E não, esta frase não é do âmbito da psiquiatria. Um médico quer transplantar cabeças. Em breve.
Daqui a dois anos, diz Sergio Canavero. Daqui a dois anos ele estará pronto. Não será fácil cortar a cabeça a uma pessoa e enxertá-la no corpo decapitado de outra, admite, mas é exequível, assegura. E o neurocirurgião italiano explicou como à revista ‘New Scientist’.
Primeiro, arrefece-se o corpo e a cabeça do dador até aos 12 a 15 graus para evitar a morte celular por falta de oxigénio, a seguir disseca-se o pescoço, depois liga-se os principais vasos sanguíneos através de finíssimos tubos. Entra então em cena um afiadíssimo bisturi – e aqui está a chave do sucesso da operação –, que corta a medula espinhal de forma limpa e precisa de modo a minimizar o trauma nos nervos.
"Claro que o maior obstáculo técnico para este desafio é a reconexão da medula espinhal do dador e do recetor", reconhece Canavero: "Eu defendo que só agora existe a tecnologia para fazer essa ligação." De acordo com o médico do Grupo de Neuromodelação Avançada de Turim, isso é possível através de microssuturas e de uma espécie de cola, o polietilenoglicol, que supostamente conseguirá "fundir" os nervos, como, nas palavras do próprio clínico, "os fios de esparguete se colam numa panela de água quente".
Depois de tudo religado, o doente fica em coma induzido três a quatro semanas para que nenhum movimento interfira com a cicatrização. Através de elétrodos, a medula espinhal receberá impulsos elétricos que estimularão a regeneração dos nervos. Depois de acordar, a pessoa deverá sentir e mexer a cara e falar com a sua própria voz. Mas necessitará de pelo menos um ano (eventualmente vários) de fisioterapia para conseguir ter controlo sobre o novo corpo e andar.
É esse precisamente o grande objetivo da audaciosa cirurgia: prolongar as vidas de pessoas cujos corpos estão demasiado doentes, feridos ou defeituosos para que possam continuar a funcionar – efeito da degeneração muscular ou do cancro, por exemplo.
MUDANÇA DE CORPO
Faz sentido? Canavero respondeu assim ao site noticioso Huffington Post: "Basta ir a qualquer serviço de neurologia, perguntar a alguém com distrofia muscular, e a resposta será clara como água."
Na verdade, do que se trata é mais de uma mudança de corpo: o dono da cabeça é que recebe o corpo de alguém morto, o dador. Mas não é um transplante de corpo completo, porque esse implicaria também a troca do cérebro. Assim, a expressão "transplante de cabeça" deixa claro que o procedimento envolve um crânio com o seu cérebro no interior.
Quando, ou se, lá chegarmos, a realidade ultrapassará a ficção de Mary Shelley. E, como Frankenstein e o seu monstro, esta ideia aterroriza muita gente. Muitos médicos recusam-se sequer a comentar a proposta, que consideram demasiado absurda para ser levada a sério. Outros acham-na uma aberração ética e, na eventualidade de a técnica avançar, temem pelo uso que se lhe possa dar: será aceitável poder um dia mudar-se a cabeça de corpo por motivos estéticos?
Há ainda quem a encare como uma pura impossibilidade, sobretudo a tão curto prazo. Esses relembram que o cérebro e a medula espinhal (os dois principais componentes do sistema nervoso central) não se regeneram uma vez cortados e que este procedimento requer uma reconexão que os médicos ainda não sabem fazer: "Se soubéssemos haveria muito menos pessoas paralisadas", sublinha na revista ‘Forbes’ Arthur Caplan, diretor do Departamento de Ética Médica da Universidade de Nova Iorque e uma das maiores sumidades norte-americanas em Biotecnologia.
Mais: a grande dificuldade no que toca aos transplantes de órgãos é evitar a rejeição por parte do sistema imunitário do recetor.
Foi o que aconteceu nas únicas duas experiências feitas em animais até hoje. Em 1954, o cirurgião soviético Vladimir Demikhov tentou transplantar cabeças de cães em dorsos de outros, mas nenhum conseguiu sobreviver sequer uma semana e alguns resistiram apenas dois dias. E em 1970, uma equipa liderada pelo norte-americano Robert White transplantou a cabeça de um macaco para o corpo de outro. Não conseguiram reconectar a medula espinhal, portanto o macaco ficou completamente paralisado. E não viveu mais de nove dias: o sistema imunitário rejeitou a cabeça.
Neste casos, e uma vez que é o corpo que contém o sistema imunitário, e não o cérebro, é o novo corpo que rejeita a cabeça original. O que fazer, então, se isso acontecer nos transplantes humanos? Voltar a trocar de corpo? Nota: a operação custará pelo menos 11,5 milhões de euros.
JÁ HÁ VOLUNTÁRIOS
Outras questões: o trauma de uma pessoa acordar dentro de um corpo desconhecido seria incomensurável, asseguram alguns médicos; a chamada dor fantasma que afeta órgãos amputados incidiria sobre o corpo inteiro; e a possível rejeição psicológica do novo órgão que, de tão violenta, por vezes termina na amputação da parte enxertada (neste caso, todo o corpo).
No reverso da argumentação, há que lembrar que todos os transplantes que hoje são efetuados originaram controvérsia e ceticismo até serem de facto feitos. E Canavero explica: foi por isso que falou pela primeira vez na ideia em 2013 e agora, a dois anos da pretendida inovação, a apresentou oficialmente no jornal online ‘Surgical Neurological International’. A sua intenção é arregimentar crentes: "Antes de ir à Lua, há que ter a certeza de que as pessoas nos seguirão."
Mas mesmo depois disso, prevê, haverá outra dificuldade: encontrar um país que autorize a cirurgia experimental: "Se a sociedade não o quiser, não o farei. Mas se não o quiserem nos Estados Unidos ou na Europa, não significa que o procedimento não seja feito noutro local", declarou o neurocirurgião à ‘New Scientist’.
Para começar, Canavero garante que já tem voluntários para a troca de corpo. Em junho, quando apresentar os pormenores do seu plano na conferência anual da Academia Americana de Neurocirurgiões, nos EUA, saberá quem o acha um génio ou um louco.
Entre as várias pessoas que já se pronunciaram, o especialista em bioética Arthur Caplan foi tão incisivo como um bisturi na mão de um cirurgião. Para ele, Sergio Canavero perdeu a cabeça.
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