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Os últimos casos de abusos sexuais de menores tiveram como autores pessoas nucleares na relação com crianças. Padres, polícias, professores e até pais já responderam por este crime.

27 de setembro de 2002 às 17:24

Marc Dutroux chocou o Mundo em 1996, quando foi preso sob a acusação de ter torturado e assassinado quatro jovens raparigas. Mais tarde, foi ainda responsabilizado por uma rede internacional que raptava, abusava e fazia vídeos pornográficos com crianças.

Este foi o primeiro grande escândalo de pedofilia à escala mundial. O caso colocou o abuso sexual de crianças no primeiro lugar dos medos dos pais de todo o Mundo. Desde então, porém, a pedofilia deixou de ter um rosto desconhecido. Hoje, a ameaça não vem só de pessoas estranhas. Nos últimos casos conhecidos, estão envolvidos padres, professores, polícias e até os próprios pais.

Depois de, durante anos, as autoridades e os progenitores terem alertado as crianças para o perigo de falarem ou receberem presentes de estranhos, sucessivos pedófilos desmascarados no seio da Igreja mostraram, pela primeira vez, que pessoas conhecidas e respeitadas também eram suspeitas.

O envolvimento de padres e bispos — muitos deles, entretanto, condenados — atingiu uma dimensão tal que, já em Abril de 2001, um relatórido de uma comissão britânica presidida por Michael Nolan, antigo juiz da Câmara dos Lordes, recomendou que todos os candidatos aos sacerdócio deveriam ser investigados e objecto de um interrogatório profundo sobre o seu passado.

A partir daí, a Igreja nunca mais conseguiu dissociar-se da pedofilia. Só nos Estados Unidos foram acusados, entre Janeiro e Junho de 2002, 805 padres católicos, 218 dos quais acabaram suspensos, revelou o jornal ‘Washington Post’, após ter contacto 178 dioceses, das quais apenas 96 responderam.

“Os danos provocados por alguns sacerdotes e religiosos a jovens enchem-nos a todos de profunda tristeza e vergonha”, disse recentemente João Paulo II, na primeira vez que comentou de forma directa o envolvimento de responsáveis religiosos em casos de pedofilia.

Mas as palavras do Papa de pouco valeram e, já depois disso, o arcebispo de Santa Fé (Argentina), Edgardo Gabriel Storni, foi afastado pelo Vaticano da terceira posição da hierarquia da Igreja Católica naquele país e o padre mexicano Edgar Hidalgo foi detido. Tudo por pedofilia.

Pais, professores e polícias

Depois dos padres pedófilos, outros casos, envolvendo igualmente pessoas nucleares na relação com crianças, agravaram ainda mais a já grande incredulidade mundial sobre o abuso sexual de menores. O mais recente é o de dois polícias britânicos que participaram nas buscas de Holly Wells e Jessica Chapman – alegadamente assassinadas pelo casal Ian Huntley, contínuo da escola por elas frequentada, e Maxime Carr, professora assistente do mesmo estabelecimento de ensino, ao que tudo indica também envolvido na prática de pedofilia.

Mas não é a primeira vez que é preso um pedófilo com ligações à escola. Em 1997, por exemplo, em Portugal, o professor José Andreia Soares abusou de uma menina de 9 anos, crime pelo qual foi condenado em 1999 a quatro anos e meio de prisão.

Depois de padres, polícias, professores, amigos e familiares terem sido detidos pela prática de pedofilia, só faltava mesmo os próprios pais serem desmascarados, o que para uma fonte policial contacta pelo Correio da Manhã não foi novidade já que “historicamente, a família é uma das principais fontes de perigo para as crianças”.

O caso foi revelado no início de Agosto pelo comissário norte-americano Robert Bonner, após a conclusão da ‘Operação Hamlet’ — desenvolvida em cooperação com as autoridades europeias—, que desmantelou uma rede internacional de pedofilia controlada por pais biológicos e adoptivos que colocavam fotos dos filhos em ‘sites’ pornográficos na Internet. “Em vez de os protegerem, estes pais converteram-se na própria câmara de horrores dos filhos”, disse Bonner na conferência de imprensa em que anunciou a prisão de 20 pessoas pelo abuso sexual de 45 crianças.

Entre elas estava um indivíduo que trocou o filho com outro pedófilo para este ser abusado e outro que solicitou ao “clube” – denominação que os membros davam à rede – uma cassete com os gritos de uma criança enquanto estava a ser espancada.

O problema da Internet

Além dos contornos macabros e chocantes, este caso é um bom exemplo de como a Internet dinamizou a prática de pedofilia. As autoridades de todo o Mundo – já que a quase totalidade dos países desenvolvidos condenaram, pelo menos, um pedófilo nos últimos três anos (ver infografia) – estão empenhadas em apertar o cerco aos abusos de menores e a polícia inglesa até já desenvolveu um programa de computador que instala na Internet ‘sites’ isco.

“Eles estão detalhadamente programados e ninguém lá pode ir para por engano”, frisou o inspector Darren Brookes, no início de Agosto, durante a apresentação do ‘software’. Além da dificuldade em desmascarar os pedófilos, é igualmente muito difícil controlar e impedir que eles voltem a abusar de menores.

Na Suíça e na Alemanha, por exemplo, os pedófilos mais agressivos só são libertados se acederem a submeter-se a um programa de castração hormonal (injecções para reduzir os níveis de testerona até à impotência). Mas o método não é totalmente eficaz, o mesmo acontecendo nos Estados Unidos, onde em alguns casos os pedófilos chegam a ser submetidos à castração cirúrgica.

Em Portugal, o maior pedófilo julgado, Leonardo Moreira — um trolha de 55 anos — foi condenado, em Maio, à pena máxima de 25 anos de prisão pelo Tribunal de Santa Maria da Feira por ter cometido 77 crimes e abusado de 43 crianças.

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