Imagine-se uma vida de isolamento, sem palavras, sem ruído, entrecortado apenas pelo único dia de convívio – o domingo. É assim a rotina dos monges da Ordem dos Cartuxos, no Convento da Grande Chartreuse, em França, agora objecto do documentário ‘O Grande Silêncio’, que ganhou o Prémio Europeu de Cinema para Melhor Documentário.
Em 1984, Philip Gröning solicitou autorização aos monges da Chartreuse para filmar o seu modo de vida. Disseram-lhe que era cedo, que não estavam preparados para abrir as portas ao Mundo. Dezasseis anos depois, Gröning recebeu um telefonema: ‘Pode vir’. ‘O Grande Silêncio’ é o resultado de seis meses de filmagens, que passeiam entre o vazio do Inverno e o sol da Primavera, num mosteiro isolado dos Alpes franceses.
“A maior experiência que um espectador pode ter ao ver um filme é sentir o tempo”, avisa o realizador, justificando as mais de duas horas e meia de filmagens. “Num filme sobre o silêncio [mudo], esta experiência é trazida à tona.”
Lá fora, só o tempo (meteorológico) muda. Entre portas, os dias passam-se iguais com os monges enclausurados nas celas (quartos), a rezar. Não há férias nem tempo livre. Os sonos são encurtados pelas rezas, as missas são diárias, de manhã e à noite. Alguns dias por semana são de jejum, todos são de absoluto silêncio. À excepção do domingo.
“Acho que o filme falha por ser demasiado descritivo”, disse ao CM Frei Bento Domingues que, a convite da distribuidora Atalanta, visionou o documentário antes da estreia, que acontecerá no próximo dia 8.
“Mas como objecto de reportagem é interessantíssimo, sobretudo para quem não conhece este modo de vida”, admitiu o padre que, apesar de nunca ter ido à Cartuxa de Évora – o único mosteiro da Ordem em Portugal –, sempre leu bastante sobre o assunto.
Já desde 1953 que Frei Bento Domingues vive em conventos. Actualmente habita no Alto dos Moinhos, no Convento S. Domingos (Lisboa), mas já passou por outros em Espanha, França, Alemanha e Itália. Conhece a vida contemplativa, mas, por pertencer à Ordem dos Dominicanos, não vive enclausurado.
UMA VIDA DE SONHO
E imaginaria uma vida assim? “Claro! Sonho viver assim”, sublinhou o padre ao CM, justificando: “Numa ordem de pregadores, não somos monásticos, mas conventuais. E temos de dar aos outros o que contemplamos, através da pregação.”
Justificações à parte, ‘O Grande Silêncio’ não explica a opção dos Cartuxos – senão num breve depoimento de um monge, no final – e mais não faz do que mostrar o seu modo de vida. Austero, ausente de bens, de entrega total a Deus. “Um silêncio dentro do próprio silêncio” que Frei Bento Domingues considera que ficou aquém da “poesia mística” e “da essência”.
Longe ou perto, o documentário de Gröning tem suscitado a maior curiosidade em França – de onde é originária a Ordem –, Espanha e Itália, com várias sessões esgotadas. Por cá, ver-se-á a reacção do público português já a partir de quinta-feira...
ORIGEM
Nas montanhas dos Alpes de Grenoble, França, São Bruno fundou, em 1084, a Grande Cartuxa, único mosteiro da Ordem durante 30 anos. Em Portugal, a Cartuxa de Santa Maria Scala Coeli foi construída em Évora, entre 1587 e 1598, pelo Arcebispo D. Teotónio, da Casa de Bragança.
FILMAGENS
‘O Grande Silêncio’ é o primeiro filme rodado na Chartreuse e, originalmente, Philip Gröning queria fazer uma película sobre o tempo. Pediu autorização aos monges Cartuxos para realizar o documentário em 1984, mas só em 2000 o conseguiu. O filme oscila entre imagens granuladas e nítidas, num efeito estético muito bem conseguido.
ROTINA
Os monges não dormem uma noite completa. Depois de três horas de sono acordam para rezar durante duas ou três e voltam a dormir mais três horas. Diariamente, há uma missa matinal e outra à noite. Nas celas, isolados, os Cartuxos fazem sete orações por dia.
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