Os anos de ouro de José Cid são alvo de uma revisitação em ‘Nasci p’rá Música’, antologia editada amanhã na qual é traçado um olhar sobre o período mais popular do autor. De ouvir e chorar por mais.
“Como o macaco gosta de banana, eu gosto de ti, escondi o cacho debaixo da cama e comi, comi...” Em 1982, José Cid cantarolava assim o refrão de um dos maiores êxitos da música popular portuguesa. Estava na altura de fazer dinheiro, de experimentar o sabor do sucesso depois de anos a viver de trocos, de concertos em escolas e universidades, de fuga à censura e de aposta incerta no ‘rock’n’roll’. “Não tenho vergonha de dizer que, por essa altura, tive de fazer concessões num ou noutro caso. Precisava do dinheiro para um automóvel, para pagar a renda de casa e, acima de tudo, para sustentar uma criança, que tinha nascido há pouco e que eu gostava de ver crescer nos melhores sítios”. Com esta simplicidade desarmante, José Cid reconhece que o período de maior visibilidade de toda a sua carreira o obrigou a escrever canções que, à partida, o próprio sabia serem destinadas aos ‘tops’ e aos festivais da canção.
É essa parte de uma já longa carreira que chega agora às lojas, através da edição de ‘Nasci p’rá Música’, colectânea de 36 dos seus maiores êxitos. Hoje, já distante desse momento, revela ter tido grande prazer em criar algo que até então não tinha grande expressão em Portugal, e que continua a marcar muita gente. “Esta antologia refere-se a uma altura em que fui muito mediático, em que cheguei muitas vezes ao topo das tabelas de vendas e que deixa uma série de temas que apanham um público muito heterogéneo, que vai desde a minha geração, agora com 50 ou 60 anos, até aos filhos e aos netos deles.”
Agradado por ter ainda hoje um leque tão grande de fãs, José Cid lembra as duas faces dessa opção pela vertente comercial. Por um lado, a parte positiva: a grande eficácia em relação à adesão de parte do público português. Pela negativa: o silenciamento do seu lado “mais secreto”, com destaque para a vertente do rock sinfónico e, em especial, do disco ‘Dez Mil Anos depois entre Vénus e Marte’, ouvido com estranheza num País que, à data, estava a aprender a conhecer outros estilos sonoros. O próprio músico comenta, orgulhoso, o facto desse disco valer actualmente no mercado japonês qualquer coisa como quatro mil euros e de ser considerado pelos entendidos como uma pérola do género. “Dá-me uma felicidade imensa ir à Internet e ver duas pessoas dizerem em conversa que esse é um dos discos que levam para férias, a par com álbuns dos Yes e dos Pink Floyd”.
Maldita ‘playlist’ No entender do homem que, em 1956, fundou os Babies, que esteve presente no Conjunto do Orfeão de Coimbra, que era figura de destaque do Quarteto 1111 e que alinhou nos Green Windows, é tempo de viver apenas ao sabor daquilo de que gosta. “Depois da fase de reconhecimento mostrada neste novo disco, a minha vida transformou-se muito. Parece que desapareci mas, na verdade, continuei a gravar com regularidade, só que longe da fama. E fiquei menos mediático, mas mais feliz por me ter reencontrado, assim como ao projecto que tinha ficado para trás, em especial o deixado no Quarteto 1111”, conta.
José Cid aponta para o facto de grande parte do insucesso de muito projectos se ficar a dever ao estado actual das rádios, agarradas a um alinhamento musical sem margem para a tradição. E critica: “Hoje aquelas ‘playlist’ são um problema para a divulgação da minha criatividade porque nelas há cinco ou seis portugueses que passam 20 ou 30 vezes por dia, e mais nada. Não tenho nada contra esses, mas também gostava de passar duas ou três vezes, assim como gostava que tal acontecesse com outros 20 que estão a ser silenciados. Isto é muito grave”, queixa-se, para uma vez mais levar avante a máxima de que não são os números que o movem: “Sobre isso, costumo dizer que o detergente também vende (risos)”.
José Cid classifica o novo disco, assim como muitos que compôs ao longo da vida, como “arco-íris”, porque “as músicas são muito desligadas entre si, embora exista uma coerência sonora, pois normalmente há uma sonoridade que está colada a um estilo musical muito próprio”.
Quem o ouvir falar até poderá pensar que se trata de um músico monocórdico mas, na verdade, é a antítese disso. Do ‘rock’ à bossanova, com passagem pelo ‘jazz’, de tudo um pouco tocou, sem conseguir definir ao certo a época em que se sentiu mais preenchido do ponto de vista do gosto pessoal. Certa, mesmo certa, só a ideia de que a carreira de estudante universitário estava desde cedo condenada ao fracasso. “Nunca fui pessoa de conseguir decorar uma página, ou mesmo um parágrafo, do Código Civil, pelo que acabar o curso de Direito estava longe de vir a ser uma realidade. Além disso, bato-me por causas mas defendê-las é bem mais complicado e não me estava a ver como ‘o senhor advogado’”.
José Cid não está arrependido de ter tomado tal decisão. Músico a cem por cento, continua a dizer que se sente melhor assim, ou como parte de uma resistência que luta por um lado da cultura que tem sido silenciado, até porque “ser do contra dá o seu trabalho, mas diverte”.
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