Notícias e rumores influenciam a bolsa. Quem lá trabalha alimenta-se do stress e da agitação
Quem trabalha no mercado de capitais garante que a profissão tem tanto de stressante como de entusiasmante, mas em tempos de crise a falta de liquidez e a desconfiança dos investidores traz responsabilidades acrescidas a quem monitoriza acções frente a um ecrã. Transacções electrónicas e supercomputadores mais rápidos do que o cérebro humano substituem hoje a azáfama que durante anos ficcionou a imagem da bolsa, com homens enervados a agitar papéis na mão. As acções vivem agora num espaço virtual e global.
O local onde se senta Luís Laginha de Sousa, presidente da bolsa de Lisboa, na avenida da Liberdade, transpira tranquilidade. As transacções são feitas nas salas de mercados e as decisões dependentes da sede da NYSE Euronext. Desde 2007 que a bolsa de Lisboa integra um grupo onde estão também as bolsas de Nova Iorque, França, Bélgica, Holanda e a bolsa de derivados de Londres. No entanto, nem a dependência externa evita telefonemas em dias de crise. "Muitas pessoas ainda ligam para aqui a pedir para fazermos alguma coisa. Acontece em dias maus, pois quando há ganhos ninguém se queixa".
GESTÃO DE STRESS
O dia começa cedo numa sala de mercados: às 06h30 para os mais entusiastas. "Quem vem para aqui já tem grande apetência. Vêm de economia e gestão, mas já tivemos engenheiros e de outras áreas", diz Paulo Cruz, director da sala de mercados do Millenniumbcp. "Os nervos estão à flor da pele mas é compensador, todos os dias temos situações novas. Há uma informação, tudo muda e a cabeça tem de seguir essa indicação".
Rumores e notícias influenciam o mercado e "os clientes reagem ao primeiro indicador ", frisa. "Quando as fontes são redes sociais ou SMS há que ter cuidado, é algo que circula no mercado e pode ser desmentido. Na sala, estamos sempre a monitorar as agências noticiosas, Reuters e Bloomberg, pois tudo, mas tudo mesmo, pode significar alteração no mercado, mesmo que momentânea. E se estivermos atentos ganhamos margem suficiente para o cliente fazer ou desfazer negócio".
António Celedas, responsável pelo ‘research’ da mesma empresa, alerta: "Quando as notícias aparecem nos jornais já são história, quem sabia já actuou. E é preciso ter cuidado. Por exemplo, este ano a taxa de juro da dívida portuguesa tem estado a subir constantemente e obriga a actualizações constantes".
BOLHAS NA BOLSA
Apesar do alarme causado pela bolha do imobiliário e derivados financeiros, que originaram a crise que fez perder 25% da riqueza mundial, o importante é recuperar a confiança que alimenta os mercados, dizem.
"Neste momento, o sentimento de aversão ao risco aumenta. Pois um americano que perde 40% do valor da sua reforma e da sua casa, leva anos a voltar ao mercado. Mas é quando há receio que se deve entrar. Mau é quando não há riscos", frisa Luís Féria, responsável para a área dos mercados de acções do grupo. E recorda o ano 2000, quando a Bolsa era "um mundo cor-de-rosa. Dizia-se que íamos para um novo paradigma, sem riscos. Esses momentos antecipam um crash, pois quando todos querem significa que os activos estão inflacionados".
Celedas nota que "após a bolha tecnológica rebentar, concluiu-se que, em parte, foi resultado do mau comportamento de alguns analistas", pois havia despreocupação na forma como se justificavam os relatório de investimento. "Depois das multas tremendas de 2002, a CMVM (Comissão de Mercados e Valores Mobiliários) tem vindo a obrigar-nos a introduzir as normas criadas nos EUA e importadas para a UE: os telefones são supervisionados, há uma espécie de polícia dos mercados de capitais..."
Laginha de Sousa frisa que "quando se deu a crise de 2007, provocada pela falência do banco Lehman Brothers, os mercados regulados continuaram a desempenhar a sua função de encontro entre quem quer comprar e quem quer vender. Houve baixas de preços significativas dos instrumentos activos que eram transaccionados em bolsa, mas foi consequência da situação, não é algo imputável às bolsas. Quem queria comprar ou vender continuava a poder fazê-lo".
O MAIS ANTIGO
Abílio de Sousa, corretor desde 1968 "ainda por nomeação régia" graças a uma lei que datava da monarquia, lembra-se do tempo em que só os corretores podiam transaccionar acções "em mão" e as regras eram quase nulas. Muitas das empresas cotadas tinham sede nas ex-colónias, os clientes eram então bancos e particulares e, tal como hoje, os mais informados faziam bons negócios, lembra o actual presidente da Lisbon Brokers, Banco Carregosa.
"Empresas como a Companhia dos Diamantes, de Angola, eram cotadas nas bolsas de Lisboa e de Bruxelas, e fazia-se arbitragem: comprava-se ao preço mais barato e vendia-se onde estivesse mais caro. Ganhava-se logo com o câmbio e as autoridades fechavam os olhos. O próprio Salazar emitiu títulos da República Portuguesa com a condição de não serem transaccionados em Portugal. Mas os possuidores eram portugueses. Quem os ia lá comprar?... O Salazar sabia, o Marcelo Caetano também e mais um grupo pequeno, os informados, que faziam contas aos juros. Se houvesse problema, a responsabilidade era dos corretores", diz.
A democratização da Bolsa e os perigos associados aos investimentos de particulares sem cultura financeira surgiu nos 70. Aconteceu com a Torralta, empresa de construção civil, "que usufruiu de propaganda extra ao passar por cima das poucas regras de então. Essas acções davam também direito a ir de férias para o Alvor e para Tróia. E as pessoas compravam por causa das férias sem terem consciência de que estavam a investir na bolsa, depois misturou-se tudo" e a falência da empresa e das poupanças familiares veio com o 25 de Abril.
A sorrir, Abílio de Sousa lembra que a iliteracia financeira grassava e nem a iminência da revolução afastou os menos cautelosos. "Em vésperas do 25 de Abril, um elemento do MFA trocou o ouro que o pai lhe deixara por acções. A bolsa foi encerrada e perdeu tudo, claro."
Nos anos 80, a febre voltou e os particulares compravam acções como se jogassem no casino. Tal como hoje, a moda era importada dos EUA: "O mercado estava inflacionado e os bancos emprestavam dinheiro a qualquer pessoa. Entregavam-se ordens em bancos que não os correctos, ninguém percebia muito do assunto. Até houve a célebre frase de Cavaco Silva, então primeiro-ministro, quando disse que ‘andávamos a comprar gato por lebre’", conta.
A crise rebentou com o caso Pedro Caldeira, o corretor com mais clientes no mercado, que oferecia lucro rápido e vivia do mediatismo. Queixas acumuladas, actividade suspensa e denúncia de um buraco de um milhão de euros culminaram com a sua fuga para os EUA.
Abílio de Sousa, de quem Pedro Caldeira foi "discípulo", admite que "ele sofreu de falta de organização, comum também nos bancos daquela altura. Foi o primeiro Madoff da história".
SUPERCOMPUTADORES SUPERAM HUMANOS
No mundo digital que domina os mercados nem sempre é fácil escapar ao excesso de informação. Os supercomputadores, que debitam operações a alta frequência na bolsa de Nova Iorque, criam novos ‘investidores’, que só nos EUA geram 73% dos activos e superam os traders humanos, mais lentos.
"Há acesso a tudo, e vendo desvalorizações consecutivas, que o mercado não consegue acompanha, as pessoas têm de tomar uma atitude, para abrir saídas ou acalmar quem investe", explica Paulo Cruz, trader.
"É um dos problemas do mundo actual. Aconteceu recentemente em Nova Iorque, quando o mercado caiu 6 ou 7% num dia, com a venda massiva de determinado activo. O sistema ficou entupido com informação, que não conseguiu processar. O que víamos nos ecrãs não era a realidade e estávamos a vender sobre preços que não existiam. Isso provocou uma reacção em cadeia", diz. "É quase um rumor digital mas é permitido".
NOTAS
MULTAS
Em 2002, após a bolha tecnológica, os EUA criaram legislação, que foi transposta para a UE.
NOTÍCIAS
Notícias sobre o Orçamento de Estado reflectiram-se de imediato no PSI 20, principal índice português.
REVOLUÇÃO
Em 1974 a bolsa estava em alta. Para o dia 25 de Abril, o corretor Abílio de Sousa só tinha ordens de compra de acções.
QUEDA
No 11/9, Paulo Cruz lembra-se de olhar o computador e ver o mercado cair: "Há uma regra: em caso de dúvida, vende".
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