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Cultura
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Samantha Shannon: “Não esperem o Harry Potter”

Samantha Shannon tem apenas 22 anos e chamam-lhe “a próxima J. K. Rowling” por ser autora de uma saga de fantasia. O primeiro de sete livros é ‘A Estação dos Ossos’.

21 de Novembro de 2013 às 14:00
Samantha Shannon: "Oferecer uma história ao Mundo e ver os leitores a responder de forma positiva – até a apontarem ‘A Estação dos Ossos’ como o seu livro favorito – é uma experiência verdadeiramente mágica"
Samantha Shannon: 'Oferecer uma história ao Mundo e ver os leitores a responder de forma positiva – até a apontarem ‘A Estação dos Ossos’ como o seu livro favorito – é uma experiência verdadeiramente mágica' FOTO: D.R.

Correio da Manhã – Ser considerada “a próxima J. K. Rowling” é sobretudo uma bênção, um fardo, ou parvoíce pura?

Samantha Shannon – É uma mistura das três. A comparação nasceu da semelhança entre os nossos contratos: sete livros de fantasia para a Bloomsbury. Mas não quero que peguem em ‘A Estação dos Ossos’ (Casa das Letras) à espera de ‘Harry Potter’. São livros muito diferentes, para públicos diferentes e escritos em estilos diferentes. Dizer que existe uma “próxima J. K. Rowling” implicaria que a original estaria ultrapassada, o que é completamente falso. É uma das minhas autoras favoritas e teve enorme impacto na minha infância, pelo que a comparação traz-me desconforto.

– Antes de ‘Harry Potter’, Rowling dava aulas em Portugal e chegou a ser casada com um português. Também tem alguma ligação ao nosso país?

– Não, infelizmente. O mais próximo foi ter estudado espanhol durante oito anos. Adoraria visitar Portugal e conto utilizar cenários europeus e mundiais nos últimos livros da saga. Portanto, nunca se sabe... pode ser que Portugal apareça na história de Paige.

– Que idade tinha quando se tornou claro que a escrita seria uma parte importante da sua vida?

– Tinha cerca de 13 anos quando percebi que adorava escrever. Tenho-o feito desde então. Comecei ‘Aurora’, o meu primeiro romance, quando tinha 15.

– Todas as editoras recusaram publicá-lo. Foi um golpe duro?

– Na altura foi, mas ainda bem que foi rejeitado, pois não é um livro particularmente bom. Por outro lado, deu-me a disciplina necessária para escrever um romance e a experiência de contactar agentes literários. E ensinou-me a não desistir ao primeiro sinal de derrota.

– Do que aprendeu dessa experiência negativa, o que pôs em prática em ‘A Estação dos Ossos’?

– Aprendi a não deixar que a escrita fosse uma obrigação, como aconteceu com ‘Aurora’. Se nos divertimos a escrever um livro, é mais provável que os leitores também se divirtam e sintam a paixão e o entusiasmo nas nossas palavras. Também aprendi que, além de escrever, devia dormir de vez em quando.



– Recorda-se do instante preciso em que a clarividente Paige Mahoney surgiu na sua mente?

– Foi quando estava a estagiar em Londres, em julho de 2011. A ideia do universo do livro veio da zona em que trabalhava: Seven Dials, em Covent Garden. Quando tentei escrever na primeira pessoa – algo que nunca tinha feito seriamente –, a voz de Paige apareceu-me. E era o tipo de voz que exigia ser escrita. A personagem formou-se em torno da voz e dessa atitude.

– Uma jovem que depende das suas capacidades para triunfar num mundo perigoso pode ser visto como uma metáfora de si próprio no mundo da edição livreira?

– Ha! Ha! Garanto que não vi assim, mas pode ser uma metáfora para qualquer jovem que enfrenta algo novo e desafiante.

– Tem contrato para três livros, mas a saga terá um total de sete. Já sabe como irá terminar?

– Sei.

– Teme que os anos que irá passar a escrever os sete livros sejam uma prisão para a sua criatividade?

– Nem por sombras. Nem todos os romancistas principiantes recebem tal oportunidade, pelo que me sinto muito feliz. É maravilhoso poder desenvolver personagens durante tanto tempo, e explorar um universo vasto. É claro que tenho ideias para outras histórias, mas estou satisfeita por escrever esta saga. Escrever com a voz de Paige é muito divertido.

– Os direitos cinematográficos de ‘A Estação dos Ossos’ já foram comprados pela 20th Century Fox. Tem ideias (ou, pelo menos, sugestões) para o casting das personagens principais?

– Não tenho a certeza quanto à Paige e a Warden, as duas personagens principais – na minha cabeça têm um aspecto muito específico e é difícil encontrar correspondência com atores e atrizes reais. Mas adoraria ver Benedict Cumberbatch a interpretar Jaxon Hall, o patrão da Paige. Penso que ele seria perfeito nesse papel.

– A adaptação ao cinema será fulcral para conferir a Paige Mahoney um estatuto semelhante ao de Harry Potter?

– Duvido que alguma personagem moderna venha a ser tão famosa quanto ‘O Menino que Sobreviveu’, mas espero que o filme ‘A Estação dos Ossos’ ajude a atrair novos públicos para a história, tal como apresentar um novo meio àqueles que já são fãs. Espero ajudar a 20th Century Fox, a Chernin Entertainment e a Imaginarium a criar a melhor adaptação possível.

– Sente alguma inconveniência em ser uma escritora de 22 anos com um contrato no valor de seis algarismos?

– Tenho consciência, enquanto jovem escritora, de que tenho muito a aprender, e fico sempre grata quando autores mais experientes me dão conselhos. Valorizo particularmente aquele que recebi de Neil Gaiman: ‘Diverte-te.’ Podemos afogar-nos em trabalho, mas por vezes há que recuar e apreciar o que está a acontecer. Oferecer uma história ao Mundo e ver os leitores a responder de forma positiva – até a apontarem ‘A Estação dos Ossos’ como o seu livro favorito – é uma experiência verdadeiramente mágica.

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