Ter melhor sexo e gostar mais do corpo através de terapias alternativas.
Se o ginásio serve para pôr o corpo em forma e o coaching para treinar a mente, agora a vida sexual também pode ser melhorada através da ajuda de um terapeuta pessoal.
Cristina Mira Santos é psicóloga, tem formação em sexualidade, ioga, reiki e filosofia oriental, entre várias outras terapias alternativas, mas resolveu dedicar parte da sua atividade às questões da sexualidade, ao serviço da qual coloca todos estes conhecimentos e, em jeito de resumo, há quem lhe chame uma personal trainer do sexo.
Ao seu consultório, na Baixa de Lisboa, chegam mulheres e homens "em processos de desenvolvimento pessoal, que muitas vezes podem também passar pela descoberta do seu próprio corpo, ou pessoas com disfunções a nível da sexualidade e do desejo".
Muitas vezes chegam ali só com um problema e saem com vários para resolver. Não porque o feitiço se virou contra o feiticeiro, mas porque sexualidade, emoções e vida familiar e profissional estão muito mais ligadas do que se julga. E quando se julga, geralmente olha-se só para os outros.
"Os homens são mais pragmáticos. Vêm com um problema e estão somente focados para a sua resolução. Uma ejaculação precoce, por exemplo. Mas depois de analisarmos se existe alguma causa fisiológica para o problema, percebe-se que há quase sempre um problema na relação ou no modo de vida. O próprio ritmo profissional, muito talhado por objetivos, por exemplo. As mulheres vêm mais confusas, raramente percebem ou definem a falta de desejo ou de orgasmo como uma patologia, por exemplo, mas vêm sobretudo disponíveis para encetar um processo de desenvolvimento pessoal global", conta. Algures entre uma coisa e outra, homens e mulheres lá hão de se encontrar, até porque esse é o objetivo primordial.
Às vezes, a origem do problema reside logo na educação. Sobretudo, "no caso das mulheres, a quem foram inculcadas ideias de que o sexo é sujo ou de que os homens só as procuram para isso. Logo, a primeira fase é ser observador dos próprios pensamentos, para desconstruir crenças interiores, depois canalizar o pensamento para o aqui e o agora e a seguir conhecer o próprio corpo, que tem muitos mais pontos de prazer do que os clássicos boca, seios e genitais, mas que a maioria das pessoas desconhece e, consequentemente, não usa", acrescenta a terapeuta.
Por isso, as sessões têm de obviamente começar pelo diálogo, mas em fases seguintes recorre-se a muitas outras técnicas. A mais simples é a respiração, que "ajuda a libertar e até a atingir um estado de semiconsciência", mas também trabalha com os pacientes a exploração dos pontos erógenos diferentes e dos tradicionais. Para isso, pode começar-se pelo ‘insuspeitável’ reiki, a aprendizagem do tantra (meditação) e dos princípios do sexo tântrico (o tal que o músico Sting celebrizou) para chegar à masturbação, pompoarismo ou mesmo a massagem tântrica genital para mulheres ou homens.
"Tudo de acordo com a pessoa e a sua disponibilidade para resolver os problemas. Costumo mandar trabalhos para casa, mas aqui a palavra adequada será mais ‘diversão para casa’, para explorar sozinho ou com o parceiro", conclui. No fundo, não será muito diferente de uma consulta de sexologia, mas aqui cruzam-se metodologias científicas e alternativas.
Porventura, chega-se a uma conceção bem diferente: a da sexualidade sagrada. "Porque o sexo é também o momento mais próximo da espiritualidade e, neste caso, o orgasmo seria o encontro com o divino", remata Cristina Mira Santos, que neste campo da sexualidade sagrada aprendeu com as formações e workshops ministrados pela portuguesa Amala Shakti Devi, que recebeu este nome na Índia, onde fez a consagração a Shakti, a mãe deusa ou, simplificando, o sagrado feminino. Por isso, Cristina autointitula-se uma sacerdotisa do amor erótico. E está ‘credenciada’. Mas não é a única em Portugal que recuperou um conceito que, em abono da verdade, já vem das civilizações ancestrais.
‘EROTISAS’
Na ilha da Madeira reside Ariana, mais conhecida como Ari Shakti Devi no meio, outra sacerdotisa do amor e que explica que "a sexualidade sagrada é, no fundo, uma sexualidade que reconhece o potencial mágico que tem a energia sexual, e entende a energia erótica como fonte de inspiração criativa e ligação divina. Uma energia que nutre, que cura, que sintoniza a pessoa a si mesma e ao seu potencial interno e que tem um potencial enorme". Isto para explicar o que há de espiritual em algo que a maioria encara como puramente físico.
Só é preciso descobrir essa tal vibração que promete maior satisfação entre quatro paredes e com o mundo em geral, e é para isso que estão lá as sacerdotisas. "Nós ensinamos. Muitas pessoas até podem ter uma vida sexual ativa, mas muitas não se sentem nutridas após o ato sexual. Sentem que falta algo importante que não conseguem expressar o que é", refere a terapeuta.
No fundo, uma sacerdotisa do amor erótico é uma (re)educadora sexual que ensina a arte erótica do prazer: "Amar e celebrar o próprio corpo como um templo sagrado e os mistérios e funcionamentos do corpo feminino e masculino, a descoberta dos genitais e coração como portais sagrados, a respiração como ferramenta fundamental na expansão energética e no circular das energias internas, as dimensões energéticas do sentir e do uso sábio do orgasmo que, no masculino, pode não ter a ver com ejaculação. Ajuda a limpar memórias e bloqueios emocionais que estão por trás de bloqueios físicos, relembra a sacralidade do ato de fazer amor, dos aspetos energéticos da sexualidade, bem como ajudar em problemas de ereção e outros relacionados com os seios, o útero, etc.", acrescenta.
Por isso, uma ‘erotisa’ procura traçar novos caminhos emocionais, como "o desenvolvimento de uma consciência e vivências alinhadas no sentir, limites e verdade interna individual". Enfim, condições obrigatórias para o autoconhecimento e a felicidade, objetivos que Ariana traçou primeiro para si própria. Tem 38 anos, um filho e costumava ser engenheira agrícola até enveredar pelas terapias alternativas. Experimentou e estudou várias correntes (aliás, é também terapeuta de reiki , ensina meditação e ioga) até descobrir também a sexualidade sagrada através dos encontros mensais promovidos pelo círculo de Amala.
A cura dos próprios problemas levaram à iniciação de Sakura Morgana nesta corrente, ex-professora, agora também terapeuta do amor. "As memórias, as experiências e as emoções negativas ficam, tanto em homens como em mulheres, plasmadas na zona pélvica e do ventre. Muito mais nas mulheres, por força da educação repressora, por força até da própria história em que a mulher sempre foi vista como o meio para o homem chegar ao prazer, negando-se a sua própria sexualidade. E não é preciso recuar muito: até aos anos 70, o orgasmo clitoriano feminino ainda era visto como uma coisa imatura e histérica. O que importava era o orgasmo vaginal, ou seja, aquele que envolvía a penetração, logo a satisfação do homem", justifica.
Por isso, dedica-se à ‘Yoni Healling’ – a chamada cura da vagina –, reconectando as mulheres com o sentir e com o prazer. Mas a terapeuta do amor Sakura Morgana também atende homens, desde que estes tenham a mesma vontade de se "expandir e desenvolver amorosamente". "O sexo não é apenas a descarga de uma tensão, um momento. É a maior energia do universo, por isso é o ato de criação. Usamos a energia sexual para fazer um filho, mas também para levar por diante um projeto, para criar. Mas é preciso trabalhá-la. E quando isso acontece, o sexo é, sem qualquer dúvida, diferente."
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