Não é isso a pop, ter a capacidade de descomplicar e ir direito aos instintos e aos impulsos de quem ouve?
Por estes dias, voltei a ouvir ‘Melancholic Ballad’ na rádio. Tive vontade de telefonar a pedir um ‘refresh’ na ‘play list’ – é que já aí está ‘Catharsis’, segundo disco dos Fingertips. Tem onze canções e vale como um enorme alívio para os que viram no álbum de estreia (‘All ‘Bout Smoke n’ Mirrors’, de 2003) algo de estimulante e, mais, um enorme potencial de crescimento. Que, para abreviar, é integralmente cumprido agora. Ao ponto de maiores expectativas se voltarem a abrir para o futuro…
Vamos ao presente. Posso imaginar a pressão sobre os Fingertips e sobre os que generosamente os rodeiam – era preciso confirmar a revelação. Os músicos que entraram ‘a meio da viagem’ do primeiro disco são agora de pleno direito e valores acrescentados. Percebe-se a inflexão orgânica em troca com programações e electrónicas. T
alvez não se adivinhasse era este carrossel de arranjos, alguns tão ricos e simples que comovem, esta colheita de melodias e ritmos onde uns pesquisarão influências – os que não perdem tempo vão preferir elogiar um produto bem tocado e bem cantado.
Não é isso a pop, ter a capacidade de descomplicar e ir direito aos instintos e aos impulsos de quem ouve?
De ‘Outsider N.º 12’, a frenética abertura, pontuada pela batida, pelos devaneios curtos mas eficazes das guitarras, pela voz de alma, a ‘Before and After Us’, a despedida perfeita, capaz da serenidade e da inquietação sem mudar o rosto do tema, não há tempos mortos.
Há, sim, um exercício de justiça distributiva que corresponde aos estados de espírito da banda. Por exemplo, ‘You’re Gone (Everybody Knows That)’ volta a elevar bem alto os Fingertips no ‘ranking’ das baladas, sem problemas, cruzando a dolência do baixo com o lirismo do piano, deixando outra vez guitarra e voz em conversa particular.
Belíssima. ‘’Cause To Love You’, single, é um ‘mid tempo’ orelhudo e contagiante, com um refrão rendilhado, que se canta à segunda audição. ‘But… I Can’ foi testada ao vivo e descobre a sua forma (quase) definitiva – tão elegante como seca. Para os apreciadores da sensualidade, a receita certa é ‘18th March’, às vezes balada, outras nem tanto – inteligente, a manutenção da dúvida.
Entre as minhas favoritas mora ‘Move Faster’, em que se descobre uma fantástica síntese dos anos 80 – é a voz que sustenta a bateria, é o ‘riff’ da guitarra que abre espaço a um refrão empolgante, é o baixo que provoca o regresso à Terra.
Dança-se com prazer e, insisto, está a pedir remistura. A seguir, percebe-se como os Fingertips não se renegam: se há ponte do primeiro disco para este, ela estende-se em ‘Something Has Broken’. Outro ‘mid tempo’, com força e jeito. ‘Same Old World’ segue o mesmo trilho, com outro refrão que nunca mais nos deixa. ‘Times Of Sweet Delusions’ há-de satisfazer os amantes do falsete e dos solos, trunfos desde que (e é o caso) não se abuse. Falta ‘Stop To See’: o reverso da medalha, a contenção, a simplicidade como molde.
A eficácia é absoluta. E, julgo, poucas vezes celebraremos este ano um disco português tão cheio e convincente. Vicia? Esperemos que sim. Chama-se ‘Catharsis’ e até o título está certo. Quanto aos Fingertips, vá pelos seus dedos. Vai chegar lá – oxalá.
Se havia alguém a precisar de recuperar a fúria e a energia que dela fizeram um ícone rock, esse alguém era SKIN, depois do abrandamento de ‘Flesh-wounds’. Tudo volta à melhor forma em ‘Fake Chemical State’, poderoso, raivoso e contagioso. Atenção a ‘Alone In My Room’ e ‘Just The Sun’ – dão choque!
Para recomeço de conversa, CYNDI LAUPER ensaia um disco de reencontros e releituras: em ‘The Body Acoustic’, voltamos a dar de caras com ‘Time After Time’, ‘True Colors’, ‘She Bop’, ‘Girls Just Wanna Have Fun’. Tudo em versões contidas e com ajudas – Sarah McLahclan e Ani di Franco são as maiores.
A maioria dos que conhece a francesa EMILIE SIMON deve-o à banda sonora de ‘A Marcha dos Pinguins’. Outros, com mais sorte, não perderam o seu cristalino álbum de estreia – e homónimo. Agora, é tempo de seguir em frente, com um ‘Vegetal’ absolutamente estonteante, entre a vanguarda e o ‘lullaby’, com as devidas vénias a Kate Bush, Tori Amos e Laurie Anderson, sem perda de personalidade própria. São 13 canções, em francês ou em inglês, mas uma só voz, rente ao sussurro, que teima em acertar no alvo. Encantatório.
Será erro meu, mas nunca descobri em BARRY MANILOW, o de ‘Copacabana’ e quejandos, mais do que um sofrível animador de casino. Por isso, não espanta o desastre de ‘The Greatest Songs Of The Fifties’, com muitas pérolas (‘Young At Heart’, ‘Beyond The Sea’… e nenhum polimento. Volta, bom Rod Stewart!
Era preciso mais do que Lucinda Williams e do que uma ressurreição de DOLLY PARTON para salvar a banda sonora de ‘Transamerica’. A partitura de David Mansfield (em tempos parceiro de Bruce Hornsby) é sensaborona, há canções (Duncan Sheik, Larry Sparks) que não chegam à mediania. Ficamos pelo filme.
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