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MICRONOVELA

Herança de sangue Há heranças que não se escolhem.

TERNURA DOS 40 NO DISTRITAL DE BEJA

Já viveram as emoções da 1.ª Divisão e deixaram a sua marca no futebol português, agora, Hajry, Pitico e Mané são os reforços do Futebol Clube de S. Marcos, da 1.ª Divisão distrital. O ‘cachet’? Uns animados almoços entre amigos.

27 de novembro de 2004 às 00:00

O marroquino Hajry e os brasileiros Pitico e Mané que, durante uma década, alinharam no principal escalão do futebol nacional, são os reforços para esta época do Futebol Clube de S. Marcos, recém-promovido à 1.ª divisão distrital da Associação de Futebol de Beja. O bota de ouro Hassan está na calha.

Fundado em 28 de Julho de 1988, o FC de S. Marcos apenas pratica o futebol sénior, o que deixa Manuel Batista, presidente do clube e da Junta de Freguesia, triste: “A nossa freguesia tem apenas 330 habitantes e pouca juventude. Apenas uma escola da freguesia continua aberta, mas apenas com uma dezena de crianças, o que nos impossibilita de apostar no futebol juvenil, pois teríamos de ir buscar atletas fora da freguesia", explica este carola, que mostra algum cansaço: " São muitos a criticar, mas poucos a ajudar", queixa-se.

Nem estas 'loucas contratações' fazem Manuel Batista mostrar algum entusiasmo: " Isto não é uma aventura, mas sim conhecimentos do nosso treinador que permitiram estes reforços sem encargos. Aliás, o nosso treinador em vez de receber, ainda paga quando o clube precisa, o que tem feito desde pequenino", garante o presidente.

A estrear-se na 1.ª divisão distrital, depois de ter ganhado a 2.ª divisão distrital de Beja, o S. Marcos não sonha alto: " As nossas pretensões são mantermo-nos, durante alguns anos, neste escalão, o que está a ser difícil, pois todos os nossos adversários querem ganhar-nos pelo facto de termos tantos nomes sonantes no plantel", afirma Manuel Batista.

Contando apenas com subsídios da Câmara de Castro Verde e da Junta de Freguesia de S. Marcos da Ataboeira, o clube vive a contar os euros: " A nossa população é muito pequena e alguns nem ligam ao futebol. Notamos que os nossos jogos têm mais assistência, principalmente quando jogamos fora, pois há curiosidade em ver os nossos craques, mas isso não faz entrar dinheiro nos nossos cofres" afirma Manuel Batista.

HAJRY: REGRESSA AOS 40 ANOS

O marroquino Hajry Redouane, aos 40 anos e depois de uma carreira que, em Portugal, começou no Benfica (1987/88), terminando no Farense em 2000, volta agora a calçar as botas. Longe vão os tempos gloriosos no Farense, onde esteve uma dezena de épocas, sendo o capitão de equipa, apenas com um interregno (1989/90), quando jogou no U. da Madeira.

Quando deixou de jogar, ficou como director desportivo do Farense, foi treinador adjunto de Alberto Pazos e treinador principal durante três meses, conseguindo a manutenção na II Liga. Na época passada foi adjunto de Pitico no Imortal. Agora, está a treinar há duas semanas em S. Marcos e uma pequena 'picada' no aquecimento impediu a sua estreia no jogo com o Castrense.

"Estive em Marrocos, cheguei a acordo para treinar o Rajá de Casablanca, mas um problema com a saúde da minha filha obrigou-me a regressar a Portugal, onde estava sem emprego", explica Hajry, que também veio para o Alentejo por amizade: " A ideia é continuar a ser treinador. Em vez de fazer os jogos de veteranos, venho fazer estes jogos, com a mesma alegria que sempre pus no futebol", afirma Hajry que garante sentir-me muito feliz pela recepção que veio encontrar junto dos alentejanos.

PITICO: UM JOVEM DE 41 ANOS

O brasileiro Manoel Inácio da Silva Filho (Pitico) foi, durante meia dúzia de anos, a coqueluche do plantel do Farense, ajudando o clube a registar os seus maiores sucessos, como a final e finalíssima da Taça de Portugal (1989/90). Chegou a Portugal em 1988 com destino a Faro, onde esteve até 94, tendo depois mudado para Aveiro, jogando dois anos no Beira-Mar, sempre na 1.ª divisão e acabando a carreira no Imortal de Albufeira, onde depois foi director desportivo e treinador. Agora, no desemprego, Pitico veio para São Marcos da Ataboeira. “Vim para ajudar um amigo (António Lopes) e estou encantado, apesar de estar a disputar um campeonato totalmente diferente, quase sempre em pelados, que proporciona muita luta", explica o extremo-direito, ainda em fase de adaptação. "Felizmente, a nível físico sinto-me bem, evidentemente que perdi alguma resistência, mas continuo a ser veloz", garante.

A viver perto de Faro, Pitico desloca-se duas vezes por semana ao Alentejo (quase 200 quilómetros por viagem), um sacrifício que vale a pena: " A minha vida foi jogar futebol e aqui encontrei um carinho igual ao que senti no Farense, onde fui sempre um ídolo. Já marquei dois golos, mas estamos na fase do entrosamento", afirma o atleta, que continua à espera de um projecto que o lance como treinador.

MANÉ: FELIZ AOS 40 ANOS

Mané chegou ao Farense, vindo Brasil, em 1989, onde esteve sete épocas, tendo ainda jogado uma época no Gil Vicente, sempre na 1.ª Divisão. Seguiu-se o Louletano (divisão de honra) e vários clubes algarvios na 3.ª divisão.

Estabelecido em Faro, com um café, Mané, ao contrário dos seus dois colegas de equipa, não seguiu a carreira de treinador: " Eu gosto é de jogar futebol. Por isso, aceitei este convite de um amigo e com a compreensão da família faço umas folgas no café e venho matar o bichinho, afirma. Marcando o golo que a deu a vitória do S. Marcos no jogo da Taça do Alentejo, Mané está radiante: " Sinto-me bem, sempre tive uma vida tranquila e, com a minha experiência, posso ajudar os mais jovens a ganharem conhecimentos de futebol", garante.

Hassan, bota de prata do futebol português, ao serviço do Farense quando, na época de 1994/95, obteve 21 golos, o goleador já deu o seu acordo para rumar a São Marcos da Ataboeira. Só o facto de o clube alentejano já ter um estrangeiro inscrito na Associação de Futebol de Beja, o único permitido na 1.ª divisão distrital, está a impedir a concretização do negócio.

Tal como o seu compatriota Hajry, tendo, em Portugal, ambos representado o Farense e o Benfica, Hassan arrumou as botas na época passada no S. Luís, mas estava na disposição de também ir, a troco de umas almoçaradas, mostrar que, aos 39 anos, completados no passado dia 8 de Julho, ainda era capaz de fazer vibrar os adeptos do São Marcos.

TREINADOR É BENEMÉRITO DO CLUBE

António Lopes, 46 anos, ligado ao ramo da imobiliária no Algarve, onde reside, é uma figura muito conhecida no futebol algarvio. Já treinou o Almancilense (3.ª Divisão) e o Ginásio de Tavira (distrital) regressa agora a S. Marcos da Ataboeira. Na sua juventude foi atleta do União de Tomar (1973/ 75), Ferreirense, Castrense e S. Marcos. Recentemente, problemas pessoais obrigaram-no a um interregno no futebol, regressando agora às origens com um projecto que está a dar nas vistas: "Venho cá quatro vezes por semana. Faço mil km/semana, que se fazem com sacrifício, mas muito gozo".

“Nos momentos de aflição, temos tirar do bolso 750 ou mil euros e pôr no clube, mas o que interessa é que a minha terra tenha futebol com alguma qualidade", explica António Lopes, que tem ideias bem definidas neste projecto: " Há muito tempo que sou amigo destes grandes jogadores, que são uns desportistas de eleição, pelo que lá consegui sensibilizá-los em virem dar qualidade a uma equipa que só tem o objectivo de se manter na 1ª divisão distrital", afirma.

O facto de o plantel já ter um estrangeiro está a impedir, para já, a inscrição do marroquino Hassan: " Vamos tentar naturalizar o Adilson e vamos trazer o Hassan para esta equipa, que, além de onze jogadores da terra, tem atletas de valor, como o Adilson que jogou na Ovarense na 2.ª Liga e o Lécio, que jogou no Imortal e no Portosantense.

JOGAR PELO ALMOÇO E O CONVÍVIO

O FC de S. Marcos tem menos de uma centena de associados, que pagam um euro de quotas, para um orçamento de 40 000 euros anuais. Os futebolistas recebem 100 euros/mês e um prémio de jogo de 10 euros por vitória. Pitico, Hajry e Mané auferem o mesmo.

"Estou aqui pelo gosto de jogar futebol e para ajudar o amigo António Lopes. Até agora, o pagamento foram os almoços antes dos jogos e algumas jantaradas depois. Não tenho nenhum compromisso assinado e, logo que surja um convite sério, vou-me embora, embora levando estas pessoas no coração", afirma Pitico.

'DERBY' DE CASTRO VERDE AQUECEU COM EXPULSÕES

No passado domingo defrontaram-se pela primeira vez as duas equipas do concelho de Castro Verde. A equipa da sede do concelho, primeira classificada, goleou por 8-1, num jogo que reuniu grande assistência e que chegou a ter momentos quentes. Pitico marcou primeiro, pondo a equipa de S. Marcos da Ataboeira em vantagem, mas a expulsão de dois dos seus atletas, ajudaram à goleada.

António Lopes pegou-se com o árbitro e não escondeu a sua revolta: "A arbitragem no distrital é muito fraca. Temos apenas quatro pontos, mas fomos altamente prejudicados nalguns jogos. Parece que os responsáveis do futebol alentejano, em vez de estarem satisfeitos pela projecção que estes jogadores podem dar ao campeonato distrital, ainda nos olham desconfiados".

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