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MICRONOVELA

Pandora O poder não se mostra. Usa-se.

A PAIXÃO SEGUNDO PESSOA

A menina Ofélia encantou-o, é certo, mas o seu afecto não chegou para lhe impor a vida normal de um homem casado. No mês em que se assinala a morte de Fernando Pessoa, recordamos a sua mais célebre história de amor

08 de novembro de 2002 às 20:08

«Todas as cartas de amor são Ridículas Não seriam cartas de amor se não fossem Ridículas»

Lisboa, 1920. Fernando António Nogueira Pessoa desce o Chiado rumo à Félix, Valladas e Freitas, na rua Assunção no 42, uma das empresas onde redige cartas comerciais em inglês. Pessoa caminha pensativo, deixando-se levar pelo mundo enigmático que o persegue. Cada montra é uma estrofe, cada cara é um poema. O poeta dos heterónimos anda às voltas com o poema “Meantime”, que irá publicar na revista “The Athenaeum”. Aos 31 anos, o seu «temperamento feminino numa inteligência masculina» quase não se anuncia às senhoras, a quem timidamente responde com sorrisos e frases curtas.

Ofélia Queirós é a mais nova de oito irmãos. Fala correctamente francês e escreve em todos os teclados. Tem apenas 19 anos quando, contra a vontade da família, responde a um anúncio do “Diário de Notícias”. É chamada para uma entrevista num escritório da Baixa. No dia combinado, e de acordo o protocolo da sociedade de então, faz-se acompanhar por uma empregada da irmã à sede da empresa. Na rua Assunção entram no no42 e sobem até ao 2o andar, mas a porta está fechada. Um senhor vestido de negro, de chapéu de aba, óculos e lenço ao pescoço, sobe as escadas. “Ao andar, parecia não pisar o chão. E trazia as calças entaladas nas polainas”, diria ela mais tarde. Era Fernando Pessoa. Ofélia tem uma súbita vontade de rir e é preciso concentrar-se para lhe conseguir dizer ao que vem. Ele é gentil.

Empregue como secretária por uns razoáveis 18 escudos por mês, passa a trabalhar a escassos metros de Fernando que, entre uma e outra carta, lhe dedica especial atenção. Um dia falta a luz no escritório. Ele acende um candeeiro de petróleo e pouco antes da hora de saída atira-lhe um papelinho que diz “Peço-lhe que fique”. Expectante, Ofélia acede. Estava já a vestir o casaco quando ele entra no gabinete de candeeiro na mão. Pousa o iluminante, senta-se numa cadeira e usando palavras de Hamlet, declara-se: “Oh, minha querida Ofélia! Meço mal os meus versos; careço de arte para medir os meus suspiros; mas amo-te em extremo, acredita!” Atrapalhada, ela veste o casaco e despede-se. Ao acompanhá-la à porta, Fernando agarra-a pela cintura e sem dizer palavra beija-a apaixonadamente.

AS RÍDICULAS DECLARAÇÕES

Comprometida, Ofélia foge para casa. Os dias passam e Fernando finge ignorar o que se passou. Confusa, ela escreve-lhe a pedir explicações. Fernando responde e o namoro começa no primeiro dia de Março.

No escritório trocam olhares, bilhetes e presentes que ela encontra na gaveta ao chegar pela manhã. Conta Ofélia que ele era “de uma delicadeza e de uma ternura imensa” e que a surpreendia em ataques repentinos de paixão. Estavam um dia na paragem do eléctrico da Rua de São Bento quando, de súbito, ele a empurra para o vão de uma escada e de surpresa ela apanha um beijo “enorme, enorme...”

Pessoa é um homem solitário, de postura sóbria e olhar sereno. Ao pé da amada, o poeta das múltiplas personalidades transforma-se. Divertido, dizia “ouvistaste?” em vez de “ouviste?” e anunciava que ia lavar os pés por fora antes de ir engraxar os sapatos. Quando, controlada pelo pai, Ofélia não conseguia um pretexto para sair de casa, combinavam uma hora para ela estar à janela. Fernando passava no passeio da frente, fazia-lhe caretas e atirava-lhe beijos. Depois, descia a Rua dos Poiais de São Bento a saltitar nos degraus para a fazer rir: “O Fernando, em geral, era muito alegre. Ria como uma criança e achava muita graça às coisas”.

Era um namoro clandestino, escondido ao rigor da família Queirós e desconhecido dos amigos dele. Fernando pedia-lhe que não dissesse a ninguém que namoravam: “É ridículo. Amamo-nos”. Encontravam-se à porta da Livraria Inglesa, onde ele ia comprar os jornais, e conversavam até ao Largo D. João da Câmara, junto ao Teatro D. Maria II, onde Ofélia visitava a irmã.

Quando ela trocou o escritório por um emprego em Belém, passaram a ver-se durante o percurso de eléctrico e de comboio. Para que ninguém reparasse, ele entrava no Cais do Sodré e ela em Santos. Fernando nunca quis ir a casa dela, “coisa de gente vulgar”, que Pessoa definitivamente não era. Às vezes aparecia-lhe e dizia que não era ele, mas sim o Álvaro de Campos: “Trago uma incumbência, minha senhora, é a de deitar a fisionomia abjecta desse Fernando Pessoa de cabeça para baixo num balde cheio de água”.

Vêem-se e escrevem-se quase diariamente. É uma literatura diferente a que ele lhe dedica. As cartas, depois publicadas, revelam uma faceta quase infantil: “Oh! Venho só quevê pâ dizê que gostei munto da catinha d’ela. Oh! E também tive munta pena de não tá ó pé do Bebé pâ le dá jinhos!”. Ou não fossem cartas de amor.

Nem o “Nininho do Bebé” escapa à vulnerabilidade de quem ama. Ciumento, não se zangava, sofrendo apenas para si. Disse-lhe um dia: “O teu amor por mim é tão grande como aquela árvore”. Intrigada, Ofélia replica: “Mas não está lá árvore nenhuma”. “Por isso mesmo”, conclui.

Apesar de ousada para a época, Ofélia é uma menina educada no tradicional mundo da mãe e da irmã. O seu sonho é ser, como elas, esposa e mãe. Um mundo no qual a existência de pensamento de Pessoa não cabe. Por vezes, o poeta foge para a escrita. Falha aos encontros marcados, tem atitudes que ela não entende, afasta-se. A 29 de Novembro de 1920 diz-lhe na sua última carta: “Estas coisas fazem sofrer, mas o sentimento passa. Se a vida, que é tudo, passa por fim, como não hão-de passar coisas como o amor e a dor, e todas as mais coisas que não são senão partes da vida?” Vão-se afastando aos poucos até que deixam de se ver.

A ESCRITA ACIMA DE TUDO

Os seguintes anos serão os mais intensos para Pessoa. Em 1923 Álvaro de Campos, o seu heterónimo mais autobiográfico, assina o poema “Lisbon Revisited” : “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?”

Solteiro e intelectual, divide o seu quotidiano entre as tertúlias no Martinho da Arcada e a casa da Rua Coelho da Rocha, onde escreve febrilmente.

Nove anos depois da despedida, o poeta Carlos Queirós, sobrinho de Ofélia e amigo de Fernando, leva para casa da família uma fotografia onde se vê Pessoa a beber vinho no Abel Pereira da Fonseca. Ofélia acha graça e pede-lhe uma cópia. Recebe-a dias depois, com uma dedicatória do próprio: “Fernando Pessoa em flagrante delitro”. Escreve-lhe a agradecer, ele responde e o namoro recomeça.

Mas sem a mesma paixão. Nesta altura vai a casa dela, como amigo de Carlos Queirós. Ficam os três na sala a conversar de poesia e de amigos. Ofélia reconhece a ternura que ele ainda lhe dedica, mas reencontra-o diferente. Inconstante e nervoso, sempre obcecado com a escrita. Confessa-lhe o receio de não lhe poder dar o nível de vida a que ela estava habituada. Não era ambicioso e dizia-lhe: “Não digas a ninguém que sou poeta. Quando muito, faço versos”. Escreveram-se e viram-se até Janeiro de 1930, altura em que ele justifica a derradeira renúncia ao amor: “De resto, a minha vida gira em torno da minha obra literária, boa ou má que seja, ou possa ser. Tudo o mais na vida tem para mim um interesse secundário...”

Um dia batem à porta de Ofélia, a empregada traz um livro que lhe mandaram entregar. Ao abrir, depara com a “Mensagem”, com uma dedicatória do autor. Quando pergunta quem o trouxe, reconhece, pela descrição, ter sido o próprio Fernando. Ainda corre para a porta, mas já não o consegue ver. Trocam telegramas de parabéns e postais de Natal até à morte do poeta, em 1935. No ano seguinte, Carlos Queirós publica uma “Carta à memória de Fernando Pessoa”, na qual, comovido, escreve: “As suas cartas de amor! Porque você amou Fernando, deixe-me dizê-lo a toda a gente. Amou e – o que é extraordinário – como se não fosse poeta”.

NÃO TINHA TEMPO PARA NAMOROS

A escritora Manuela Nogueira, sobrinha de Fernando Pessoa, conviveu com o poeta até aos dez anos de idade. Aos 13, começou a escrever. É na “casa de memórias” do Estoril que a co-autora do livro “Cartas de Amor de Ofélia a Fernando Pessoa” nos fala da família, do percurso e das escolhas do tio Fernando.

Consta que Pessoa era tímido com as mulheres. Essa timidez era estratégica?

Ele admirava muito a beleza feminina, e andou várias vezes interessado em várias pessoas. Mas parece-me que um homem que se debruça sobre tantos assuntos intelectuais, que lê tanto em 47 anos, que deixou a obra que deixou, não pode ter tempo para muitos namoros e para se interessar por uma vida social em que a mulher fosse o fulcro dos seus interesses. Porque ia perder tempo! Eu acho que ele sentia que o tempo era escasso para aquilo que queria, ou que tinha que fazer. E ele tinha que o fazer. Até aparecer Ofélia.

Como é que a relação evoluiu?

Penso que ele gostou verdadeiramente de Ofélia. E que se cansou dela, ao longo do tempo, porque ela era um bocadinho obsessiva. [A maior parte das mulheres] quando vê as suas amigas a casar e tem um namoro considerado normal, quer seguir o mesmo caminhos. Com o Fernando Pessoa ela sentiu que não o estava a seguir, porque ele não dava continuidade à relação. Ele gostava de estar com ela, devia-lhe ter ternura – vê-se que teve alguns avanços mais íntimos – mas não fazia promessas. Ele nunca apresentou a Ofélia à família e isso é uma prova de que não estava seguro dos seus intentos. Ele achou que ter um lar e responsabilizar-se por ter um ordenado certo não era para ele. Atemorizou-se.

Se fosse jornalista, tal como um dia sonhou, que pergunta lhe teria feito?

Teria valido a pena ter escrito a obra sublime que ele escreveu, em vez de casar, ter os seus filhos, e uma vida convencional?

Foi uma opção consciente?

Eu acho que sim Ele fez uma opção clara. Agora acho também que se ele tivesse tido a sorte de ter vivido mais 20 anos, quem sabe se não se teria casado? Um casamento tardio em que juntasse a sua obra a uma mulher que o compreendesse intelectualmente. Talvez então pudesse ter tido alguma serenidade.

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