Após ter liderado a campanha eleitoral de Luís Filipe Vieira, Cunha Vaz mereceu a confiança do presidente para ocupar o cargo de Director de Comunicação do Benfica. Uma nomeação que logo gerou polémica entre Vieira e o vice-presidente Fonseca Santos, mas que promete revolucionar o sector. Para já, entrevistas aos jogadores de Benfica só na presença do novo director ou de uma pessoa a indicar por ele. Camacho é um caso à parte.
Correio da Manhã – Acusado de ser sportinguista, provocou uma crise no Benfica. Estava à espera de sair como o grande vencedor?
António Cunha Vaz – Acho que não houve propriamente uma crise, como também acho que não faz qualquer sentido aproveitarem-se do facto de eu poder ter uma simpatia pelo Sporting para alegarem que não posso ser director de comunicação do clube. Um clube da dimensão do Benfica não treme com a saída de um qualquer director de comunicação e com a entrada de um outro.
– Qual é o seu grau de sportinguismo para estar na base dessa crise...
– Nunca fui sócio do Sporting e creio mesmo que nunca ninguém me conheceu em Alvalade. Mas se o fosse não teria vergonha de o assumir.
– O apetite pelo cargo que ocupa tem a ver com o poder que ele dá?
– Com a carga emotiva que a Comunicação Social gera numa entidade como o Benfica e com o impacto que isso provoca, o lugar de director de comunicação é de extrema relevância. Por isso, a escolha do nome deve ser do presidente. E é nosso dever alertá-lo para as vantagens e desvantagens de determinadas posturas e ou tomadas de posição. Por isso, porque podemos aconselhar o presidente, é que é um cargo ambicionado. Por outro lado, um mau director de comunicação pode destruir a imagem de uma instituição e a das pessoas que a gerem, o que é entendido por alguns também como uma fonte de poder.
– Era um cargo desejado por outros... Leonor Pinhão?...
– Na lista de pessoal contratado do Benfica não encontrei o nome de Leonor Pinhão. Não fui eu quem sugeriu o afastamento dela e estranhei ver na Imprensa uma suposta carta de demissão. Não me parece que a divulgação de situações internas na praça pública ajude o clube. Por questões de confiança, o presidente do Benfica entendeu entregar-me – ou a quem eu recomendasse – o cargo.
– A polémica à volta do seu nome foi pública 24 horas depois do Benfica-Sporting. Coincidência?...
– Claro que não há coincidências. Nem ninguém é ingénuo. A memória de algumas pessoas é curta e até parece que há sportinguistas que incomodam mais do que outros. Não vi essas pessoas criticarem o facto de Vale e Azevedo ter trabalhado com vários sportinguistas.
– Foi Fonseca Santos quem se opôs ao seu nome. Como vai ser a sua relação com ele?
– Estamos a falar de um vice-presidente do Benfica e de um mero candidato ao cargo de director de comunicação. Se tivesse havido da parte dele qualquer oposição firme ao meu nome, os restantes vice-presidentes tê-lo-iam apoiado e não a mim. Pode ter referido que sou sportinguista numa reunião de amigos ou algo semelhante. Já tivemos uma conversa e tudo ficou esclarecido.
– O mal-estar já vinha da campanha eleitoral?
– É natural que quem estava na casa tenha sentido que poderia desempenhar o meu lugar. Mas na campanha nunca senti hostilidade. Depois, a única pessoa que me hostilizou foi a Leonor Pinhão.
– João Malheiro vai continuar no clube?
– O João Malheiro deu ao Benfica muito de si. A determinada altura, e não sabia porquê, reparei que tinha desaparecido. Percebi, agora, que se criou uma confusão de funções. Eu conto com ele. Não nas funções de porta-voz, mas em diversas áreas ligadas ao departamento de comunicação.
– Não vai ser o porta-voz?...
– Nesta primeira fase serei eu o porta-voz. Mas não excluo a hipótese de formar alguém para que possa, num futuro mais ou menos próximo, entregar esse papel.
– O que vai acontecer ao ‘site’?
– Vai ficar sob a minha responsabilidade directa e sofrer muitas transformações. Passará a servir os adeptos nos termos em que os ‘sites’ internacionais o fazem, será uma fonte de receita para o Benfica e vai ter uma área exclusivamente para jornalistas, capaz de desenvolver uma ligação mais eficaz entre o departamento e os media. Daremos ainda especial relevo à colaboração com as Casas.
– Está a reduzir custos. Encontrou um departamento caro?
– Encontrei uma política salarial desequilibrada. Ordenados muito altos – acima dos mil contos – e outros muito baixos – abaixo dos 70 – atribuídos sem qualquer critério de qualidade. Estou a reduzir custos em, pelo menos, 50 por cento. Quem não aceite as novas regras ou quem queria ficar milionário saiu do Benfica. Posso garantir que hoje não há ninguém com salários tão altos.
– Por quanto tempo e por que valor assinou com o Benfica?
– Por um mandato. A avença acordada entre mim e o presidente do Benfica equivale a um terço do valor que normalmente pratico. Os dois meses de campanha custaram ao candidato Luís Filipe Vieira menos do que a remuneração mensal de alguns colaboradores do departamento.
– Em que estado encontrou o departamento de comunicação?
– Encontrei uma gestão desconcertada. É preciso criar uma estrutura salarial baseada em critérios de qualidade. Mais: é impensável que tendo o Benfica 120 mil sócios o jornal só tire 12 mil exemplares. Vamos aumentar a tiragem e aumentar a qualidade.
– Mal chegou ao clube, os jogadores entraram em ‘black-out’. Vai ser essa a política?
– Não sou apologista do ‘black-out’. O que se passa, neste momento, é diferente. Uma vez que a estrutura ainda não está montada, o presidente pediu aos jogadores para não falarem neste período. É transitório.
– Não vai, portanto, aconselhar ‘black-outs’?...
– Numa relação recíproca de respeito entre o clube e a comunicação social, um ‘black-out’ não faz sentido. Nem concordo que a ele se recorra só porque dá jeito em determinado momento. No entanto, poderemos tomar essa medida se surgir uma campanha orquestrada contra o Benfica.
– Relativamente aos jogadores: quando e como poderão dar entrevistas?
– O quadro de entrevistas a conceder por cada um dos profissionais do plantel será definido pelo treinador e por mim próprio. As entrevistas serão dadas na minha presença ou na de quem eu indicar.
– Já agora, impor-lhes uma imagem...
– Os aspectos comportamentais dos jogadores fazem parte dessa gestão de imagem e valorização de activos. Caberá ao departamento transmitir à Direcção aquilo que entende serem as posturas ideais dos jogadores enquanto trabalhadores do clube.
– Também vai assistir e acompanhar as entrevistas de Camacho?
– Só se ele se sentir confortável.
– A falar português?
– Julgo que ele já fala um pouco de português, mas sente-se mais confortável quando responde em castelhano. E como sabe que os portugueses são mais dotados para línguas do que os espanhóis...
– No futebol, qual vai ser a sua grande prioridade?
– Acabar com as gargantas fundas. No futebol e em todas as áreas. E para isso é necessário restringir o acesso à informação classificada ao menor número possível de responsáveis.
– A culpa deixa, então, de ser dos jornalistas?
– Não. Pelo contrário. É minha obrigação conseguir transmitir aos dirigentes que se um jornalista escreve um texto com base em informações transmitidas, ainda que indevidamente, a culpa não é dele. E como a culpa não pode morrer solteira, há que tirar ilações.
– Penalizando os infractores?
– Evidentemente. Defendo a criação de sanções claras para as pessoas que quebrem o sigilo da informação. Mais: não me escandaliza que um dirigente possa ser demitido ou remetido para funções não executivas quando tido como o comprovado autor de uma fuga de informação.
– Luís Filipe Vieira está longe de ser um ‘expert’ em comunicação. Vai ter uma protecção especial?
– Evidentemente que o acompanharei. No entanto, praticamente todos os meus clientes – e são muitos – submetem-se a cursos de ‘media-training’. O presidente do Benfica e a restante Direcção farão um curso desses.
– Quantas entrevistas vai dar o presidente?
– Luís Filipe Vieira dará as entrevistas que quiser. Mas, como seu conselheiro, defendo que o presidente do Benfica deverá dar apenas entre quatro a seis entrevistas por ano. E até defenderia um número mais reduzido não fosse o Benfica uma entidade onde a emoção conta muito. Por outro lado, há três jornais desportivos, três televisões e duas rádios nacionais. Já para não falar da imprensa generalista.
– E relativamente aos vice-presidentes?
– Os responsáveis pelos vários pelouros darão entrevistas sobre as áreas específicas que tutelam e sempre que elas estejam em causa.
"COMUNICAÇÃO DO FC PORTO TEM LAIVOS DE DITADURA"
– Que acha da comunicação do FC Porto e do Sporting?
– O FC Porto tem uma estrutura de comunicação monocéfala, em termos de teoria de comunicação tem até laivos de ditadura, própria de um clube de cidade mas impensável num clube de dimensão nacional. Acredito que no final da era Pinto da Costa isso venha a ser modificado apesar de ser uma política que, tendo em conta um país como Portugal, tem os seus méritos.
– O Sporting tem gestores profissionais em diversas áreas e a comunicação também já é considerada uma prioridade. Infelizmente para este clube, o facto de ser considerado o segundo de Lisboa e de ter perdido para o FC Porto notoriedade tem um preço elevado. Quando o 'produto' não é bom não há comunicação que lhe valha.
– O Benfica também não está bem...
– Encontrei no Benfica uma grande incapacidade de aproveitar os lados positivos da comunicação. Em Portugal só o Benfica, a PT, o BCP, a Sonae e poucos mais vencedores fazem vender jornais.
– Que relação deverá manter o Benfica com os outros clubes?
– Isso é com o presidente. Não é do meu departamento embora admita que no caso dos clubes a fronteira seja ténue.
António Cunha Vaz, 42 anos, casado e com duas filhas, entrou na área da Comunicação em 1986, como funcionário da Comissão Europeia. Em 1990 deixa Bruxelas mas manteve-se na Comissão, tendo sido adjunto de Sarsfield Cabral na delegação de Lisboa. Passou, depois, pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e foi director de comunicação do BCP. Mais tarde deixa o cargo de administrador da ONI para criar a sua própria empresa: a Cunha Vaz e Associados. Ganhou recentemente a conta da UEFA para o Euro'2004.
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