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Correio da Manhã

Cultura
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Motivos de festa

No dia das cruzinhas, saúda-se uma trégua no longo calvário que é, para os interessados portugueses, o desconhecimento da nova música francesa. Por isso se agradece à editora Universal que, uns anos depois de ‘Attraction’, volta a lembrar-se dos fantásticos Paris Combo e faz distribuir por cá ‘Motifs’, 5.º álbum (4.º de estúdio) de um quinteto que merece ser desfrutado em pleno.
20 de Fevereiro de 2005 às 00:00
Talvez se possa, depois, abrir portas a Benjamin Biolay, a Keren Ann, a Vincent Delerm, a Coralie Clément (disco novo lançado na passada segunda-feira!), a Emilie Simon, a Bénabar, a Sanseverino, a Dorval, a Thomas Fersen e à luso-descendente Helena. Tantos e tão bons!...
Voltando ao que interessa, ‘Motifs’ segue a linha saltitante dos seus antecessores – do swing aos temperos latinos, do blues muito próprio de Django Reinhardt ao mambo e à java, tudo cabe para construir canções que, com pormenores de verdadeiro requinte e com a deliciosa (e provocante) voz de Belle du Berry, também responsável por todos os textos, constroem discos verdadeiramente felizes. Quer os textos pendam para um intimismo que passa ao lado de depressões (mas não, não é pateta nem ‘light’), quer se dediquem a pequenos e preciosos retratos da cidade-mãe, a Paris dos bairros inconfundíveis e dos ‘caveaux’ dançantes, e de um mundo em que ainda cabem os prazeres e os descobrimentos, a base de Paris Combo não muda. Lá estão a guitarra envolvente, o trompete que parece planar, uma secção rítmica ágil e que nos põe (no mínimo…) a bater o pezinho ao terceiro ou quarto compasso, muitas vezes a ‘cereja no topo do bolo’ que é o acordeão.
Desta vez, o apuro sonoro é ainda maior, garantido pelas mãos sabedoras do engenheiro de som Oz Fritz, que desempenhou igual tarefa nos dois últimos álbuns de Tom Waits. Criam-se espaços para a ajuda de mais metais e mais cordas, que contribuem para uma riqueza sonora – e um dos grandes méritos é que não se sentem atropelamentos nem excessos, tudo aparece de forma simples, como se tivesse mesmo que estar ali. Em 14 temas (um deles um instrumental delicioso) e pouco mais de 50 minutos, não há quebras de inspiração. De resto, isso já acontecia em ‘Paris Combo’ (1997), ‘Living-Room’ (1999), ‘Attraction’ (2001) e no delirante ‘Live’ (2002). Para acaso ou coincidência, convenhamos que é tempo demasiado e que são muitas canções. Aqui, não há margem de erro: de ‘High, Low, In’ (que, apesar do título, é cantada em francês) à perfeição simples de ‘Je Ne Sais Qui Fumer’, tudo corre sobre rodas, num disco que anuncia outros calores e melhores dias, o que o leva a adquirir carácter de urgência, apesar da sua aparente leveza.
Agora que se anuncia a distribuição em Portugal de ‘Hang On Little Tomato’, o segundo álbum dos norte-americanos Pink Martini (já aqui reclamada há algumas semanas), confirma-se, na trincheira francesa, concorrência à altura… Afinal, um par de excelentes alternativas à monotonia que predomina no ‘top’ português. Por outras palavras: por serem franceses, latinos, excelentes músicos, criativos de primeira água, merecem que se faça a festa. Pode ser já hoje, s.f.f.?
TOCA A TODOS
Há duas décadas que sabemos que ANABELA DUARTE é uma ‘coisa que fascina’, pela voz, pela vontade de explorar sempre, pelo efeito magnético das criações, com os Mler Ife Dada e depois deles. ‘Blank Melodies’, com o Digital Quartet, estende – sem pressas, sem um efeito de exagero, sem um dedo de arrogância – uma dúzia de canções que a mantêm em estado de graça. Pode evocar Bjork ou relembrar Laurie Anderson, mas é uma aventura portuguesa que se aplaude sem reservas: menos por mínimos dá mais.
A cidade é mágica por múltiplas razões, a música é uma das mais sólidas - lá, não se estranha senão o silêncio. Viaja-se por diversos mas autênticos ambientes de jazz, blues e swing. ‘New Orleans’ é uma fantástica compilação do catálogo Putumayo, capaz de evocar cheiros e cores, o pulsar de um clima que não se confunde. De LOUIS ARMSTRONG a Dr. John, passando por bandas, cantores e instrumentistas de culto local, eis um disco que vale como iniciação. Atenção: vicia ao primeiro contacto.
TOCA E FOGE
Não há cá mas devia, parte um: depois da sua fase mais exposta, como vocalista e alma dos Lone Justice, MARIA McKEE tem seguido um percurso imaculado, preenchido com quatro álbuns de estúdio em que as raízes americanas, de diferentes texturas e intensidades, dão balanço à sua voz celeste. ‘Live In Hamburg’ é a primeira oportunidade de a ouvir em concerto: intensa, faladora, com mais alma do que polimento. Percorre o património de ‘Maria McKee’, ‘Life Is Sweet’ e ‘High Dive’. Genuíno e forte.
Não há cá mas devia, parte dois: apesar de já levar seis anos, gravado em 1999, o álbum que reúne EMMYLOU HARRIS e Linda Ronstadt, ‘Western Wall – The Tucson Sessions’ é mesmo para a eternidade. Produção: Glyn Johns. Convidados: Neil Young, Paul Kennerley, Bernie Leadon e Kate & Anna McGarrigle. Canções de: Cohen, Springsteen, Jackson Browne, Rosanne Cash e Sinéad O’Connor. E duas vozes que se encaixam e completam na perfeição, puxando uma pela outra e encantando, simplesmente. De colecção.
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