Violência, roubos frequentes, gangs organizados, e ataques concertados contra a autoridade tornam a área da Amadora um pequeno inferno para os polícias. Visita guiada, ao longo de uma noite quase pacífica: não houve feridos.
Todos a conhecem como Sandrinha. A figura magra, o corpo desengonçado, a passada larga. Poucos minutos depois das onze da noite de sexta-feira e já aquela mulher jovem, de aspecto envelhecido, sai, decidida, do Bairro de Santa Filomena, no centro da Amadora.
A noite húmida e fria parece tirar-lhe a percepção do que se está a passar. No cruzamento da Avenida General Humberto Delgado com a Rua de Lourenço Marques, que dá acesso directo a um dos mais perigosos bairros de todo o concelho da Amadora, polícias e um grupo com perto de uma dezena de jovens trocam olhares, num ambiente de cortar à faca.
De um lado, a presença intimidatória das forças de autoridade. Do outro, os insultos como meio de escape de uma revolta acumulada desde tenra idade.
Parece uma cena de um filme de ‘gangsters’ americano, mas é real. Passa-se em Portugal, às portas de Lisboa, e com uma frequência cada vez maior. Neste caso concreto o alerta havia surgido minutos antes, via rádio.
Todos os carros patrulha de serviço nessa noite na área do Comando Metropolitano de Lisboa da PSP ficam a saber que viaturas civis estão a ser apedrejadas à passagem pela Avenida General Humberto Delgado. A origem do ataque foi rapidamente identificada. O alto do Bairro de Santa Filomena. “Não nos espanta. Há dias consecutivos que temos sido recebidos à pedrada de cada vez que nos aproximamos daquele local”, refere um agente da PSP, que prefere manter o anonimato.
Desta vez o reforço impõe-se. Um único agente, de patrulha mesmo junto ao bairro, é figura simbólica na tentativa de travar as agressões. Um grupo de jovens aproveita a escuridão para se esconder dos olhos inquisidores da Polícia, mantendo arremessos esporádicos contra a estrada.
O piquete de serviço é chamado, cinco agentes correm a ajudar o colega. No entanto, a pouco mais de 50 metros de distância, a animosidade continua a ser grande. “Filhos da p***! Vão-se embora daqui! Ninguém os quer cá!” Enquanto continuar pelos ataques verbais, os polícias vão permanecer no seu posto. No lado oposto estão jovens que, apesar da idade, já têm um cadastro pesado.
“A Rua de Lourenço Marques é conhecida pelo perigo constante que oferece a quem aqui passa. Os roubos são constantes. Os miúdos atacam em grupo, e não têm problema nenhum em, a qualquer hora do dia, agredir as pessoas com violência”, referiu o mesmo informador.
Os minutos passam, e a tensão mantém-se. Mas os arremessos param. À primeira vista, os agressores parecem ter desaparecido. Mas continuam lá. “Está a ver aquela roupa estendida”, pergunta um polícia ao repórter. “Eles estão lá atrás, apesar de não parecer”, garante.
A temperatura baixa ainda mais. E isso parece ter reflexos na situação. Quarenta minutos depois de terem chegado, os agentes do piquete de serviço retiram. Os ânimos aparentam estar mais calmos, e as ocorrências prometem rebentar noutros sítios.
Para trás ficam dois polícias. Sós, sem apoio. Numa comarca que, por si só, representa trinta por cento dos processos em investigação no Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP). “A devoção à profissão é extraordinária por estes lados”, garante outro interlocutor da PSP da Amadora.
DESCONTENTAMENTO
Porta-voz do descontentamento de muitos agentes, subchefes, chefes e até oficiais da PSP da Amadora, o presidente do Sindicato dos Profissionais de Polícia (SPP/PSP), António Ramos, manifesta a sua total oposição ao actual estado de coisas naquela Divisão da Comando de Lisboa da Polícia.
“O método de policiamento numa área tão complexa como é a Amadora está, neste momento, todo errado. Não se pode conceber que um agente ande a patrulhar sozinho zonas de bairros degradados, muitas vezes sem sequer ter rádios para comunicar com a central no caso de haver alguma ocorrência mais grave”, salientou o sindicalista.
A sustentar esta posição, argumenta António Ramos, estão variadas ocorrências em que os agentes “chegam até a ser feridos por não terem assistência quando se vêem obrigados a entrar numa zona difícil para fazer uma detenção ou realizar uma operação”.
CENÁRIO DE GUERRA
Palco frequente deste tipo de situações é o bairro do Alto da Cova da Moura, na Buraca. O fim-de-semana é, tal como no Santa Filomena, sempre altura de grandes dores de cabeça para a PSP. Na rua principal do bairro, o movimento é mais intenso depois da meia-noite do que durante o dia.
A média de idades de quem anda pela rua raramente ultrapassa os 20 anos. Grupos juntam-se pelos cantos, olhando com desconfiança quem se atravessa neste território em que, muito raramente, se consegue ver polícia. Os códigos de segurança são severos e parecem ser conhecidos por todos. Os estranhos, quer venham a pé ou de carro são anunciados com fortes assobios. É o sinal que eles arranjaram para anunciar a entrada da polícia.
E não é só no centro do bairro que o medo impera. O ambiente de gueto rodeia toda a área ocupada pela Cova da Moura. E são os próprios moradores das freguesias vizinhas da Damaia e da Buraca a sustentar que, para se viver aqui, “têm de se aprender certos truques”.
Exemplo disso é João (nome fictício) que se vê obrigado a passar de carro, à noite, ao lado da Cova da Moura. Os semáforos ficam intermitentes a partir da meia-noite. O sentimento de segurança é porém relativo. “Pessoalmente, ainda não me confrontei com isso. Mas conheço pessoas que já apanharam pela frente um homem de muletas, e sem perna, que de repente tropeça e cai no meio da estrada”, salienta.
O objectivo é bem claro. “Algumas pessoas, as que não conhecem esta realidade, saem do carro para o tentar ajudar. Quando reparam estão rodeadas por um grupo que para além de as agredir, ainda lhes rouba o carro e todos os haveres pessoais”, acrescenta o morador da Damaia.
Perante esta realidade a solução passa, segundo o presidente do SPP/PSP, por uma mudança de fundo . “A polícia tem, na nossa opinião, de ser visível. Não se pode andar pelas ruas do concelho da Amadora, e nem sequer se ver um agente”, conclui António Ramos.
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