A questão da pedagogia da palmadinha gera sempre alguma controvérsia. Há pais que julgam que ela ajuda a educar e outros que defendem que existem sempre outras alternativas à agressão.
Teresa e as suas duas pestes, Rui, 6 anos, e Tiago, 4 anos, correm no limite do seu esforço para apanharem o comboio das 07h02. Com as línguas a saltar cá para fora, chegam à linha 4 e voam para a primeira carruagem que lhes aparece à frente. Tão automático quanto a porta que se fecha nas suas costas, a agradável brisa matinal é engolida pelo perfume da senhora de cabelo platinado e o suor do trabalhador que tal e qual saiu da obra de ontem está hoje a caminho de a retomar sem que o seu corpo tenha visto pingo de água. O desagradável rasto de odores aliado ao cruzamento de conversas dos passageiros com melhor acordar deixam Rui zonzo. Para se abstrair, escolhe uma vítima a quem fazer das suas – o irmão mais novo, tão claro como 2 e 2 são 4. Um croque na cabeça basta para deixar Tiago lavado em lágrimas e Rui com um sorriso malandro estampado no rosto.
A mãe, cabelo colado à cabeça e olheiras a cair no chão, repreende-os da forma que o cansaço lhe permite. “Parem com isso!”, diz. Rui goza com a sua falta de autoridade e faz pior ainda. Só que desta vez, Tiago não se deixa ficar e responde com uma série de socos bem dados na cabeça do irmão mais velho. Num curto espaço de tempo, gera-se uma triste cena familiar com direito a assistência e tudo. Um a um, os passageiros não perdem tempo em concentrar olhares sentenciadores em Teresa, como quem diz “O que é que está à espera para dar uma bofetada nesses malcriados!?” A mãe, já fora de si, prega um estalo em Rui e outro em Tiago. O som da mão comprida a carimbar o rosto das duas crianças traz o silêncio de volta ao comboio. “Problema resolvido”, pensou. Puro engano. Os manifestos de desagrado não tardam em se fazer ouvir. “Se havia necessidade de bater nos miúdos!”, diz um dos passageiros. “Não sabem educá-los, não os tenham!”, acrescenta a senhora que o acompanha. Se houvesse por ali um buraco, Teresa escondia-se.
“Estava numa fase muito complicada: excesso de trabalho, prestes a divorciar--me, enfim, tinha a vida virada do avesso”, conta Teresa Fernandes, 33 anos, secretária. “Não é que as circunstâncias justifiquem o acto em si, mas há momentos em que os filhos nos conseguem tirar do sério e quando estamos mais stressados ou preocupados parece que não temos alternativa”, explica.
A situação vivida por Teresa é típica no dia-a-dia de muitas famílias – quem viaja de transportes públicos sabe bem. Quando não se trata de uma picardia entre irmãos, há sempre a criança que bate o pé por um chupa-chupa que lhe é negado ou a que tem uma crise de choro sem razão aparente. Situações que põem qualquer um à beira de um ataque de nervos. “Seja qual for o cenário há sempre alternativa à agressão física”. Quem o diz é Tânia Soeiro, 34 anos, psicóloga na área da protecção à criança. Segundo a especialista, a aplicação de castigos, “adequados a cada idade e situação”, e a “tentativa de negociação” são as melhores opções. Até porque, acredita, “recorrer à palmadinha não resolve nada”. Exemplifica: “Quando uma criança faz uma grande birra porque quer um gelado e os pais não dão, bater-lhe não a vai acalmar, pelo contrário, vai fazê-la gritar mais ainda e chorar com maior intensidade.
Por conseguinte, a mãe ou o pai vão ficar ainda mais stressados e acaba por se gerar uma situação muito desagradável”, admite. “É por isso que é tão importante falar com as crianças e explicar-lhes, com muita paciência e com exemplos, por que não devem fazer determinadas coisas. Caso contrário elas não percebem porque estão a ser castigadas e isso é muito pior”, sublinha. E quando uma conversa olhos nos olhos não surte qualquer efeito? “A melhor solução é ignorar”, afiança. “A criança acaba por perceber que o seu comportamtento não lhe está a trazer ganhos”, explica a psicóloga. É caso para dizer que é preciso muito jogo de cintura para lidar com a endiabrez das crianças.
Que o diga Rita Castro, 33 anos, técnica de turismo. Mãe de Leonor, uma menina de dois anos que apesar da tenra idade já lhe dá muitas dores de cabeça. E embora Rita não seja apologista da educação à lei da palmada, já se sentiu “obrigada” a aconchegar as fraldas da filha. “Entrei em pânico quando vi a minha filha sair disparada para o meio da estrada e confesso que nem pensei... dei-lhe uma valente palmada no rabo, seguida de uma descompostura”, assume. “O ideal seria utilizar excusivamente o diálogo, mas quem é mãe sabe que isso é humanamente impossível”, garante.
Confrontada com esta situação, a psicóloga Tânia Soeiro, não consegue ser tão fundamentalista. “Percebo que o pai ou a mãe fiquem desorientados e ajam sem reflectir, mas também depende da intensidade da palmada que se dá, e o sítio, o sítio é muito importante”, repete. “Uma coisa é os pais aconchegarem as fraldas, outra é dar um par de estalos no rosto da criança. A gravidade é muito diferente”, afirma.
Joana Burnay, mãe de Maria, 4 anos, e João, 16 meses, discorda. Para ela, bater num sítio ou noutro vai dar ao mesmo. “Há 30 anos a palmada era seguida como uma forma eficaz da criança perceber que estava errada. Passados todos estes anos, os especialistas já puderam constatar que essa atitude não a leva a nada”, justifica. A responsável pela área de formação comercial numa empresa de telecomunicações, admite que o stress do dia-a-dia nem sempre torna a relação entre pais e filhos fácil, mas mesmo assim opta pelo exercício de autocontrolo. O segredo: “Respirar fundo e contar até dez”. A alternativa: “Fazer a criança perceber que agiu mal, levá-la a pensar nas consequências. É difícil, mas acredito que as ajude a crescer e desde cedo distinguir entre o bem e o mal”.
A POLÉMICA QUE SE ALASTRA AO MUNDO
Foi em 1979 que a Suécia se tornou no primeiro país a proibir explicitamente os castigos corporais e outros tratamentos humilhantes nas crianças. Tempos depois, seguiram-lhe o exemplo outros 13 países europeus que introduziram na sua legislação a abolição explícita desses métodos.
No caso português, só passados quinze anos, em 1994, é que o Supremo Tribunal de Justiça emitiu um acórdão contra a aplicação de castigos corporais às crianças, incluindo no seio da própria família.
A imposição de castigos físicos como forma de disciplinar os filhos é, no entanto, polémica em todo o Mundo.
- Reino Unido: A Câmara dos Lordes aprovou um projecto de lei que coíbe agressões físicas a crianças, mas após intenso debate, as palmadas, foram consideradas aceitáveis.
- Alemanha, Noruega, Suécia, Finlândia e Dinamarca: são países onde a simples palmada é totalmente proibida.
- Brasil: Há grupos que consideram a mais leve das palmadas como agressão física. Para eles não existe palmada ‘light’.
Lidar com as birras das crianças nem sempre é fácil. Mas é importante os pais saberem que devem impôr--se e privilegiar o diálogo. Siga estes conselhos.
O DIÁLOGO
A violência gera violência, disso todos sabemos. E o que começa com uma palmadinha pode, com o hábito, tornar-se num castigo pouco eficaz. Por isso, o melhor é optar desde logo pelo diálogo. Explicar às crianças o que está bem e o que está mal é um grande passo. Só necessita de tempo e muita paciência.
CASTIGOS
Para aplicar um castigo é preciso medir o tipo de gravidade da acção da criança e a sua idade. Nos mais pequenos pode, por exemplo, privá-lo de ver os desenhos animados preferidos, no caso de a criança não ter feito os trabalhos da escola. Negociar é importante, fá-los perceber que têm responsabilidades.
PALAVRA FIRME
Há filhos que tentam por todas as vias serem eles a comandar os passos dos pais. Por vezes, conseguem o cúmulo dos cúmulos: serem eles a mandar lá em casa. Isso jamais pode acontecer. Soldados uma vez, soldados sempre! Os pais têm que ser firmes, senão perdem toda a autoridade.
AJUDA ESPECIALIZADA
Se a situação familiar se tornar descontrolável, se já tentou por todos os meios dialogar com o seu filho e mesmo assim ele não o respeita, então o melhor é procurar a ajuda de especialistas. Quem sabe se uma terapia familiar não ajudará a unir os laços familiares que, sem darem por isso, deixaram quebrar.
OPINIÃO DA JORNALISTA DULCE GARCIA
Bater não resolve. Está certa a psicóloga Amélia Azevedo, fundadora do Laboratório de Estudos da Criança (LACRI) do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo, quando questiona a palmada como forma de educação. “Bater em adulto é agressão, em cachorro é crueldade e em criança é educação?”
Tem razão sim senhor. Nenhum pai ou mãe ensina grande coisa quando assenta a mão no filho – a não ser que a sua força é tremendamente superior à dele.
Há psicólogos e pediatras que desvalorizam o gesto e outros – como a fundadora da LACRI – que equiparam a palmada à mais vil agressão. Mas no meio de tanta algazarra – com tiques fundamentalistas de ambos os lados – esconde-se um protótipo de criança moderna, hábil em dominar os pais e chantagear o pedopsiquiatra.
Aquilo que os meninos foram durante séculos – projectos de adulto sem direitos nem lugar à mesa – são hoje os pais, seres humanos altamente imperfeitos a quem é exigido que ganhem a compaixão e a sabedoria de Cristo na hora de educar os filhos.
As crianças têm más notas? Culpa dos pais que passam demasiado tempo fora de casa. São insubordinadas? Culpa dos pais que não sabem impor o respeito sem usar o grito, o castigo, a palmada, enfim, tudo o que vai fazer deles adultos cheios de traumas e inseguranças.
Os pais dão presentes? Estragam os filhos. Não dão? São demasiado austeros. Deixam ver televisão? Estão a ser muito permissivos. São contra a caixa negra? Estão a isolá-los do mundo. Até apetece perguntar o que é que os pais fazem de bom, se é que fazem alguma coisa a não ser consumir-se em remorsos por não estar à altura de produzir seres humanos da mais alta envergadura.
Acredito que a palmada não educa e que é um acto de desespero. Mas também acho que se ela não existisse, faltavam psiquiatras em Portugal para tratar tantos pais. Até por causa do maldito remorso: a gente dá-lhes um açoite no rabo e fica com a alma feita em frangalhos…
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