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O novo charme da favela

Estrelas do futebol, atores e arquitetos estão a mudar a face do Vidigal. Está a ficar caro morar ali.

01 de junho de 2014 às 15:00

A pacificação das favelas do Rio de Janeiro, acelerada agora por causa da realização da Copa do Mundo, não foi um processo fácil ou isento de polémica, mas deu alguns frutos, como este caso do bairro do Vidigal, na zona sul da cidade, entre o Leblon e São Conrado, sobre o Morro Dois Irmãos. A favela do Vidigal, que até ao ano 2000 era apenas morada de gente pobre, com o fim do tráfico de droga começou a atrair aos poucos outros moradores, como David Beckham.

O ex-jogador acabou de comprar uma casa no Vidigal, na favela que tem "a melhor vista sobre a cidade". Beckham, que esteve recentemente no Brasil a gravar um documentário para a BBC, apaixonou-se pelas vistas e pelo novo ‘charme’ dos morros. A casa terá custado 330 mil euros e nem tem grandes luxos, à exceção de uma grande varanda em madeira com vista para o mar. Não é caso único. No ano passado, depois de divorciar-se de Monica Bellucci, o ator Vincent Cassel mudou-se para o Rio de Janeiro, arranjou casa no morro do Vidigal e namorada mulata na comunidade. Agora são vistos a andar de motoreta nas subidas sinuosas do bairro, a trocar beijos nas vielas e vivendo a paixão nos recantos mais improváveis.

Mais ilustres fizeram o mesmo: os produtores James Cesari e Jorge Nasi – que têm planos para abrir um teatro, uma escola de moda e um bar no Vidigal –, o arquiteto Pedro Henrique de Cristo, a atriz Amanda Lira e o músico Otto, que há quatro meses acomodou-se no Vidigal, onde deu um concerto para a comunidade no primeiro dia que ali dormiu.

Outros abrem ali hotéis. O mais recente é o Mirante do Arvrão, que fica no ponto mais alto da favela e alberga os turistas que não se importam de subir por meios próprios os dois quilómetros da ladeira, percurso que, mesmo de moto, chega a demorar mais de meia hora.

A favela ganhou um ‘charme’ que não é alheio ao desordenamento, ao trânsito caótico, até à "dura poesia concreta" das suas esquinas e à "deselegância discreta" das suas meninas, como cantava Caetano Veloso. Pela primeira vez, a favela está livre dos gangs, graças às UPP – Unidades de Polícia Pacificadora. Saíram os marginais, chegaram os atores, os designers, os estrangeiros e os turistas. E as rendas subiram, claro.

UM MORRO COM HISTÓRIA

O Vidigal é, por si só, um cartão postal. É atrás do bairro que o sol se põe no Rio, perante o olhar deleitado dos turistas de Copacabana e Ipanema. Tem uma praia quase particular. É a preferida dos artistas. Alimenta-se da riqueza dos bairros vizinhos e tem o maior rendimento per capita das favelas (538,9 euros mensais contra os 370 euros da vizinha Rocinha).

No Vidigal, os ventos sempre foram de mudança. Desde o surgimento dos primeiros casebres, em 1911, a favela batizada com o nome de um guarda real da Polícia da Corte, Miguel Nunes Vidigal, proprietário das terras, transformou-se profundamente. A segunda vaga de barracas veio em 1922, com a inauguração da avenida Niemeyer. Nos anos 50 tinha 1274 moradores. O crescimento de Ipanema e do Leblon levou à necessidade extra de mão de obra e consequentemente à explosão demográfica no Vidigal, nos anos 60. Depois, porque ocuparam a melhor área da cidade, vieram as tentativas de demolição, seguidas de episódios de forte resistência, dos quais os moradores se orgulham até hoje. Durante os anos 70, o apoio da Pastoral de Favelas e de artistas como o músico Sérgio Ricardo, morador do Vidigal desde então, ajudou a travar os desalojamentos. O edifício onde vive é conhecido como o "prédio dos artistas" e já abrigou Gal Costa e Lima Duarte.

A vocação artística da favela vive também do grupo de teatro Nós do Morro, que ali formou gerações de atores. Os mais conhecidos são Thiago Martins, Roberta Rodrigues e Jonathan Haagensen — que ainda moram no Vidigal. A década seguinte foi marcada pelo aumento da droga e dos conflitos entre fações criminosas. Em 2006, 15 pessoas foram assassinadas. Os moradores chamaram-lhe "o tempo da guerra"...

Mesmo assim, o Vidigal nunca deixou de atrair curiosos. Antes mesmo da pacificação, a sua valiosa localização já chamava investidores. Apesar de muitas zonas ainda não terem saneamento básico ou recolha de lixo, o preço do metro quadrado pode agora chegar aos 1977 euros (o preço médio no Rio de Janeiro é de 3800 euros). Há três anos as rendas eram cinco vezes mais baixas, tal como os preços no comércio do bairro. Por isso, muitos moradores já não conseguem arcar com as despesas e estão a mudar-se para outras favelas. A especulação está a mudar o perfil do bairro. Chegam os forasteiros, vai-se embora a comunidade que, garante quem lá vive, é o que torna o bairro especial.

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O exercício de criatividade atrai cada vez mais arquitetos, ansiosos por lidar com as vias sem saída, os espaços diminutos, ventilações e distâncias mínimas entre as casas. Hélio Peregrino, arquiteto que se mudou para o Vidigal, defende que daqui a uns anos, quando as pessoas começarem a remodelar as casas, o Vidigal tem tudo para ser como "Positano ou Santorini, uma espécie de pitoresca vila mediterrânica debruçada sobre o mar". E para ser tanto ou mais cobiçado.

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