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MICRONOVELA

Refúgio Proibido Um refúgio. Dois corações. Mil segredos.

Os mestres do quiz

Realiza-se este ano o primeiro campeonato nacional do jogo que enche bares de animação.

04 de outubro de 2015 às 13:00

Onde ficam os ilhéus de Langerhans?" ou "qual a semelhança entre o pato Donald, a rainha de Inglaterra e uma flor?". São o tipo de perguntas que facilmente podem aparecer num quiz, jogo que anda a conquistar os noctívagos portugueses e que este ano até vai ter, pela primeira vez, um campeonato nacional.

Existem vários tipos de quiz, mas no essencial são perguntas de cultura geral lançadas por um apresentador/autor (na gíria chama-se ‘quiz master’) e respondidas, escrita ou oralmente, por equipas de cinco a seis pessoas. No quiz tradicional, o apresentador corrige e vence a equipa que tiver mais respostas certas, claro. Se for a variante cascata, as respostas são em tempo real, oralmente e a eliminação faz-se por rondas. Podem ser temáticos, mais ou menos populares. Tudo isto entre copos, cigarros, saudável discussão e descontraída cumplicidade.

Uma pergunta quase sempre traz rasteiras e pode dar pano para mangas em argumentação. Celebram-se os bons resultados e afogam-se os maus em copos e gargalhadas. Por isso, há cada vez mais bares a acolher os adeptos  do  quiz. Quem joga regularmente diz que é um vício. Mas não desgraça ninguém: paga-se um euro para entrar (reverte para o apresentador e autor) e a regra é não haver prémios monetários. Geralmente, os sabichões são premiados com a oferta do consumo da noite.

A ideia já não era inédita, tendo chegado a Portugal pela mão dos britânicos, mas foi Júlio Alves o responsável pela organização do primeiro quiz português em 1998. Habituado a jogar em inglês num bar do Cais do Sodré, percebeu que havia mais quem quisesse fazê-lo na língua de Camões. "Além disso, os ingleses têm uma atitude diferente dos latinos e o tipo de perguntas também é diferente", recorda. Deitou mãos à obra e pôs o primeiro jogo a correr num bar da Madragoa, o Cha cha cha, do qual era gerente.

O sucesso foi imediato, ao ponto de meses depois ter passado a ser bissemanal: "Chegavam a estar 100 pessoas a jogar por noite, o que era uma loucura, porque o espaço era pequeno". Depois abriu o seu próprio bar e atualmente organiza e apresenta três eventos semanais, no Vaitnot em Alvalade, no Al Café, na Estefânia, e num bar inglês da Baixa, o George.

Vive do quiz, sem torneiras de ouro em casa, claro, mas com o coração naquilo que faz: "Conhecem-se muitas pessoas com uma cultura geral acima da média ou que querem saber mais. Gente interessante e descontraída. As perguntas dependem da inspiração: há dias em que só de olhar para o tecto tiro duas ou três, noutros posso estar a olhar para um texto complicadíssimo e não tirar nada. Mas o desafio também passa por aí. E as melhores perguntas são aquelas que mesmo sendo difíceis dão a possibilidade de quem não sabe lá chegar. E as piores são aquelas que deixam as pessoas sem saber do que estamos a falar".

Ana Campos, 44 anos, bolseira de doutoramento em Estudos Artísticos, joga quiz todas as semanas na Sociedade de Instrução Guilherme Cossoul.  Agradam-lhe os momentos de "saudável convívio com amigos e uma oportunidade como há poucas de ir conhecendo pessoas novas e alargando conhecimentos".

Mas a grande mais-valia tem que se lhe diga: "não reside tanto nas perguntas mas nas discussões que elas suscitam. Há perguntas surpreendentes todas as semanas como por exemplo, saber qual o maior país com um único fuso horário. E todas as semanas falhamos inúmeras perguntas óbvias". No plural, porque é um jogo de equipa e todas as respostas são da responsabilidade de todos. "Ironicamente, isso acontece por se tratar da nossa área de conhecimento e termos excesso de conhecimentos (por exemplo, lembro-me da pergunta sobre ‘quem é o Shakespeare francês’), por stress devido ao tempo ou por haver opiniões divergentes na equipa não chegámos a um  consenso", assume Ana.

João Torgal, de 32 anos, é jornalista. Começou por jogar em Lisboa, com amigos, pelo convívio e a possibilidade de "fazer uma coisa aliciante enquanto estava no café". Depois foi trabalhar para o Porto e sentiu falta dos seus serões de quiz. Não foi de modas. Como não havia oferta na Invicta, decidiu tomar a dianteira e começar a organizar os encontros no Breyner, na Cedofeita. Logo à primeira teve casa cheia. "Chegávamos a ocupar todo o espaço interno e externo do bar", conta. Depois passou a apresentá-los também em Braga, às terças e, mais tarde, reativou "um quiz que já existia em Coimbra mas estava parado". Agora que está de regresso a Lisboa, assegura as quintas-feiras no bar O das Joanas, no Intendente.

Adora a adrenalina de apresentar. "Às vezes há discussões acesas por pequenas coisas.  Convém que não haja erros nas perguntas nem na correção, senão vamos ser contestados, sobretudo quando há duas equipas de jogadores muito renhidos", ri. Além disso, tem de estar sempre de olhos postos na batota, que é como quem diz, nos telemóveis. É que aqui não é preciso ser um craque, basta gostar do jogo e de estar informado. "É essa a explicação do sucesso disto. Qualquer um, de qualquer área de formação ou idade, pode jogar".

Gonçalo Pereira descobriu o quiz em 2006, numa visita ocasional ao cineteatro A Barraca, que na altura tinha um jogo semanal. Aos 40 anos, o técnico de continuidade fez do jogo um hábito de diversão, mas atualmente prefere o modelo cascata por ser mais competitivo, estimulante e acontecer em tempo real. "São características inerentes ao ser humano:  a curiosidade e a competição. E que o fazem evoluir enquanto pessoas e enquanto espécie".

O quiz cascata, o mais famoso e apetecível dos modelos, junta semanalmente dezenas de compinchas na Academia Recreativa da Ajuda ou na Sociedade de Instrução Musical Libertada (Belém) para noites que, garantem, são de diversão inteligente. "Muitos putos vão para a noite e depois dos copos nem sabem muito bem o que fizeram. Aqui não. É uma alternativa saudável e inteligente". Quem o diz é outro dos veteranos e um dos mais experientes ‘quiz masters’ portugueses, António Pascoalinho, professor de audiovisuais, 54 anos.

Joga desde os primórdios, ou seja, 1996. Era inevitável tornar-se um ‘master’. "O meu estilo é um bocadinho mais popular. Posso envolver adivinhas, fotos de filmes, personagens da Disney. Foi essa diferença que me fez avançar", recorda.

Mensalmente, Pascoalinho  elabora entre 700 a 800 perguntas. "Isso significa 8 a dez horas de trabalho extra por semana", garante o apresentador que assegura a festa na Guilherme Cossoul, no Magic Pool Bar e ainda em eventos especiais, como festas de empresas e privadas.

Neste último caso, "é possível adaptar os quizes" ao gosto dos clientes e dos seus convidados. Para se inspirar, passa regularmente revista ao seu escritório, onde guarda milhares de livros, e por sites fidedignos: "Todas as questões têm de ser confirmadas pelo menos duas vezes. É a regra". Mesmo assim, existem aqueles que mesmo estando errados estão convictos do contrário e argumentam a alto e bom som. "Mas nós já temos uma almofada para isso", explica.

Apesar de ter surgido nos anos 90, só este ano acontecerá o primeiro campeonato nacional de quiz, no Instituto Superior Técnico com a participação de 16 equipas. Autênticos profissionais deste ‘métier’. No entanto, garantem os especialistas, "há cada vez mais gente nova a aparecer" . 

Por isso, qualquer um vai a tempo. E antes de se pôr ao caminho, já agora, fique a saber que os ilhéus de Langerhans ficam no pâncreas, e não no oceano Pacífico ou no Hemisfério Sul. Já a rapariga que tem tantas ligações ao pato Donald como à rainha de Inglaterra é a Margarida. Fácil… mas ainda assim capaz de garantir um naipe bastante interessante de respostas ao lado e boas gargalhadas a quem se atrever a experimentar.

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