Em ‘Capitão Falcão', um super-herói lusitano ajuda Salazar a derrotar todos os inimigos do Estado Novo.
A vida de um ditador é tudo menos fácil. Que o diga António de Oliveira Salazar, que conduziu o destino do país com um regime que durou 48 anos, enfrentando em cada época diferentes e poderosos adversários. E se Salazar pudesse ter contado com um super-herói? Por exemplo, um militar de bigodinho, com o bélico nome de Capitão Falcão, e a missão de vida de defender Deus, Pátria e Família, a trilogia sagrada dos Valores do Estado Novo?
Pois é desta premissa que parte o filme ‘Capitão Falcão', uma fantasia histórica em que Gonçalo Waddington e David Chan Cordeiro são Falcão e Puto Perdiz, dupla infalível para um ditador que faz tudo pelo sossego e pela paz pública do País.
"Falcão não olha a meios para atingir os seus fins, que são a proteção do Estado Novo, custe o que custar. A defesa do bom nome, de Portugal, de Salazar, dos bons costumes e da religião estão acima de tudo, e o Capitão Falcão não conhece barreiras éticas ou morais que possam travar a sua ação", explica Gonçalo Waddington, o protagonista. David Chan Cordeiro, ator, duplo e autor das elaboradas coreografias de luta que acontecem a todo o momento, transforma um rapaz da Mocidade Portuguesa numa máquina infalível. "O Estado Novo tem muitos inimigos, mas os mais ameaçadores são três: os comunistas, os capitães de Abril e as femininistas. Pescadores, operários e estivadores, peritos em armar sarilhos, são outros adversários menores, que Falcão e Perdiz esmagam."
SÁTIRA HISTÓRICA
A realização do filme está a cargo de João Leitão, um dos autores da série televisiva ‘Um Mundo Catita' - que contava, de forma muito livre, a vida do peculiar artista Manuel João Vieira. Para o realizador e coautor do argumento (com Núria Leon Bernardo), o filme é uma oportunidade para fazer algo que os portugueses raramente praticam: rir da nossa história. "Ainda não percebi por que é que em Portugal podemos gozar à vontade com o que se passa na atualidade, mas passados 20 anos tudo é contado como se tudo tivesse sido um mar de rosas. Os ingleses têm essa capacidade autocrítica, veja-se os casos das séries ‘Allo Allo' ou o ‘Blackadder'. Em Portugal não se pode mexer no passado. Veja-se os Descobrimentos, parece que foram todos uns heróis, que nunca fizeram nada de errado. Esquece-se que os portugueses têm uma capacidade histórica de fazer mer**, diz à Domingo João Leitão.
José Pinto, ator que faz um Salazar tão parecido com o ditador que até o próprio se diz impressionado ao ver-se ao espelho, confessa que, quando recebeu o guião, ficou preocupado. "Pensei que se aceitasse fazer este papel teria de arranjar seguranças para sair à rua. Mas o guião é muito divertido e o elenco é fantástico. Salazar é aqui um homem bem mais divertido do que era, na realidade, o Presidente do Conselho." José Pinto tem 84 anos e lembra-se bem do que foi o Estado Novo. "É bom que as novas gerações saibam o que aconteceu neste país e este filme pode ajudar." Gonçalo Waddington tem 36 anos. Nasceu depois do 25 de Abril, mas sabe bem o que ficou para trás. "Até sei a música da Mocidade Portuguesa: ‘Lá vamos cantando e rindo, levados, levados sim...' Sei que há quem tenha saudades, mas muito desse saudosismo é fruto da propaganda do regime. Dizer que na altura de Salazar estava tudo bem ou que a economia portuguesa estava muito melhor são grandes mentiras. Hoje em dia, felizmente, ainda se vai podendo dizer que Portugal está no charco. Naquela altura, se dissesses na rua que o País estava na miséria, eras preso e espancado."
HONG KONG STYLE
João Leitão não acredita que alguém confunda a sátira que pretende fazer com um elogio ao regime salazarista. Em ‘Capitão Falcão' tudo é exagero e caricatura, mas o trabalho foi levado muito a sério. "Uma das coisas que se destaca neste filme é a parte da ação. Quando mostrei o guião ao David Chan, dei-lhe carta branca para fazer o que quisesse com as cenas de luta e o resultado foi muito para lá do que eu poderia imaginar." Vilões que atravessam paredes, quedas de 15 metros, e muita, mesmo muita pancadaria, coreografada ao pormenor, foi o que David Chan e a sua equipa de duplos da Mad Stunts trouxeram ao projeto.
"Pela primeira vez pudemos pensar de raiz todos os pormenores das lutas. Trabalhámos nas coreografias durante dois meses. Como o filme se passa entre os anos 1960/70 adotámos um estilo muito em voga nos filmes da época, o Hong Kong Style, do qual Bruce Lee foi um dos grandes impulsionadores", explica David Chan, que é perito em artes marciais.
Gonçalo Waddington teve de trabalhar "a endurance e a flexibilidade" para aguentar tantas horas de filmagens, em que os gestos são repetidos vezes sem conta até se conseguirem cenas épicas de luta. Coisa que o realizador gostava de ver na vida real: "Bem que precisávamos de alguém para distribuir porrada a quem nos governa. Esta coisa do ‘povo de brandos costumes' é uma ilusão, inventada precisamente pelo Estado Novo."
BAIXO ORÇAMENTO
Diz António Pedro Vasconcelos que o grande talento de que um cineasta precisa em Portugal é saber onde buscar dinheiro para filmar. Esta produção da Individeos não escapa à sina da escassez. ‘Capitão Falcão' esteve para ser uma série de TV. "Apresentámos a ideia às televisões em 2009. A RTP foi quem esteve mais perto, mas, pior do que dizer não, andaram anos a dizer sim mas sem nunca avançar realmente. Tirámos o filme da gaveta. Não temos subsídios, toda a gente está a ganhar menos do que devia, mas esperamos que o filme - com distribuição garantida pela ZON - possa trazer receitas que paguem a equipa de 40 pessoas", conta João Leitão.
Com estreia prevista para o final de julho de 2014, ‘Capitão Falcão' promete muitas cabeças rachadas. Sobretudo as dos comunistas.
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