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MORREU O ACTOR JOSÉ VIANA

O actor e pintor José Viana faleceu na madrugada de ontem no Hospital S. Francisco Xavier, em Lisboa, na sequência de um acidente de viação, seguido de fuga, ocorrido no passado domingo à noite na auto-estrada de Cascais (A5).

08 de janeiro de 2003 às 12:49

O acidente deu-se às 19h25, ao km13 da A5, junto a Monsanto, onde uma carrinha mista colidiu violentamente com a viatura onde seguia o artista, de 80 anos, e a mulher, a actriz Dora Leal. Os ocupantes puseram-se em fuga, a pé, abandonando a carrinha no local.

A Brigada de Trânsito da GNR já identificou o proprietário da carrinha, desconhecendo-se, no entanto, se o indivíduo dirigia o veículo na altura do acidente. As autoridades estão ainda a efectuar exames periciais, após os quais o caso seguirá para tribunal.

José Viana e Dora Leal foram socorridos pelos Bombeiros de Oeiras e de Carcavelos e deram entrada no Hospital de S. Francisco Xavier pelas 20h15. Ontem de madrugada, o actor acabou por sucumbir às lesões sofridas, estando a autópsia marcada para hoje. Dora Leal sofreu também algumas fracturas, mas teve alta ontem.

HOMEM DOS SETE OFÍCIOS

José Viana começou por desenhar e depois por pintar. Chegou a ser cenógrafo, encenador, autor, cantor,compositor, mas foi como actor que se tornou mais conhecido, sobretudo no teatro de revista e, posteriormente, na televisão.

Este verdadeiro “homem dos sete ofícios” nasceu em Lisboa a 6 de Dezembro de 1922 e frequentou a Escola Industrial Machado de Castro, no Curso de Serralheiro Mecânico, que nunca veio a terminar.

Contudo, aperfeiçoou a arte de desenhar, o que lhe permitiu começar desde os 13 anos a colaborar para o jornal "O Senhor Doutor", o suplemento de "O Século", e a fazer capas para o "Papagaio".

O primeiro emprego que arranjou foi como retocador de gravura na Casa Bertrand & Irmãos.

Ainda como pintor, em 1947, integrou a 2.ª Exposição Geral de Artes Plásticas, organizada pelo Movimento de União Democrática, onde a polícia do regime ditatorial lhe confiscou alguns quadros.

O actor/pintor ficaria ainda conhecido pela sua faceta política, que descobriu através do jornal “Avante”, que o levou a filiar-se no PCP. Conforme recordou o realizador Lauro António, esta opção “nunca foi compreendida pela maioria”.

No final dos anos 40 começou a fazer cenários para os espectáculos de teatro amador na Sociedade Guilherme Cossoul.

Em 1951, com 29 anos, estreou-se no Coliseu com a revista "Lisboa é Coisa Boa!". Em seguida, passou pelo Parque Mayer (teatros Variedades, Maria Vitória) e pelos palcos do Avenida, Monumental e Maxime, antes de fazer uma digressão pelas então colónias portuguesas de S. Tomé, Moçambique e Angola.

Regressou ao Parque Mayer em 1988 com uma revista de sua autoria, "Festa no Parque", na qual assinou igualmente as melodias e a encenação.

Nos anos 50 casou-se com a actriz brasileira Jujú Baptista, de quem teve uma filha, a hoje cantora de jazz Maria Viana, e fixou residência em Angola, dedicando-se à pintura e expondo em Benguela, Lobito e Luanda.

Em 1957, voltou a Portugal e participou nas emissões pioneiras da RTP, canal onde viria a ter o seu próprio programa, "Ora Viva", em 1987. Passou ainda pelo Teatro Gerifalto e ingressou no Teatro ABC, onde procurou rejuvenescer a revista.

Depois de 1959, iniciou um novo período de recolhimento, durante o qual voltou a dedicar-se à pintura.

Entretanto, ainda na década de 60 voltou a casar-se, desta vez com Dora Leal, de quem teve duas filhas (Maria Raquel e Madalena Leal).

É também em meados da década de 60 que José Viana atinge o auge da sua carreira, na empresa de Guiseppe Bastos e Vasco Morgado, então no Maria Vitória, onde participou em rábulas como "Zero, Zero, Zero - Ordem para Matar", "Esperteza Saloia" e "Cala-te Boca".

Mais recentemente, voltou ao pequeno ecrã, fazendo algumas aparições no programa "Grande Noite", de Filipe La Féria.

O cinema português tem também a marca de José Viana, que é lembrado sobretudo nos papéis que desempenhou nas fitas "O Recado" (1972), de José Fonseca e Costa, "A Fuga" (1976), de Luís Filipe Rocha, "A Ilha" (1990), de Joaquim Leitão, e "O Fim do Mundo" (1992), de João Mário Grilo.

”TENACIDADE E CORAGEM”

“É uma grande perda para a cultura portuguesa”, afirmou o realizador Lauro António, que em 1997 lançou a biografia “José Viana - 50 anos de carreira.

O cineasta descreve-o como “um homem generoso, dono de muita tenacidade e coragem, características que foi demonstrando ao longo da vida”, acrescentando que será sempre “um símbolo do teatro de revista e de Lisboa, pelas inúmeras personagens míticas que criou, como o Zé Cacilheiro”.

”DEVO-LHE O SER ACTOR”

“Lamento muito a perda de José Viana mas é com enorme prazer que falo de um grande homem e de um grande amigo... há mais de 60 anos”, recordou o actor Raul Solnado. “A ele devo a minha carreira de actor porque me convidou para fazer o meu primeiro espectáculo profissional. Chamava-se ‘Sol da Meia Noite’”, lembrou. “Era um homem com grande cultura e inteligência e é pena que tenha morrido esquecido e sem a glória que merecia”.

O actor Nuno Miguel Henriques dedica na próxima segunda-feira a apresentação do espectáculo “Um Poder Chamado Palavra”, a realizar no Auditório da Biblioteca Museu República e Resistência, em Lisboa, ao actor José Viana. A entrada é livre.

O apoio às novas gerações de actores sempre foi uma faceta bem conhecida de José Viana. Neste caso concreto, o falecido actor foi um dos grandes impulsionadores da carreira de Nuno Miguel Henriques, que encontrou na arte feita no palco a melhor maneira de homenagear e recordar o saudoso artista.

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