Artista lisboeta Bordalo II transforma restos de máquinas em obras habitadas por animais com maus hábitos humanos
A menina fascinada a ver Bordalo II escalar as escadas extensíveis que retirou do automóvel, até ficar empoleirado junto ao focinho do guaxinim gigante que criou, nas traseiras do Centro Cultural de Belém (CCB), em Lisboa, mal consegue ouvir a mãe: "Estás a ver? No outro dia passámos aqui quando lhe puseram os olhos..."
As vistas da obra chamada ‘Guaxinão’ são pneus de automóvel, fixados na parede de um prédio degradado e colados a outros destroços daquilo que há pouco tempo eram computadores, impressoras e outras máquinas que deixaram de ser necessárias e converteram-se em lixo. Valeu-lhes serem ‘reciclados’ pela imaginação de Bordalo II, nome artístico de Artur Silva, um lisboeta de 27 anos que transforma lixo em peças apreciadas por quem passeia na rua – já deixou um tucano da série ‘Big Trash Animals’ (‘Grandes Animais de Lixo’) em Berlim, na Alemanha –, ou adquiridas pelos colecionadores que visitam a sua exposição ‘Pânico, Drama, Terror’, na Galeria Arte Periférica, nas instalações do CCB.
Apesar de serem tão eficazes a captar a atenção quanto os enormes animais que enchem paredes de cor, as peças da exposição distinguem-se pelo tom muito escuro de humor negro do criador. ‘Reality Zoo’ mostra um casal de humanos, enjaulados e nus, observados por animais, enquanto ‘Ciência’ tem um rato de laboratório a extrair órgãos do seu cientista, e ‘Tradição’ é composta por um touro triunfante e um porco toureiro, ensanguentado e no chão, com bandarilhas nas costas.
"Para mim, tourada é lixo e não cultura", afirma Bordalo II, junto à peça, que já tem comprador. Apesar de admitir que a sua obra tem mensagem anticapitalista, anticonsumista e ambientalista, nega fazer ativismo político: "Não sou anarca, mas não tenho crenças políticas. Acho que a política é como a religião: as pessoas vivem obcecadas com esquerda e direita, sem verem aquilo que realmente se passa por detrás. E que, infelizmente, em muitos aspetos é mais do mesmo."
CURSO A MEIO
Os primeiros passos neste tipo de arte foram dados há três anos. "Tinha um estúdio muito pequenino e, como sou desarrumado, ia acumulando muito lixo", recorda à ‘Domingo’. As primeiras colagens de peças, pintadas por cima, não ficaram "nada de muito interessante", mas percebeu que havia potencial, optando por utilizar materiais "mais pesados e robustos".
Por terminar ficou o curso de Pintura na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa. Matriculado no quarto ano, adverte que a instituição de ensino superior "é, em muitos aspetos, castradora em relação aos jovens artistas, que não deviam ser incentivados a fazerem aquilo que é suposto".
Consigo ficou longe de resultar. "Não posso dizer que não aprendi nada. Fui crescendo lá e criei uma maturidade em relação ao mundo da arte que não tinha", diz o artista, que, ainda assim, gostaria que se ensinasse "as pessoas a pensarem e a defender o seu trabalho". Algo que não falta a Bordalo II, a avaliar pela reação quando se lhe pergunta se existe um comprador-tipo das peças. "Pessoas inteligentes", atira, de rajada. "Não posso dizer isto, pois não?", acrescenta, sem disfarçar o quanto se diverte com a situação, de olhos postos na galerista. "No geral, são pessoas com consciência social e ecológica", remata.
Admirador indefetível é o homem a quem homenageou no nome artístico, reconhecendo-lhe estatuto de fundador da dinastia: o seu avô, Real Bordalo, que pintou sobretudo cenas da vida lisboeta: "Gosta. Tem de gostar, não é? Mas é completamente diferente do trabalho dele."
De entre as outras reações, destaca o que sucedeu quando colocou online "um apontamento a gozar" com a publicidade de uma operadora de telecomunicações. "Achei engraçado ler alguns comentários, para mim completamente ignorantes e ridículos, em que diziam que tinha feito vandalismo e que a empresa é que estava bem ao minar a cabeça das pessoas com mensagens subliminares que as levam a ser infelizes ou a terem a felicidade patética de acreditar que ter um telemóvel novo é que é a vida", diz.
RATOS, PORCOS E MAUS
Tanto nas obras de rua como nas peças mais pequenas, os animais são uma constante, ainda que sejam a projeção de atributos humanos. "As primeiras peças eram despovoadas, mas na série anterior a esta havia muitos ratos. Costumamos dizer que os ratos são uma praga, mas isso é um disparate. A única praga do Planeta são as pessoas e não os bicharocos", defende o artista, que usa figuras de porcos para ilustrar o lado sujo da sociedade.
Com peças vendidas a preços que oscilam entre as muitas centenas e os poucos milhares de euros, garante que consegue viver da arte. "É possível viver de tudo desde que tenhamos muita força de vontade e motivação", diz à ‘Domingo’, realçando que não ainda não teve bloqueio criativo: "Quando estamos inspirados, o ideal é tirar apontamentos, para noutros momentos irmos às cábulas."
Quanto às obras na rua, vive bem com o facto de serem efémeras. "A arte urbana não dura para sempre. Toda a arte, aliás." Uma arara que tinha feito no bairro lisboeta de Telheiras já desapareceu, ao contrário do lagarto gigante que talvez passe despercebido a muitos dos que passam na avenida de Ceuta. "Se tivesse cobre ou ferro, já tinha ido", admite, sorridente.
HUMOR NEGRO EXPOSTO EM BELÉM ATÉ DIA 28
‘Pânico, Drama, Terror’ é a exposição de Bordalo II que pode ser vista até dia 28 na Galeria Arte Periférica, no Centro Cultural de Belém. Como o nome indica, as peças estão marcadas pelo humor negro e povoadas por animais e humanos em situações insólitas e violentas, ainda que as crianças se divirtam com porcos e ratos feitos de lixo.
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