O curso tem saídas profissionais, mas em Portugal são poucos os interessados em aprender essa ciência pouco comum: a Meteorologia.
Manuel Mendes sente paixão pelos fenómenos atmosféricos desde criança. “É aquilo que chamo de vocação hereditária”, diz. Herdada da mãe, professora de Geografia. Hoje tem 29 anos e uma licenciatura em Ciências Geofísicas pela Faculdade de Ciências da Universi-dade de Lisboa. Não contente, decidiu apostar num mestrado em Ciências e Engenharia da Terra. “O meu sonho é fazer previsões meteorológicas.”
Em Portugal, poucos jovens partilham a vocação de Manuel. A média anual de licenciados em Ciências Geofísicas, pela Faculdade de Ciências de Lisboa, e de Meteorologia e Oceanografia pela Universidade de Aveiro, é de apenas cinco estudantes.
“As pessoas estranham o facto de ainda haver jovens que queiram seguir esta profissão”, explica Manuel. Quando diz que é meteorologista, ouve sempre um: “Ai que giro!” Pensa que as pessoas têm esse tipo de reacção por terem ainda bem presente a imagem dos antigos apresentadores do boletim meteorológico na televisão. Foram eles, aliás, que o empurraram para o curso.
Adérito Vicente Serrão, presidente do Instituto Meteorológico, sabe que tem vindo a aumentar o interesse dos jovens pela meteorologia. Só não é maior por causa da “fraca expectativa de emprego existente no País”. É precisamente esse o maior receio de Luísa Mendes, a cursar o quinto ano do curso. “As saídas são muito limitadas”, diz.
Aos 29 anos, ela está a fazer um estágio no instituto. E espera ansiosamente por um emprego. “Duvido que fique a trabalhar aqui”, desabafa. Adérito Vicente Serrão sustenta: “Se os estudantes recém-licenciados estivessem à espera do Instituto Meteorológico para serem admitidos estavam bem arrumados.”
Teresa Calado, 37 anos, é um bom exemplo. Ingressou na Faculdade de Ciências já contrariada. Neste momento encontra-se a fazer uma tese de doutoramento em áreas ardidas com imagem de satélite e está mais entusiasmada. Embora confesse que a única coisa que pesou na altura de decidir doutorar-se, foi simplesmente o não querer ficar em casa “a cozer meias”.
Desde 1998 que o Instituto Meteoro-lógico não assina contratos profissionais. “O que é uma pena. Estamos muito carenciados de recursos humanos qualificados”, diz o presidente. No entanto, o instituto não é o único estabelecimento onde um meteorologista pode exercer funções. Carlos da Câmara, vice-presidente, dá-nos alguns exemplos de saídas profissionais nesta área: “Podem ir para especialistas em radiação solar ou para a exploração de energia eólica. Nas privadas, podem ligar-se a firmas de processamento de imagens de satélite para seguimento de obras públicas.” São ofertas de mercado suficientes para que Carlos garanta que nunca conheceu um meteorologista desempregado. “Nem a trabalhar nos MacDonald’s”, reforça.
UMA QUESTÃO DE MARKETING
Em Portugal formam-se meteorologistas encartados desde a década de 40. Há 21 anos que Carlos da Câmara, é professor na Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. De acordo com aquilo que tem assistido, diz que a procura dos jovens pelo curso de Ciências Geofísicas só não é maior porque existe um “mau marketing” por parte daquela faculdade. E apesar da polémica que isso possa causar a nível universitário, não receia dizer que o facto de, hoje em dia, um curso se vender “como um par de sapatos” o entristece. Esclarece: “Ao chamar-se Ciências Geofísicas leva a que não se entenda do que trata. Se fosse Engenharia Meteorológica atrairia mais gente. Primeiro, porque o título de engenheiro é mais atractivo. Depois, as pessoas sabiam de imediato do que se tratava.”
AS MENINAS DA METEOROLOGIA
Quem não se recorda de Cristina Moller, em trajes arejados, a alertar para uma brusca subida da temperatura? Ou de Alexandra Fernandes, com um generoso decote, a garantir que se prevêem fortes tempestades para os próximos dias? Já lá vai o tempo em que a SIC apostou na colocação de meninas bonitas à frente da apresentação do boletim meteorológico. Mas nunca é demais lembrar. Que o diga Manuel Mendes, estudante do mestrado em Ciências e Engenharia da Terra. “Lá que tinham os seus atributos, tinham”, diz.
Para Carlos da Câmara, vice-presidente do Instituto de Meteorologia, essa aposta só veio comprovar que Portugal anda “sempre atrasado”. “Nos Estados Unidos o indivíduo que apresenta a meteorologia é uma das figuras essenciais para a escolha do canal. É quase o homem da família”, exemplifica. Na sua opinião, só um meteorologista encartado pode dar credibilidade às informações. E, recordando as antigas glórias da meteorologia, afirma: “Anthímio de Azevedo e Costa Alves são exemplos do quão importante é a figura de um meteorologista. Eles ficarão sempre para a história.”.
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