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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Imaculada só mesmo de nome

Francesca Chaouqui agitou o Vaticano devido às acusações que fez no Twitter antes de ser nomeada pelo Papa Francisco.

01 de setembro de 2013 às 15:00

Os 140 carateres de uma mensagem de Twitter não são suficientes para reproduzir nem metade dos Dez Mandamentos, mas bastaram para que Francesca Immacolata Chaouqui se tornasse muito conhecida na Igreja Católica. E não necessariamente por ser a única mulher na comissão que foi nomeada pelo papa Francisco para reformar as finanças do Vaticano.

Navegar na internet à procura das polémicas palavras da italiana de 30 anos, especialista em ‘lobbying’ e relações-públicas, é uma perda de tempo, pois Francesca encarregou-se de apagar qualquer rasto da sua presença na rede social depois de saírem as primeiras notícias acerca daquilo que tinha escrito. No entanto, a eliminação da conta de Twitter, decisão que tomou a 10 de agosto, não impediu que a imprensa reproduzisse algumas das farpas mais afiadas dirigidas ao cardeal Tarcisio Bertone, o todo-poderoso secretário de Estado do Vaticano, alcunhado de "corrupto" num dos tweets mais polémicos.

"Bertone venceu. Estava convencida de que ele não o faria, mas deixou cair a toalha. Enquanto crente, estou simplesmente desiludida", escreveu a licenciada em Direito, que deve o nome e os traços exóticos a um pai francês de origem marroquina – ainda que noutros relatos se trate de um egípcio, bem como a idade da jovem ‘oscila’ entre os vinte e muitos e os trinta e poucos anos –, quando Bento XVI anunciou a resignação. Noutra ocasião, serviu-se do Twitter para vincar aquilo que a separa do compatriota: "Creio na Igreja: una, santa, católica e apostólica. Talvez alguém o devesse recordar a Bertone."

FONTE DO VATILEAKS?

Tais mensagens não foram, porém, decisivas para que Sandro Magister, especialista em Vaticano da revista italiana ‘L’Espresso’, a juntasse ao monsenhor Battista Ricca, prelado do Instituto para as Obras de Religião (que gere as finanças da Igreja Católica) – acusado de ter relações homossexuais quando era núncio apostólico em Montevideu –, entre os "inimigos dentro de casa". Para o experiente jornalista, que já assinou textos impiedosos para Tarcisio Bertone, "teria sido facílimo fazer uma ideia da personagem", bastando entrar no Twitter da jovem, que no ano passado terá chegado a publicar que Joseph Ratzinger tinha leucemia.

Além de se referir às fotografias partilhadas por Chaouqui, mais ousadas do que seria de esperar numa mulher de confiança do papa, Sandro Magister apresentou a tese de que Francesca poderá ser a mulher misteriosa que fez chegar ao diário ‘La Repubblica’ documentos secretos do Vaticano. Mas sem correr os mesmos riscos que Paolo Gabriele, o mordomo de Bento XVI, que acabou por ser detido e condenado a 18 meses de prisão devido ao seu papel no escândalo Vatileaks.

Os defensores dessa tese realçam os elogios da jovem profissional de ‘lobby’ ao jornalista Gianluigi Nuzzi, que publicou um livro com os documentos roubados a Bento XVI. "Bravo. A isto chama-se ter boas informações. Estou orgulhosa de ti", escreveu no Twitter quem já se viu entretanto forçada a negar que o marido, o informático Corrado Lanino, tenha trabalhado na Cidade do Vaticano.

"Os próximos de Bertone estão a usar a Francesca como uma ferramenta para defenderem os seus próprios interesses", retorquiu Gianluigi Nuzzi ao jornal britânico ‘Sunday Times’. E a edição italiana do portal noticioso Huffington Post refere que Chaouqui terá tentado convencer altas figuras do Vaticano de que foi vítima de uma manipulação "destinada a desacreditá-la", argumentando que outras pessoas tinham acesso ao seu Twitter.

PAPA DESPREOCUPADO

Para o escritor português Luís Miguel Rocha, autor de romances como ‘A Mentira Sagrada’ e ‘A Filha do Papa’, não é crível que o primeiro argentino (e americano) a liderar a Igreja Católica ignorasse as polémicas opiniões antes de nomear a ex-consultora da Ernst & Young. "No meu entender, o papa escolheu-a precisamente pelo que disse", afirmou à Domingo

"O papa Francisco é um animal político, que nada faz sem pensar nas consequências. Tem um conjunto de conselheiros jesuítas a preparar cada passo para que tudo pareça espontâneo", diz Luís Miguel Rocha, sem esconder a curiosidade quanto ao relatório que a comissão terá de entregar até 8 de outubro, até porque as reformas deverão incluir a nomeação de um novo secretário de Estado, cargo ocupado por Bertone desde 2006.

O escritor de 37 anos realça que a única mulher com assento na comissão é "extremamente influente no Vaticano e em toda a Roma", para o que terá contribuído a ligação ao Opus Dei. "Mas não pertence, ao contrário do que muitos pensam. É o mais próxima possível sem o ser", acrescenta. Certo está que Francesca trabalha com o monsenhor espanhol Vallejo Balda, do ramo sacerdotal do Opus Dei. Também na comissão está George Yeo, um ex-ministro dos Negócios Estrangeiros de Singapura, que pertence à minoria católica do país asiático.

Outro ex-ministro, mas de Itália, é Guilio Tremonti, responsável pela pasta das Finanças em executivos de Silvio Berlusconi, que foi apelidado de "gay" no Twitter de Chaouqui. O político já garantiu que irá interpor um processo judicial, ao contrário do que deverá suceder com o cardeal Bertone, mas por enquanto a presumível autora dos insultos vai mantendo a calma. "Não estou preocupada, pois o Santo Padre não está preocupado", referiu ao diário italiano ‘Corriere della Sera’.

PERSONAGEM DE LIVRO "ESCRITO EM TEMPO REAL"

Francesca Immacolata Chaouqui prepara-se para ser uma personagem do novo romance de Luís Miguel Rocha, que será mais uma intriga centrada nos bastidores do Vaticano. "O livro está a ser escrito em tempo real", disse à Domingo o autor de ‘O Último Papa’, cuja edição norte-americana chegou à lista de mais vendidos do ‘The New York Times’. O enredo da próxima obra do escritor natural do Porto arranca em 2012, ainda antes de ter rebentado o escândalo Vatileaks, mas terá "especial incidência naquilo que se está a passar desde a resignação de Bento XVI", com a eleição do papa Francisco.

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