O antigo alto-comissário para a Imigração não quer falar da família: preocupação que emerge da criação do seu partido, o MEP – Movimento Esperança Portugal. Ainda assim, falou. Rui Marques conta que o padre Vaz Pinto sempre o puxou para cima e que a sua actual mulher o acompanha profissionalmente nos últimos anos. Determinado, diz ainda ter perfil de líder.
Quem era o Rui Marques que, em 1991, surge de um dia para o outro no barco ‘Lusitânia Expresso’ a querer entrar em Timor?
Era um jovem de 28 anos que se batia por uma causa: Timor-Leste merecia uma oportunidade para encontrar a liberdade. Era um recém-licenciado em Medicina e era o director de uma revista de estudantes que acabava de nascer.
Uma atitude provocadora?
A intenção da ‘Missão Paz em Timor’ era colocar Timor na agenda internacional. E nesse sentido era provocador, provocávamos os indonésios e a Comunicação Social internacional, que mantinha um grande silêncio sobre Timor. Aliás, o ‘Lusitânia Expresso’ foi a primeira vez que Timor-Leste entrou na CNN. E isso simbolicamente é muito importante.
A CNN tinha sido convidada…
A missão era constituída não só por estudantes, mas também por alguns convidados notáveis e por jornalistas nacionais e estrangeiros. Entre os quais, o correspondente da CNN, porque evidentemente estavam americanos a bordo.
Como conseguiu reunir tudo isso?
Fui atrás de um sonho.
Como? Onde conseguiu dinheiro?
O projecto foi desenhado inspirado claramente no modelo de intervenção do Greenpeace e nos movimentos estudantis em grande parte do mundo. Claro que foi preciso dinheiro e esse foi um dos grandes riscos que corremos quando iniciámos a missão. Não tínhamos meios financeiros necessários para toda a dimensão. E aí usámos diferentes formas de financiamento: houve grandes campanhas de estudantes em várias universidades para recolher donativos, mas também de empresas portuguesas que apoiaram. E apoio também do Estado português – que na altura, evidentemente, não podia ser público.
A Igreja também apoiou?
Em relação a Portugal a Igreja não foi protagonista. Os principais protagonistas foram as associações de estudantes do Superior e algumas personalidades que nós convidámos.
Trabalha sempre por objectivos?
Sim. A minha vida é feita de missões – em que tenho objectivos muito claros e reúno os meios (humanos, financeiros, de vontade) para concretizar essas missões.
Por orgulho pessoal?
Não creio. Acho que porque a minha passagem pessoal pelo Mundo deve ser um contributo para deixar o Mundo um bocadinho melhor do que encontrei.
Envolveu-se no acolhimento de crianças bósnias, em 1992; como vê hoje a independência do Kosovo?
Com muita preocupação. Os Balcãs exigem muito bom-senso e capacidade negocial para ir construindo soluções pacíficas. Eu preferia que fosse um processo mais lento, mas mais consistente.
Onde conheceu a sua mulher?
Já há bastantes anos, aqui em Lisboa no Centro Universitário Padre António Vieira – ao qual estive ligado.
Estiveram sempre em iniciativas conjuntas?
A partir de determinada fase sim.
Já namoravam?
Não. Fomos amigos durante muito tempo, antes de termos uma relação mais próxima.
Correu atrás desse amor?
Agora que tenho este grande desafio de estar na esfera pública, quero separar a vida da pública. Tenho hoje uma família da qual me orgulho, mas vou preservá-la.
Da infância fala?
Longinquamente: onde nasci, de quem descendo...
Qual foi o momento mais marcante da sua infância?
Provenho de famílias relativamente humildes, pescadores da Ericeira e de Sesimbra. Mas são famílias muito sólidas, fortes. O momento marcante tem a ver com a atitude que sempre existiu em minha casa, de solidariedade. Recordo a experiência de, aos seis anos, ver o meu pai envolvido como visitador de prisões e a minha mãe preparando bolos para os presos. E eu acompanhei o meu pai numa das visitas de Natal.
Durante a adolescência teve noção da emigração?
Não. Eu nunca tive contacto próximo com a emigração, sim com a pobreza, com recursos escassos.
Fome?
Necessidades muito sérias, mas na geração dos meus avós.
Fez-se ao mar com o seu pai?
Ele já estava na fase seguinte, era empregado de escritório. Mas o mar sempre foi uma grande atracção para mim.
Conhece algum pescador com quem possa ir à faina?
Continuo essa relação com algumas traineiras de Sesimbra. Tenho também familiares que ainda são pescadores.
Por ser formado em Medicina, daria uma consulta benemérita?
A bem da saúde do utente, não. Só me resta aquilo que me motivou a ir para Medicina: a ideia do serviço.
Preferiu fazer mestrado em Ciências da Comunicação; é o diálogo a melhor arma?
Sim, o diálogo é muito importante. Fiz várias coisas na vida mas sempre o mesmo: independentemente dos campos de intervenção, dos contextos específicos, sempre intervim convicto de que ia lutar por um Mundo mais justo.
E quando tem de arregaçar as mangas, o que é que faz?
O que for considerado útil e necessário. Se quiser, a minha característica essencial é de um gestor, de um líder, de uma pessoa que desenvolveu através da experiência – porque fui aprendendo com muitos outros – a capacidade de conceber, montar, gerir e avaliar projectos.
É muito autoconfiante não é?
Não confiança em mim próprio – é um tema difícil de explicar. Sou muito determinado. Quando tomo uma decisão e devo fazer um determinado caminho, faço – e para explicar isso é preciso descodificar a minha dimensão de fé e de confiança em Deus. Não sou propriamente autoconfiante mas tenho uma profunda confiança em Deus.
É católico praticante?
Sim. Sou um homem que acredita em Jesus Cristo, que se sente cheio de falhas e de defeitos – pecador, na linguagem dos católicos – mas que se sente profundamente amado por Deus.
É protector da família…
Tenho uma vida familiar importante. Já longa, com dois casamentos; com quatro filhos; e com grande investimento.
Quando casou pela segunda vez?
Desse casamento tem duas filhas?
Duas; uma com nove e outra com dez anos. E mais dois filhos do primeiro casamento, ela tem 18 – também está a estudar medicina – e ele 16.
Em que ano se tinha casado?
Mantém-se próximo então?
Não quero entrar em pormenores.
Foi adjunto no ACIME do padre Vaz Pinto; onde se conheceram?
O padre Vaz Pinto é um amigo que conheci em Coimbra, em 1982, no Centro Universitário Manuel da Nóbrega, onde estudei dois anos da Faculdade.
Acabou o curso em Lisboa?
Sim. E continuei a trabalhar com ele – coincidiu a nossa vinda, – no Centro Universitário Padre António Vieira. Depois na Renascença, na constituição do Banco Alimentar Contra a Fome, nos Leigos para o Desenvolvimento e, depois, na Imigração, convidou-me para alto-comissário adjunto. É um grande amigo.
Ele puxou-o sempre para cima.
Puxou-me sempre para cima. No sentido de puxar para ser mais perfeito, servir melhor o bem comum.
O Rui Marques que agora anunciou entrada na política é profundamente ajudado pelo padre Vaz Pinto?
Por muitas pessoas, também por ele.
Quem são?
São pessoas que estão envolvida com o projecto Fórum desde o início – e que fazemos juntos um caminho já há 16 anos. Eu sou, em certa medida, resultado de um conjunto de influências de pessoas com quem me fui cruzando.
Que Mundo é este que discrimina pessoas em função da cor da pele, etnia, que maltrata os imigrantes?
É a natureza humana que vem, provavelmente, já desde que o homem é homem e que tem esta dificuldade e esta incapacidade de se relacionar com o outro numa base de igualdade, fraternidade, de respeito. Mas também faz parte da natureza humana a capacidade de construir pontes, de ser solidário, de reconhecer a igualdade para lá da diferença, perceber que é mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa.
Além das estatísticas, de que serviu o Observatório da Imigração (OI)?
Muito mais do que estatísticas, o OI foi fundamental porque produziu, ao longo de seis anos, um conjunto de estudos diversificados. Ajudaram a entender vários níveis do fenómeno da imigração. E a destruir mitos: que a relação entre emprego e imigração não faz nenhum sentido; também não faz sentido uma relação entre criminalidade e imigração; ou o saldo positivo de 300 milhões de euros que os imigrantes têm para as contas públicas portuguesas.
Por que não cumpriu o mandato de alto-comissário?
Porque, no primeiro semestre de 2008 – o mandato terminava no Verão, – definiam-se as grandes prioridades de investimento na imigração até 2013 e, não sendo eu o alto-comissário que iria até 2013, seria politicamente indecente definir prioridades. Por isso, pedi ao ministro da Presidência que antecipasse o final do meu mandato.
Qual é o seu balanço deste mandato?
Só posso dizer que, ao longo destes seis anos, me senti muito realizado ao serviço da causa da integração dos imigrantes em Portugal. E creio que se avançou muito.
Na investigação que fez para o seu ‘Uma Mesa Com Lugar para Todos’ alguma vez se sentiu revoltado pelo facto dos imigrantes serem discriminados no acesso ao trabalho e, por isso, limitar a forma de subsistência deles próprios e até de famílias?
A injustiça sempre me causou revolta, mas procuro canalizá-la para uma acção eficaz de transformação da realidade. Tenho sempre presente uma frase da Amnistia Internacional: “mais vale acender uma vela do que lutar contra a escuridão”.
Apoiou Freitas do Amaral nas Presidenciais de 1985; Porquê?
Na altura, existia uma comissão nacional de juventude que tinha uma composição tripla: pessoas indicadas pela JSD; indicadas pela juventude centrista; e independentes. E eu fui convidado como independente. Foi uma experiência tão intensa que até parei um ano de estudar na Faculdade.
Manteve sempre uma ligação aos partidos de direita?
Não porque eu, realmente, nesse sentido, nunca tive participação partidária. E sempre tive a mesma posição política. Eu defino-me como uma pessoa do centro.
Centro-direita?
Centro. Já lhe explico adiante. O professor Freitas do Amaral sempre foi considerado, como fundador do CDS, uma pessoa de direita. Não é uma pessoa de direita. Também é um centrista. Mas as vicissitudes da política empurraram-no para a direita e à direita ficou.
Que ligação manteve com ele?
Mantive uma boa relação. Embora tenhamos trajectos de vida diferentes. E ainda hoje é uma pessoa com quem tenho uma boa relação e que respeito.
Ele teria espaço no Movimento Esperança Portugal (MEP)?
O professor Freitas do Amaral já disse que a vida política dele terminou. Além disso, o MEP nasce como o projecto de uma nova geração, pessoas sem história de participação político-partidária.
Desde quando tem ambições políticas?
Políticas sempre foram, partidárias é que só a partir da constituição de um partido político. A decisão final foi tomada há um mês, num processo de reflexão que vem desde o Verão passado.
E de onde vem o dinheiro?
Creio que a questão financeira, dos recursos, dos meios, sendo importante, não é de todo essencial.
A Igreja financia ideias suas?
A Igreja é um conjunto de pessoas que acreditam num Deus e que procuram construir a sua vida a partir dessa fé. A resposta à sua pergunta é não. Não, a Igreja não tem nenhuma relação concretamente com o projecto actual nem com projectos anteriores, como o Alto Comissariado. Não tem nenhuma implicação de recursos, de financiamento, nem de pessoas, ou de ordens, nem de orientações. Nenhuma, rigorosamente.
Já ficou desempregado?
Hoje estou desempregado. Desempregado no sentido que não tenho uma actividade profissional comum, porque estou a investir parte da minha vida na construção deste projecto do MEP.
A Fórum Estudante paga-lhe algum ordenado?
Actualmente não. Mas voltamos à minha vida privada que não é tema.
Por que ocupa um escritório na sede da Fórum Estudante?
Porque o MEP não tem espaço ainda, é um projecto muito inicial. E porque tenho esta relação histórica com a Fórum, eu sou um dos accionistas.
Quem vai sempre consigo para todo o lado?
A Francisca, a minha mulher. Neste último projecto, também no do ACIME, na construção do Centro de Timor. Depois há um conjunto de outras pessoas que me acompanham sistematicamente noutros projectos, mas também muitas outras que se vão juntando.
Há quem o acuse de viver à conta das causas nobres, como reage às acusações?
Tenho 24 anos de treino a reagir a essas acusações. É muito interessante lembrar-me quando foi o ‘Lusitânia Expresso’ que já diziam: “amanhã vai ser secretário de Estado, amanhã vai ser ministro, quer é tacho”. E sempre fui fazendo a minha vida.
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