Darko (Zé Manel) lança novo disco 'Overexpression'
Levou cinco anos para lançar um novo disco de Darko. Porquê?
O que pode parecer para as pessoas um compasso de espera, na verdade não foi. Há todo um trabalho que não é visível para o público que leva tempo, seja na composição ou na produção. Estes anos deram-me tempo para maturar bastante as ideias deste disco. De repente, tinha 30 músicas feitas. Estes têm sido cinco anos de grande aprendizagem e realização pessoal porque, de facto, eu reconciliei-me com a minha atividade desde que abandonei os Fingertips. Tornei a apaixonar-me pelo que faço. Não quereria ter outra profissão. Hoje sou uma pessoa mais consciente para aquilo que implica viver a música como profissão e para os obstáculos que temos diariamente.
Está consolidado o nome Darko ou ainda há muita gente que o associa ao Zé Manel?
Claro que nós, enquanto músicos, nos debatemos com dúvidas todos os dias e uma pergunta que eu me faço muito é se escolhi bem o nome Darko. Será que me deveria ter lançado a solo com o meu nome? Mas eu chamo-me José Manuel Correia Ferreira Bicho (assim quiseram os meus pais) e esse não me parece um nome muito artístico (risos). Escolhi Darko como podia ter escolhido qualquer outro dos 19 que cheguei a ter numa lista. O que eu acho é que, depois das músicas entrarem no coração e na vida das pessoas, o nome de quem as canta passa a ser completamente secundário.
E sente que as suas músicas já entraram na vida dos outros?
Sinto. Esse é o meu principal alento e motivação. Eu consigo manter um elo de comunicação com as pessoas que não conseguiria se não fosse pela música. Há tempos recebi uma mensagem de uma grávida de trigémeos a dizer que a primeira vez que sentiu os bebés a mexerem-se foi ao som do ‘Não Me Digas’. Isso emocionou-me muito e são estas histórias que me mostram que sim, que esta é a melhor forma de exorcizar algumas situações feias que vivi na minha vida.
Quem ouve as suas canções fica sempre com a sensação de que há muito sofrimento à mistura!
Eu já me consciencializei de que vou ter de continuar a conservar uma boa dose de masoquismo para fazer a minha arte (risos). Um dia destes diziam-me que eu era um bocadinho Adele. E se calhar sou.
Mas essa é uma perspetiva quase angustiante da profissão.
Pois é. Eu sou uma pessoa muito pragmática no meu dia a dia e não dou muito lugar a tristezas. Não sou a típica pessoa que tem um desgosto ou que acaba uma relação e vai para o café contar aos amigos, pelo contrário. Eu sou um falso extrovertido. Em relação a algumas coisas sou bastante tímido e reservado. Gosto pouco de expor a minha fragilidade no dia a dia e, portanto, guardo isso para a música que é o meu diário e o meu caderno. Não me importo de saturar a minha música com a minha tristeza, revolta e insegurança.
O ‘Não Me Digas’ é uma dessas canções de dor de alma!
Sim. É um tema sobre o final da relação que mais me marcou em toda a minha vida, que mais me deixou sem chão, que me levou acreditar que eu era uma pessoa que não valia a pena.
Ou seja, o Zé Manel resolve-se com a vida através da música!
Sim. Eu nunca quis ser um traumatizado ou uma vítima. Eu quero ver- -me como uma pessoa que tem a inteligência necessária para pegar nas situações e nos momentos menos felizes da vida e transformá-los em algo mais positivo. E nada melhor do que a música.
E isola-se para compor?
Sim. Eu sou daquelas pessoas que anda sempre com o iPhone atrás e que a qualquer momento pode registar uma ideia. Às vezes as pessoas devem achar que eu sou maluco porque vou no meio da rua a trautear coisas para o telemóvel (risos).
Mas o Zé Manel deve ter momentos felizes como toda a gente. Como é que os encara?
Nos momentos felizes estou ocupado a ser feliz (risos). Mas essas são alturas muito contraproducentes e até fúteis porque nós adaptamo-nos facilmente ao conforto e à felicidade. As alturas tristes da nossa vida são altamente didáticas porque nos desafiam. Nessa altura tranco-me no quarto, choro o que tenho a chorar e escrevo coisas do fim do Mundo. Mas depois também sou capaz de ligar aos meus amigos a dizer: ‘Pessoal escrevi uma música nova, querem vir jantar cá a casa para vos mostrar?’. E nesse momento eu já falo dessa situação com entusiasmo.
O Zé Manel tem sido um homem de causas. Em tempos gravou os ‘Olhos no chão’, um tema sobre bullying, que foi algo que sofreu na pele. Como foi esse período?
Eu escrevi essa canção com 17 anos e escrevia-a numa altura em que me sentia com o olhos no chão sem perceber muito bem porquê. Não percebia porque é que os adolescentes tinham aquela tendência para procurar o que os distingue uns dos outros. Na altura eu escrevi essa música porque me sentia esse pontinho pequenino. Tinha 16/17 anos e sentia-me um peixe fora de água. Não tinha amigos na escola e não percebia porquê. E é engraçado porque eu só decidi lançar essa música quando achei que tinha a força necessária para o fazer. Quando lancei essa canção já não estava na posição de quem está com os olhos no chão, mas de alguém que os levantou e que percebeu que em algum momento já todos se sentiram assim. Às vezes até os bullies que tanto gozam com os outros também se sentem com os olhos no chão e inseguros.
E as pessoas mais perto de si sabiam o que se passava?
Não. Mesmo em casa, eu guardava essas coisas para mim. Mas também nunca quis ser o coitadinho. Na verdade fui um privilegiado porque tive a educação e a estrutura necessárias para ultrapassar os momentos menos bons. A maior estalada de luva branca que consegui dar àquelas pessoas que me fizeram mal foi perdoá-las e tentar ensiná-las a serem diferentes. Essa foi a maior vitória.
Este disco tem um tema chamado ‘Fomos Somos’, sobre crianças desaparecidas. Porquê?
Eu integro o projeto da Associação Portuguesa de Crianças Desaparecidas desde o início. Se nós podermos pegar na arte para intervir socialmente, tanto melhor. É nossa obrigação e acho que devemos ficar gratos e orgulhosos por essa oportunidade. Já nos Fingertips tínhamos estado associados à Acreditar ou às Barrigas de Amor para incentivar a natalidade. Recordo-me que em 2007 no final de um concerto na Figueira da Foz tivemos a oportunidade de conhecer os pais do Rui Pedro. A senhora não saía de casa à noite há nove anos e saiu naquele dia para me ver cantar. Foi aterrador conhecê-la e perceber que perdeu a alma no dia em que o filho desapareceu. Abraçou-me e disse-me que o filho teria a minha idade. Depois conheceu a minha irmã que é advogada e presidente da associação. E esta foi uma causa que acabei por abraçar como a minha causa principal.
O Zé Manel fala muito da sua mãe e da sua irmã, está sempre muito bem acompanhado nos seus telediscos e volta a aparecer com convidadas de peso neste álbum, entre elas Mafalda Arnauth. Que importância tem o elemento feminino na sua música?
O elemento mais presente na minha vida, de força e de exemplo, sempre foi a minha mãe. E por isso é perfeitamente natural que as mulheres tenham uma importância muito forte na minha vida. A minha referência feminina é quase endeusada. Eu aprecio muito a beleza e a sensibilidade de uma mulher. A maior parte das minhas inspirações são artistas femininas, da PJ Harvey à Christina Aguilera. E depois eu sou fã das mulheres que cantam comigo, sou fã da força feminina e do que implica ser uma mulher.
Nunca pensou em internacionalizar o projeto Darko?
Eu sinto que nasci para a minha profissão. Quando subo a um palco tudo em mim grita: ‘É aqui que deves estar’. Mas depois há um lado mais pessoal que me questiona se a minha personalidade é indicada para viver nesta profissão, no sentido em que sou uma pessoa cheia de medos.
Que tipo de medos?
Eu sou uma pessoa de raízes, tenho medo de mudanças. Não sou pessoa de me deixar ir, de aventura. Acho que tenho capacidade para cantar em palcos internacionais, mas lembro-me de um dia ver um DVD do Robbie Williams em que ele dizia, com um ar desgastado, que já não via a mãe há seis meses. E eu não sei se seria feliz assim. É possível que este nem tinha sido o país certo para escolher a minha profissão, mas é o meu e eu não sei se consigo abdicar de parte de mim para crescer profissionalmente.
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