A dança do burlesco – uma arte antiga em que não se mostra mesmo tudo – tem ganho popularidade em Portugal
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Quem procura babar a vista com um espectáculo da laia hardcore terá de adiar o babete e ir para outro lugar. Falamos de burlesco, caros senhores, essa arte performativa capaz de conjugar teatro, circo, pantomima e dança, baseada numa actuação onde uma história é contada com uma pitada de paródia.
O garanhão reformado Silvio Berlusconi, para safar o lombo da cadeia devido aos habituais escarcéus sexuais, defendeu em tribunal que as festanças na sua mansão não passavam de "competições de burlesco". O advogado do antigo primeiro-ministro italiano soube, e bem, usar a arma para que o cliente não fosse besuntar brilhantina nos cabelos ao chilindró.
Proveniente do latim ‘burrula', brincadeira, burla, farsa, o engenho que fora iniciado no século XVI pelo seu conterrâneo Francesco Berni, com a ópera ‘Rime burleschi', e que renasceu na década de 90 com a actriz norte-americana Dita Von Teese, não pode ser considerado de "pouca-vergonha". Descendente da ‘Commedia dell'arte', a forma teatral de improviso que se realizava em Itália entre os séculos XV e XVII - e mais tolerável do que a sátira, uma vez que o seu exagero, a distorção de sentidos, o carácter jocoso, a falta de um discurso político ou moralizador a tornam mais inofensiva - mantém uma pequena distância do striptease, mas a suficiente para não se limitar a incitar reacções de cariz erótico.
No burlesco, a nudez absoluta pia de fininho. Aliás, por tradição, é interdita. "É muito melhor que seja assim", suspira um assíduo do Bar da Velha Senhora, na aorta do Cais do Sodré, em Lisboa. Melhor. Pois. E muito. Compreenda-se o suspiro do expert: os mamilos das performances ficam tapados com os devidos acessórios - ‘tassels' - e a zona púbica é disfarçada com perucas - ‘merkins' - cujos formatos assemelham-se ao molde original, sendo que a imaginação supera, de longe, a natureza. "Às 23h30, a senhora vai ver o que é esta maravilha."
A senhora viu à hora marcada interpretações que fazem roer os dez dedos de inveja das bailarinas do ‘Moulin Rouge'. Um misto de elevado profissionalismo, lubricidade e uma propositada componente de comicidade com a garantia do Lisbon Underground Burlesque, um grupo de dança burlesco constituído por moças com sério talento.
O ESPECTÁCULO
As estrelas portuguesas cintilam à grande e à francesa num palco comedido. Cada uma ao seu estilo. As duas com idades iguais, 29 anos, conseguem exclusivos do fado: silêncio e o respeito. Não se ouvem assobios matreiros, respirações indecorosas, nem um ‘valha-me Deus'. O único gesto do público é aplaudir a entrada dos petardos artísticos.
A personagem alemã ‘Fräulein Margret', imbuída pela portuense Mariana Schou, traz as referências da sua formação circense, humor sarcástico não lhe falta, e pernas esbeltas compridas também não. A pronúncia germânica com os típicos erres agudos é um dos recursos utilizados para jogar com a jocosidade pretendida em shows de este tipo. O corpo alto e elegante carregado de habilidade desenvolve a acrobacia sem precisar de dar salto nenhum. Excentricidade com destreza e lascívia inocente levam-na a cumprir o objectivo: entreter uma audiência.
Canta com os lábios pintados e juntinhos, mexe-se ao ritmo forte - contudo, cada deslocação corporal transmite leveza. Meneia as ancas, descalça as meias de rede e iça a perna em direcção do encosto da cadeira ao estilo determinado. Quando roda as costas a paisagem goza de folhos reduzidos. Um rio de indícios inclina-se para chamarmos as coisas pelo próprio nome. Mas, num ápice, o tronco retoma à posição primitiva. Sobram os seios, duas tímidas bolas imunes de silicone que nem sempre vivem dentro de uma espécie de sutiã ou de corpete. Há segundos em que parece que serão expostos na totalidade.
Alarme falso. Nunca, nunca, andam ao léu. Não sendo ilusionista, ‘Fräulein Margret' constrói um truque magnífico de magia ao mesmo tempo que agita a voz para continuar a entoar cantigas reminiscentes do encanto nova- iorquino e de canções actuais transformadas à cadência sexy.
Um lenço vermelho começa na mão aberta e, sem nada na manga, é descoberto na parte de cima do minúsculo biquini. O contraste completa a dupla. Chega a belíssima ‘Miss Tea' ou o alter ego de Caroline Oulman. A familiar do compositor predilecto de Amália, o ímpar Alan Oulman, pára o trânsito de uma cidade inteira. Possui toque levantino, uma imprevisibilidade cigana, fogo do Médio Oriente e lembra a Rota da Seda. Provou o ioga, faz meditação e acredita: "Dançando, encontramos uma linguagem, um caminho para dar à luz a voz da alma."
A alma e o corpo se estiverem em sintonia é deslumbramento. É. Sim. Pessoas felizes têm braços que são asas e voa ao ondular a dança do ventre, movimentando os músculos abdominais em incríveis rotações e com impacto. A saia longa branca começa fechada, depois, ao compasso da melodia, a racha descruza-se e abre, abre até ficar desapertada. Ao cetim não lhe sobra hipótese para tombar ao chão. As luvas que ultrapassam os cotovelos encarregam-se de o levar ao ar. A écharpe esconde o rosto. Uma faixa encobre a zona peitoral. Restam os olhos, negros e enormes, tão escuros como os collants e menores do que os saltos dos sapatos.
Os cabelos ora soltos, ora embrulhados numa cabeleira, acompanham-na numa conduta segura. Os fémures não atingem o tecto, mas rasaram. Um físico se tiver piada na expressão atrai mais. Dizem. ‘Miss Tea' canta e encanta tal como ditam os cânones do burlesco: a mulher perfeita deve unir música, voluptuosidade e graça sem constrangimentos. O pano cai e o público pula para ovacionar. O espectáculo não terminou.
O intervalo é pequeno mas, ainda assim, é maior do que o camarim improvisado. Regressam com fôlego e força após quinze minutos. Mata Hari e Marilyn Monroe terão aplaudido do céu. Liza Minnelli, enquanto estiver na terra, devia testemunhar o que é o burlesco em Portugal. ‘Miss Tea' e ‘Fräulein Margret' vêm de plumas descaídas ao redor da garganta, cartolas, espartilhos colados à cintura, um quimono que não tardou a escancarar e um vestido muito acima dos joelhos.
APRENDIZES
Embora a verdadeira receita do burlesco passe pela sensualidade da figura feminina crédula e marota (e que deve estar sexualmente sugestiva) no humor acessível e espontâneo, e na edificação de quadros temáticos ou curtas histórias, são os passos provocantes das vedetas que ganham, e a brincar, a lingeries da medida do fio dental.
Isabel Martins, a mulher que trouxe o burlesco para este país falido e com quilos de tabus, assistiu ao show das meninas na primeira mesa do Bar da Senhora Velha. Fotografá-la, não, muito obrigada. "Eu tenho uma vida profissional à parte. Não dou só aulas e organizo workshops de burlesco."
A nossa vida também não é só esta; redigir textos sem imagens, mas respeita-se. Nascida em Lisboa há pouco mais de trinta anos, entre 2003-2007, por razões profissionais, residiu em Londres e foi lá que frequentou uma academia onde aprendeu a arte performativa. Regressada a Portugal, tratou de reimplantar a dança burlesco. "Nas minhas aulas aprende-se um pouco sobre a história do burlesco, alguns movimentos chave, o trabalho com acessórios (chapéu, luvas, plumas) e uma pequena coreografia. O essencial é que as alunas se divirtam e se familiarizem com o próprio corpo e de como tirar partido do mesmo".
As discípulas de Isabel Martins também viram a cara à foto. Mariana enrolou o diploma de Direito e trabalha em produções de eventos. Tem 28 anos e um marido que muito lhe agradece os efeitos secundários que a dança burlesco trouxe para a intimidade. Desde 2007, uma hora de aula, duas vezes por semana, na Artist, em Lisboa, posiciona-se além da pimenta. "Em consequência do que aprendo nas aulas, as brincadeiras íntimas acabam por ter mais piada." Uma piada fabulosa que não é para rir, mas para usufruir, deu-lhe autoconfiança que se reflectiu em diversas maneiras e, claro, no sex appeal.
Beatriz só começou no início deste ano, mas é o bastante para assegurar: "O burlesco tem glamour. É um espectáculo. Eu gosto muito." O namorado idem, idem, aspas, aspas: " Ele acha imensa graça." Ai, não. Ela transporta para casa o que lhe ensinam e ambos desfrutam do fruto da lição. O que perde a metade da chalaça é a sociedade portuguesa não estar preparada para entender que uma formadora de alto gabarito não possa fazer o mesmo, ou melhor, do que as intérpretes Christina Aguilera e Cher.
OS ENSINAMENTOS DE BASTET
Não é somente o charme de Bastet Cabeleira que arruma na gaveta as protagonistas do filme ‘Burlesque'. É mais. Vem do coração. Mesmo se não fosse linda seria muitíssimo bonita. Não é preciso ser um portento para tratar por tu o burlesco. A esposa do admirável guitarrista dos Xutos & Pontapés toca, como ninguém, a dança. "O que digo às minhas alunas é para se sentirem bem com elas próprias". Não aceita as rotineiras desculpas ‘ah, eu não sou capaz de fazer isto ou aquilo'. É, pois. Com a segurança nos píncaros, uma senhora, mesmo aquela que esteve na última fila quando Deus criou a beleza, enfrenta o espinhoso movimento. Há truques. Óbvio.
"Quando vejo que a aluna tem uma barriginha mais saliente, digo-lhe para, ao de leve, disfarçar, por exemplo, com a mão." Bastet conhece o escadote onde a insegurança não detém degrau. Nem era preciso que dissesse nada. Basta meio dia no seu escritório para descobrirmos a fantasia real. Compartimentos a recordar Paris, o Rei do Sol, Judy Garland renasce na gravura, ícones dos anos 50 acompanham-na, um carrinho de bebé do azo dos Beatles, mobília branca e doirado, um cão de louça, espelhos cortados. Aquele terceiro andar na rua da Prata ultrapassa o imaginário.
O aviso está na porta: Glamour's Back Studio. Voltou, sim, o glamour, com a dançarina de burlesco de 26 anos, que outrora optou pelo striptease. O título do seu livro ‘Só Deus me Julgará' mora tatuado nas costas. De frente, e em todo o lado, a máquina fotográfica dispara e as imagens recebidas captam uma mulher bela a ficar encantadora.
MARIANA SCHOU: DO CHAPITÔ À ARTE DO BURLESCO
Mariana Schou nasceu em 1983, no Porto, iniciou-se em espectáculos de rua em 2004, enquanto terminava o curso de interpretação no Balleteatro Escola Profissional. No ano seguinte estagiou no Chapitô, projecto da mulher-palhaço Teresa Ricou em Lisboa, e integrou a Companhia de Animação residente, onde trabalhou por quatro anos. Desde então, Mariana Schou realiza diversos workshops na área circense, teatro e dança. A arte do burlesco foi a última aposta. É performer de dança burlesco desde Setembro do ano passado.
CAROLINE COMEÇOU A DANÇAR EM 2011, ANNIE BLANCHE EM 1950
Caroline Oulman é cantora e dançarina, nascida em Lisboa em 1983. Entre 2004 e 2007 estudou Ciências do Mundo, na Escola de Estudos Orientais e Africanos, na Universidade de Londres. Regressada a Portugal, nunca mais parou. Estreou-se na dança burlesco em Dezembro de 2011, muito depois de Annie Blanche Banks.
A americana que escolheu o nome artístico de Tempest Storm é a estrela burlesca que tem a mais longa carreira artística. Nascida nos Estados Unidos da América em 29 de Fevereiro de 1928, até 2008 continuava regularmente a fazer shows. Hoje em dia, a artrite só lhe permite actuar uma vez ao ano.
NOTAS
DITA
Fetichista assumida, a americana Dita Von Teese reinventou a estética pin-up dos anos de 1940 e 50.
MARTINI
Dita associa o burlesco ao striptease. Ela é protagonista do famoso banho num copo de Martini gigante.
LIVRO
O livro ‘Burlesque and the Art of Teese/Fetish and the Art of Teese' é o testemunho ilustrado de Dita.
MARILYN MANSON
Dita Von Teese foi casada com o músico norte-americano Marilyn Manson entre 2005 e 2007.
SHOW
Bastet Cabeleira cobra no mínimo mil euros por show. As bailarinas que com ela actuam, 200 a 250 euros.
ORIGEM
A arte performativa do burlesco remonta a 1600. Reapareceu no século XX, nos chamados ‘music hall'.
SÉCULO XX
Depois de 1945, o burlesco perde popularidade e só nos anos de 1990 ganha protagonismo, com Dita Von Teese.
PORTUGAL
O burlesco chegou a Portugal com Isabel Martins, que residiu em Londres, cidade onde aprendeu a arte.
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