Da origem da alcunha à relação conflituosa com o pai - que o entregou às autoridades. Passou mais de metade da vida na prisão.
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[Texto originalmente publicado na revista Domingo em novembro de 2014, recuperado no dia da morte de 'Siga']
iga’, o rei da Pasteleira, passou uma vida atrás das grades. Aos 30 anos, já leva mais de 12 na cadeia. "Quase vinte", corrige o jovem que recentemente, fruto da libertação, regressou ao bairro que o viu crescer, no Porto. Soma à prisão os anos que passou em institutos de reinserção e diz que nunca foi um homem livre.
Nem o é hoje, no bairro onde os olhares se confundem, quando com os vizinhos se cruza na sua rua. Há o medo e a admiração. A raiva e o terror.
"Gostava de ter uma vida. Um emprego, uma família, que fosse tudo diferente", diz o rapaz que garante querer ser tratado por Bruno, mas que no Facebook surge como ‘Siga’, o rei. ‘Siga’, cujo nome nasceu das fugas à polícia - ‘siga’, ‘siga’, gritavam os moradores que protegiam o menino franzino que gostava de roubar carros – está agora em liberdade.
Por pouco tempo?, perguntamos a ‘Siga’, que encolhe os ombros. Fala em perseguição da polícia e diz que não tem medo. ‘Siga’ ou Bruno já foi apanhado sete vezes depois de ter cumprido a segunda pena por roubos. Sempre por conduzir carros ou motos sem carta de condução.
"Mas sempre pelo mesmo polícia", explica-nos, garantindo que é um alvo preferencial dos agentes da esquadra da Foz. Fala mesmo em ajustes de contas, dívidas passadas e nunca saldadas. Diz que ainda recentemente foi alvo de uma tentativa de homicídio: "O polícia veio contra mim, não se importou de me pôr em risco. Quase morri."
EM CASA DE 'SIGA'
No apartamento da Pasteleira faltam alguns vidros. A casa está limpa, mas sente-se
no ar o peso das mágoas de outros tempos. ‘Siga’ divide o espaço com o pai, o mesmo que aos 11 anos o atirou para o primeiro centro de acolhimento.
"Deram-me um rádio roubado à porta da escola. Mostrei-o ao meu pai e ele chamou a polícia. Acusou-me de ser ladrão."
‘Siga’ garante à ‘Domingo’ que estava inocente. Nada sabia sobre roubos, apenas o gosto dos carros já lhe mudava a vida. "Quando no tribunal disseram ao meu pai que eu ficava internado, ele entrou em pânico. Quando chamou a polícia nunca imaginou que depois seria assim."
Hoje, Bruno diz que tudo poderia ter sido diferente. Garante que gosta do pai, mas a tensão entre ambos é latente. Bruno não lhe perdoa o primeiro internamento e, recuando ainda mais no tempo, não lhe perdoa tê-lo tirado da casa dos avós, aos quatro, cinco anos. "Podia ter sido alguém. Tenho primos que até tiraram um curso superior. Eu fiquei aqui", lamenta.
Na casa sem janelas do bairro da Pasteleira rapidamente se instala a confusão. O pai de Bruno está visivelmente alcoolizado, o passado confunde-se com o presente nas acusações. O mais velho reclama que o único sustento da casa é ele próprio; o mais novo encolhe os ombros e pergunta: "quando comecei a roubar quem é que vendia as coisas que eu trazia para casa?"
A maior culpa deste pai é o internamento. Foi aí – diz Bruno – que encontrou o passaporte para a desgraça. "A cadeia foi uma coisa muito mais pacífica. Aí ao menos havia regras e respeito. Nos centros de acolhimento não, aprendia a roubar e a drogar-me. Tornei-me bandido", continua o jovem, que parece não ter vergonha de contar as suas ‘façanhas’.
"Roubei um carro-patrulha quando tinha 11 anos porque estava ali à mão. Era um miúdo, não sei o que me passou pela cabeça. O polícia deixou as chaves, fui dar uma volta. Nunca fiz para provocar." Ao carro-patrulha seguiu-se um autocarro. E centenas de carros das mais variadas gamas. Em todos os pontos do País, os alvos eram escolhidos nas imediações dos colégios onde o Estado o internava. "Fugia de carro. E trazia-o, se tivesse gasolina, até à Pasteleira. Ou arranjava outro se o combustível acabasse."
Bruno foi preso quando tinha acabado de fazer 16 anos. "Tinha feito há um mês", explica, dizendo que não "teve juízo". "Um grande amigo meu que andava comigo ainda hoje nunca foi preso. Deixou os crimes aos 16 anos."
Bruno garante que não tinha outros objetivos. Ou perspetivas: "A maioria dos meus amigos dos colégios foi presa. É este o nosso caminho, a nossa sina."
Aos 15 anos, numa entrevista a um jornal diário, quando a fama de ‘rei de Pasteleira’ o tornava um adolescente invencível, ‘Siga’ disse que tinha o sonho de roubar um avião. Hoje explica-o: "Queria pilotar um avião e despenhar-me em cima de uma esquadra da polícia. Acabar com a autoridade. Matar e morrer", conclui.
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