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Armário trancado a sete chaves

Primeiro-ministro do Luxemburgo casou-se com o companheiro. Em Portugal, poucos dizem ser gay.

24 de maio de 2015 às 13:45

Xavier Bettel é um raro caso de político incapaz de negar que governou em proveito próprio. Primeiro-ministro do Luxemburgo desde 2013, colocou entre as prioridades do governo a aprovação do matrimónio entre pessoas do mesmo sexo no grão-ducado, o que lhe permitiu casar-se, no dia 15, com o companheiro, o belga Gauthier Destenay.

O político de 42 anos é o terceiro primeiro-ministro assumidamente gay do Mundo – a islandesa Jóhanna Siguroardóttir e o belga Elio Di Rupo já deixaram o cargo –, acredita que os eleitores não se preocupam com a sua orientação sexual e segue o lema revelado numa entrevista: "Só tenho uma vida e não quero escondê-la."

Assim fez Miguel Vale de Almeida, ao tornar-se o primeiro deputado português a anunciar publicamente ser homossexual. Eleito nas listas do PS, em 2009, ficou no Parlamento até ver aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Hoje, contactado pela ‘Domingo’, considera que o exemplo de Bettel é importante "porque um líder político deve também ser um líder ético".

"Estivesse eu ainda na política ativa, tivesse eu ‘chegado’ a governante e tivesse eu casado, teria feito o mesmo", diz, com ironia, o professor universitário, de 54 anos. Mais a sério, admite : "Sinto--me preocupado com o nível de não assunção da orientação sexual nos grupos dirigentes da nossa sociedade, incluindo a classe política."

Não só Miguel Vale de Almeida defende que é errado pensar que a orientação sexual é do foro privado – "Não o é quando toda a gente presume que toda a agente à volta é heterossexual..." –, como prevê que um líder partidário gay/lésbica, não correriam o risco de perder votos em Portugal: "A verdade e a transparência são incrivelmente libertadoras. Para o(a) próprio(a) e para toda a gente."

Jorge Nuno Sá, ex-presidente da Juventude Social-Democrata, concorda. Deputado de 2002 a 2005, mas afastado da política, aos 37 anos, diz que "está por demonstrar que isso influencie, de forma positiva ou negativa, as massas eleitorais". Mas admite que subsiste o receio  entre alguns candidatos de que "seja decisivo".

É por isso que não acredita que um passo como o de Xavier Bettel possa suceder em Portugal num futuro próximo. "Impossível não é, pois depende da vontade própria, mas não é provável. Penso que há algum trabalho a fazer, e passa por pessoas da classe política que, sendo homossexuais, preferem não o assumir", considera o ex-deputado, que não é "adepto de ‘coming outs’ [divulgação de homossexualidade] forçados", mas avisa que "as pessoas devem assumir aquilo que são" e que "quem está na vida pública deve ter uma existência transparente".

ARMA DE ARREMESSO

 

Na política à portuguesa tem sido mais comum o aproveitamento da alegada homossexualidade de adversários como arma de arremesso. O exemplo mais extremo deu-se na campanha para as legislativas de 2005, quando ao líder do PS, José Sócrates, divorciado e pai de dois filhos, foi apontada uma relação com o ator Diogo Infante.

Tais insinuações enfureceram o futuro primeiro-ministro, agora em prisão preventiva em Évora, que acusou a campanha de Pedro Santana Lopes, até então primeiro-ministro e líder do PSD, de propagar o boato. "O outro candidato tem outros colos", disse o atual provedor da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, num jan-tar com apoiantes femininas, esclarecendo que pretendia apenas dizer que o socialista tinha o apoio de banqueiros e empresários.

A "campanha negra" que Sócrates vociferou no início de 2005 – quando surgiram notícias acerca do licenciamento do Freeport de Alcochete nos seus últimos dias  de ministro do Ambiente de António Guterres – não impediu o PS de obter a primeira (e até hoje única) maioria absoluta. Mais tarde, Edite Estrela, amiga de Sócrates, explicou o boato a Eduarda Maio, autora da biografia autorizada ‘O Menino de Ouro do PS’: "Ele nem conhecia pessoalmente Diogo Infante, mas ia várias vezes ao prédio onde vivia a namorada, Fernanda Câncio, que é perto de onde o ator vivia."

Nas legislativas de 1995, foi um socialista, o já falecido Carlos Candal, cabeça de lista por Aveiro, a divulgar um ‘Breve Manifesto Anti-Portas em Português Suave’, dirigido aos adversários Pacheco Pereira (PSD) e Paulo Portas (CDS/PP). No polémico texto, em que o ex-diretor do semanário ‘O Independente’ era apelidado de "garnisé- -cantante", Candal não falava diretamente em orientações sexuais. Mas tinha passagens tão dúbias quanto esta: "O Portas é dissimulado: esconde da opinião pública parte da sua verdadeira identidade. Concretamente, oculta que é monárquico – opção que, sendo embora legítima, tinha obrigação de revelar àqueles a quem pede o voto para deputado da República!"

Candal criticou o que dizia ser "‘solidariedade corporativa’ na promoção individual de que beneficiam os membros da Maçonaria, os confrades da Opus Dei, os agentes dos grupos económicos e – mais recentemente – os parceiros da comunidade gay". Ao ler este texto, Miguel Vale de Almeida anunciou que não votaria PS, verberando o autor: "Pensa que a insinuação de homossexualidade ainda tem um automático efeito denegridor. E não sabe distinguir discussão política de coscuvilhice." 

ARTIGO 13º

Luís Grave Rodrigues, o advogado que ajudou Teresa Pires e Helena Paixão a serem as primeiras pessoas do mesmo sexo a casarem-se em Portugal, acredita que a sociedade está habituada ao matrimónio gay, estranhando a escassez de políticos a assumirem essa orientação.

"Se os houver, que exerçam em liberdade o direito de saírem, ou não saírem, do armário. E se decidirem fazê-lo, que a sociedade portuguesa os respeite como cidadãos de plenos direitos, consagrados no artigo 13º da Constituição", diz, referindo-se à obrigação de ninguém "ser privilegiado, beneficiado, prejudicado, privado de qualquer direito ou isento de qualquer dever em razão de ascendência, sexo, raça, língua, território de origem, religião, convicções políticas ou ideológicas, instrução, situação económica, condição social ou orientação sexual".

Para Luís Grave Rodrigues,  cinco anos após a legalização do casamento gay, a maioria dos portugueses "viram que não veio mal ao Mundo". Espera "próximos avanços legais para uma maior decência da nossa sociedade" como o acesso à adoção e à procriação medicamente assistida, que julga serem possíveis na próxima legislatura, se houver uma maioria de esquerda. Mesmo que nenhum deputado assuma publicamente ser homossexual.

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