipa e em todas as pessoas que me ajudaram a chegar aqui. Nenhum artista se faz sozinho. Aliás, eu já estava quase a desistir da música quando o meu manager, o João Pedro Ruela, me resgatou.
Estava a desistir da música ou do fado?
Da música, da indústria.
Por desencanto?
Não sei. Não posso dizer que andasse propriamente revoltada. Nem nunca fui pessoa de me perguntar "porque é que isto não me acontece a mim?", porque eu nunca ambicionei nada disto. Eu queria era cantar porque sempre gostei. Já a vida artística é outra coisa. Aliás, eu ainda hoje me pergunto se estou preparada para ser artista. Eu não sei, por exemplo, o que hei-de sentir em relação aos coliseus, não sei se me sinta feliz, orgulhosa, realizada. Só no dia 22 quando terminar o concerto no Porto é que eu vou conseguir dizer o que sinto. Por isso é que decidi fazer os coliseus sozinha sem convidados precisamente para poder perceber se valho estas duas salas cheias. É um risco porque eu estive oito anos fora do mercado e há pessoas que têm hoje mais peso.
Mas o disco que lançou a está a correr muito bem. Isso não a tranquiliza?
Eu sei que está a correr bem e que o single 'Meu Amor de Longe' já toda a gente canta, até as crianças (risos), mas o que me importa mesmo é subir a um palco e fazer um bom concerto, sair de lá satisfeita e transpirada. Eu detesto sair do palco sem o vestido encharcado. Se acontecer é porque não dei tudo. E neste momento eu não posso esquecer-me que estou a defender uma identidade diferente daquela que defendi nos últimos vinte anos que foi o fado tradicional. O meu grande desafio nos últimos anos foi conquistar pessoas novas e manter as que já tinha.
Já há quem não a veja como fadista tradicional!
Mas issso não é verdade. Eu continuo a ser uma fadista tradicional, só que também me propus a cantar coisas novas. Este é, de resto, um disco muito português. É diferente do que eu fazia? É, mas foi o que me aconteceu nos últimos anos. Isso, aliás, deu para eu própria perceber que sou mais do que uma fadista. Sou intérprete, cantora e quem sabe artista.
Quando se questiona a si própria sobre essa coisa de ser artista, tem noção que as pessoas gostam dessa humildade?
Eu até acho que me exponho bastante. Eu acho importante que as pessoas nos conheçam. Eu perco horas à procura de documentários de artistas de que gosto e já me dececionei com muitos deles, porque gosto da música e percebo que não gosto da pessoa. Por isso, mais do que as pessoas gostarem de mim enquanto fadista, eu prefiro que as pessoas gostem de mim enquanto pessoa. Por isso é que às vezes, contra tudo e contra todos, e infringindo as regras do que deve ser uma artista, criando alguma distância e algum misticismo, eu gosto é que as pessoas me abraçem quando chegam ao pé de mim. Gosto de saber que muitas das pessoas que vêm ver-me ao Coliseu de Lisboa me conhecem bem e que já me tinham visto há 20 anos.
Que memórias é que guarda dessa altura, quando venceu a Grande Noite do fado com apenas 12 anos?
Lembro-me de tudo. Lembro-me de atravessar o corredor de acesso dos elevadores ao palco e de ver o Carlos dos Carmo, o Jorge Fernando, o Marco Paulo e o Nuno da Câmara Pereira. Eu era a última do júniores. O coliseu estava cheio e na fila da frente estavam uma série de senhoras doidas porque estava cá o Marco Paulo. Havia garrafões de vinho, pataniscas e pastéis de bacalhau. Naquela altura ainda se ganhava a Grande Noite do Fado por tempo de palmas e cada fadista representava um bairro.
E isso não a intimidou?
Não. A minha familia estava lá toda e e lembro-me que entrei em palco como se aquilo fosse uma coletividade cheia de gente (risos). Eu já andava a cantar desde os seis anos, por isso isto para mim quanto muito só era uma sala grande. Eu nem fui com a ideia de ganhar até porque na altura havia uma miúda que cantava muito bem que era a Milene Candeias. Era muito fadista, com um grande vozeirão, que vestia de preto e cantava o 'Povo Que Lavas no Rio'.
E a Raquel como era?
Era era muito engraçada e muito pespineta. Não cantava Amália. Naquela noite cantei uma música jovem que se chamava 'Orgulho Fadista'. Mas eu não tinha a menor hipótese porque aquilo era uma coisa muito ligeirinha. Só que as pessoas já me conheciam e eu ganhei, eu e o Ricardo Ribeiro, nesse ano. Lembro-me que nunca mais saía do palco como uma lata enorme agradecia de um lado, agradecia do outro e o tempo sempre a contar (risos). Ganhei com cinco minutos e tal de aplausos. A minha mãe desmaiou, o Dr. João Soares veio entregar-me a taça e eu lembro-me que não tinha mãos para tantos troféus. Era muito magrinha e tinha muito cabelo. Depois fui para casar descansar porque o Correio da Manhã ia entrevistar-me no dia a seguir (risos).
Mas como essa idade já queria ser cantora?
Não. Eu queria ser jornalista e particularmente repórter de guerra. A minha mãe tinha trabalhado na RTP e eu tinha crescido nos estúdios do telejornal, a ver o Joaquim Furtado. O meu sonho de pequenina era ser bailarina, mas infelizmente a vida não deu para isso e eu fiquei-me pelo fado que era mais barato (risos). Não se pagava para ir aos fados. As pessoas achavam-me graça e eu nunca mais parei. Cheguei a ganhar 14 concursos de fado. Mas o engraçado é que eu só ia com o intuito de ver os fadistas mais velhos que iam como convidados. Foi assim que conheci a Fernanda Batista, a Cidália Moreira, a Fernando Mauricio e muitos outros.
Mas nunca exerceu jornalismo?
Ainda fiz rádio, mas eu queria mesmo era ir para a guerra. Ainda aqui há tempos vi uma reportagem na Siria e as lágrimas escorriam-me. A comunicação mexe muito comigo e eu acho que acabei por escolher uma profissão que se assemelha muito ao jornalismo.
Como assim?
O jornalismo é vivido todos os dias de forma diferente, todos os dias há notícias diferentes, e o jornalista tem que passar a mensagem de forma a que toda a gente o entenda. A mesma coisa se passa comigo. Eu canto fado e não o posso fazer igual todos os dias se não não é verdade, porque não estou todos os dias feliz nem todos os dias triste. A poesia nunca é interpretada da mesma forma, mas eu tenho que fazer com que toda a gente a entenda. Eu não sou jornalista, mas acho que pratico jornalismo de forma musical (risos).
Há um ano dizia que achava que tinha chegado a sua altura. E agora já tem a certeza?
Não, continuo a achar. O Coliseu é uma meta para mim. Se eu conseguir passar bem por isto, dignamente e ficar feliz por isso, então talvez já possa ter a certeza de que chegou a minha altura.
E depois desta meta, já traçou a próxima?
Não, não tenho. Não tenho mais ambições e o que vier é lucro. Eu não tenho ambições artísticas porque eu nunca sonhei isto.
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