Sobre o seu método de trabalho, a editora recorda que Lobo Antunes não escrevia à máquina, sempre escreveu tudo à mão.
A editora de António Lobo Antunes, Maria da Piedade Ferreira, recorda o escritor que "não gostava de ser contrariado", escrevia sempre à mão e lhe entregava os manuscritos, e que morreu sem o "merecido" Nobel, deixando uma obra fundamental.
"Fomos muito amigos, de vez em quando discutíamos, porque ele era muito seguro naquilo que fazia, não gostava muito que contradissessem" quando era corrigido em alguma coisa, como uma data, por exemplo, contou à Lusa aquela que ao longo de 15 anos foi a editora de um dos maiores nomes da literatura portuguesa desde a segunda metade do século XX, que morreu esta quinta-feira aos 83 anos.
Primeiro ficava zangado, depois acabava por lhe dar razão, recordou, sublinhando, contudo que tinham "uma relação de grande amizade e de respeito mútuo", que correu sempre tudo "muito bem" e que gostou muito de trabalhar com ele.
"Para mim foi uma honra trabalhar com ele. A obra dele foi importantíssima porque rompeu com um certo tipo de literatura neorrealista, que era da época, muito política, e passou para uma literatura da vida das pessoas, dos sentimentos, da guerra, e que mudou completamente a literatura portuguesa", lembrou.
Maria da Piedade Ferreira assinalou que foi a partir desse rompimento que outros autores "entraram na linha de escrita dele, portanto, uma mudança muito grande de que ele foi responsável".
Sobre o seu método de trabalho, a editora recorda que Lobo Antunes não escrevia à máquina, sempre escreveu tudo à mão e que ela era a primeira pessoa a receber e a ler os seus manuscritos, e só então "se começava a fazer a produção do livro".
Maria da Piedade Ferreira afirmou que tem em sua posse alguns manuscritos de António Lobo Antunes e confessou que ainda não sabe bem o que fazer com eles.
"Não sei se alguma biblioteca gostará de ficar com eles. Eu tenho vários. Tenho manuscritos das crónicas e tenho manuscritos de alguns romances. Tenho, aliás, um que ele me dedicou e que me ofereceu", revelou, acrescentando que, "como vai haver uma biblioteca António Lobo Antunes, é natural que eles queiram ficar com esses manuscritos".
A editora referiu que Lobo Antunes já não escrevia livros há três ou quatro anos, mas que deixa "um legado", que é "uma obra vasta e importante, fundamental para a literatura portuguesa".
"E mesmo no estrangeiro. Eu já recebi chamadas hoje de Nova Iorque. [...] E pedidos de edições continuam a chegar, de traduções. Da Coreia, por exemplo, da Rússia. Ele está a ser publicado na Rússia. Portanto, a obra dele não morreu, está viva, nesse aspeto. Do ponto de vista internacional, continua a haver interesse", contou.
Maria da Piedade Ferreira apontou ainda aquela que foi uma das amarguras do escritor, não receber o Prémio Nobel da Literatura, considerando que teria sido "merecido".
"Merecia. Durante uns anos preocupava-se com isso, depois deixou de se preocupar. De certo modo já não lhe interessava, já estava acima disso".
António Lobo Antunes nasceu em Lisboa, em 01 de setembro de 1942, licenciou-se em Medicina, pela Universidade de Lisboa em 1969, tendo-se especializado em Psiquiatria, que mais tarde exerceu no Hospital Miguel Bombarda.
Em 1970 foi mobilizado para o serviço militar e, no ano seguinte embarcou para Angola, tendo regressado em 1973.
Optou pela escrita a tempo inteiro em 1985, para combater a depressão que dizia ser comum a todas as pessoas.
O seu primeiro livro, "Memória de Elefante", surgiu em 1979, logo seguido de "Os Cus de Judas", no mesmo ano, sucedendo-se "Conhecimento do Inferno", em 1980, e "Explicação dos Pássaros", em 1981, obras marcadamente biográficas, muito ligadas ao contexto da guerra colonial, e pelo exercício da psiquiatria, que depressa o tornaram um dos autores mais lidos em Portugal.
Foi Prémio Camões em 2007.
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