O jornalista Tiago Carrasco, o operador de câmara João Fontes e o fotografo João Henriques viajaram por zonas de conflito em África e no Médio Oriente. O resultado é o documentário, que estreia no dia 13, para além de um projeto multiplataforma.
O que leva um jornalista, um operador de câmara e um fotógrafo a deixarem a sua zona de conforto e percorrerem os cenários de conflito do Médio Oriente e Magrebe?
Tiago Carrasco - Em 2011, aquando dos primeiros protestos na Tunísia e no Egito, sentimo-nos frustrados por não acompanharmos no terreno, enquanto jornalistas, um momento histórico tão importante. Enquanto ‘freelancers’, ninguém nos chama para cobrir acontecimentos deste género e, além disso, sentimos sempre que as notícias diárias são transmitidas distantes da realidade das ruas. Portanto, decidimos juntar-nos novamente, como em África, em 2010, para conceber um projeto que nos levasse a passar por todos os países abalados pela Primavera Árabe.
Quando partiram tinham alguma ideia do formato que iriam desenvolver?
Sim. Já no projeto anterior, ‘Até lá Abaixo’, de 2010, partimos com a certeza de querer produzir reportagens para imprensa e um documentário. Como essa viagem também deu livro, partimos para a ‘Estrada da Revolução’ decididos a alimentar um site multimédia, um documentário, reportagens para imprensa e um livro. Sabíamos o que queríamos, não sabíamos se o conseguiríamos fazer, até porque quando se parte para uma aventura destas não é linear que haja um regresso. Felizmente, atingimos todos os nossos objetivos.
A ideia do formato multiplataforma estava previamente definida?
Nós nunca temos dinheiro para financiar os nossos projetos. Por isso, temos de reunir todos os apoios possíveis para partirmos com um valor mínimo que nos permita sonhar em completar o périplo. O que temos para oferecer? O nosso trabalho. E se o primeiro escreve, o segundo filma e o terceiro fotografa, conseguimos açambarcar as principais componentes multimédia e, desta forma, ir buscar financiamento, não só a jornais como a produtoras, editoras ou estações de televisão. Foi assim que nasceu o formato multiplataforma - pela necessidade. Como aprendemos nas nossas viagens, a necessidade é a mãe de todas as invenções.
No filme vemos imagens de campos de refugiados, situações de pânico em pós conflito e pessoas que deambulam sem futuro. Como foi penetrar com o vosso olhar (e a câmara) nesta realidade? Foram bem recebidos?
Os árabes são o povo mais acolhedor do Mundo. Isso revela-se na forma como abrem as portas de casa para oferecer um chá de boas-vindas ou, em casos mais extremos, na forma como dão o corpo às balas para defender os jornalistas ocidentais. Em 90% dos casos, fomos extremamente bem recebidos. Na Síria, chegaram a comprar-nos calças, meias e roupa interior porque chegámos ao país enlameados depois de passarmos a fronteira escondidos, através de um pântano. Raras foram as situações em que fomos recebidos de uma forma hostil. Mas aconteceram...
É verdade que viveram situações de perigo?
Atravessar a fronteira da Turquia para a Síria, sem sermos vistos pelos homens de Assad e pela polícia turca, foi medonho. Na Praça Tahrir, um tipo cortou-nos o cabo do microfone e ameaçou fazer o mesmo às nossas gargantas se ousássemos reaparecer ali. Também no Egito, fomos obrigados a fugir de salafitas furiosos até ao hotel. Na Líbia, adormecíamos a escutar os tiros de rebeldes embriagados, à solta pelas ruas de Bengazi armados até aos dentes. Na Síria, vimos inocentes serem massacrados. Cheirámos a morte, que não é coisa boa de experimentar.
Quais as situações que mais vos impressionaram?
Creio que não iremos esquecer o choro de 20 crianças sírias que sobreviveram a um ataque propositado do regime enquanto apanhavam batatas para o jantar. Duas delas morreram. Os feridos estavam a ser tratados numa arrecadação, sem medicamentos nem suporte básico de vida. Não vou esquecer as baterias antiaéreas estacionadas em garagens na Líbia. Impressionou-me perceber o significado de ser ‘shahid’ (mártir) e quão honroso é para um árabe morrer por uma causa nobre como a revolução. Não segurámos as lágrimas numa entrevista a uma mãe de um rapaz morto durante a guerra civil na Líbia. Impressionou-me ver o povo tão ciente do seu poder. Ver a utopia brotar da catástrofe.
Imagino que um jornalista, um operador de câmara e um fotógrafo tenham vivido esta experiência de uma forma diversa…
Somos amigos há muitos anos e isso ajuda-nos a viver as coisas da forma mais conjunta possível. Por vezes tenho a necessidade de isolar-me para escrever ou para absorver detalhes e emoções que possam enriquecer os meus textos. O mesmo acontece com o trabalho fotográfico do Johnny ou com a captação vídeo do Fontes. mas tentamos andar sempre juntos. A experiência ensinou-nos que cada um de nós tem diferentes taras, fobias, hábitos e gostos. O Johnny não gosta muito de bichos tropicais mas é o melhor em ambientes urbanos, o João não domina bem línguas estrangeiras mas é o melhor a comunicar por gestos, eu sou impaciente no trabalho, mas calmo nas decisões. Tentámos que as valências conjuntas neutralizassem as fraquezas de cada um.
De que forma esta "viagem ao coração da Primavera Árabe" vos mudou?
Mudamos sempre muito, mesmo que essas alterações não sejam percetíveis por nós próprios. Ganha-se conhecimento e quebram-se dogmas; não aceito que digam à minha frente que os africanos são preguiçosos e que os muçulmanos são radicais. Não é verdade e reflete uma ignorância preguiçosa e radical. Ganha-se uma tendência a não dramatizar e a constatar que os mesmos problemas que outrora nos derrubavam são hoje apenas percalços. Aprendemos também que a força popular ainda consegue vergar tiranos e que a busca pela dignidade, por um emprego e pela esperança é a maior das revoluções.
O filme estreia já no dia 13 de Fevereiro. Quando chegará a versão televisiva?
O filme estreia no cinema a 13 de Fevereiro. Contudo, não sabemos quando será a estreia em televisão. A distribuição está nas mãos da beActive.
Porquê a opção de escolher o Ivo Canelas para narrar esta aventura?
O Ivo tem uma voz excelente e é um ator que se interessa pela informação e pelo real. Além disso, tem a notoriedade que nós não temos, o que ajuda à promoção do documentário. Estamos satisfeitos com a escolha.
Como foi elaborado o vosso trabalho com a realização da Dânia?
O livro ‘A Estrada da Revolução’ foi escrito por mim numa perspetiva muito pessoal. É um livro na primeira pessoa que conta a nossa história, com a história dos outros a orbitar à nossa volta. O documentário tinha de ser diferente. A realização da Dânia oferece esse distanciamento, que permite que as figuras principais sejam os árabes e não nós próprios. A Dânia recebeu todo o material e, com a informação que lhe passámos, contou a sua história. O que demorou mais foi a tradução: foram mais de seis meses a traduzir quase 100 entrevistas e muitos diálogos.
Sei que preparam na Índia um projeto novo. O que é possível saber nesta altura?
É um projeto diferente dos outros. Não há blogue, nem livro, é apenas um documentário para ser exibido em cinema e televisão. Vamos estar um mês a viver com um grupo de adolescentes indianas que foram vítimas de abusos sexuais e que formaram uma brigada para lutar contra os violadores.
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